Apenas 6,5% das operações policiais no Rio foram em área de milícia, diz estudo

Relatório mostra que milícias têm mais vantagens políticas e econômicas do que três facções criminosas que disputam o tráfico no estado

Leandro Resendeda CNN

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As milícias do Rio de Janeiro têm se expandido com graças às poucas operações policiais nos territórios sob seu controle e omissão dos órgãos que deveriam fiscalizar suas atividades imobiliárias. Essa é a conclusão do relatório “A expansão das milícias no Rio de Janeiro: uso da força estatal, mercado imobiliário e grupos armados”, que será lançado nesta sexta-feira (30). Os dados foram compilados pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense, e pelo Observatório das Metrópoles, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A principal conclusão é de que as milícias que atuam no Rio de Janeiro têm vantagens políticas e econômicas em relação às três facções que disputam o tráfico de drogas no Rio de Janeiro: Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos.

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Operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro
Operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro
Foto: Divulgação/Polícia Civil

O exemplo que resume esta vantagem é o fato de que, em 2019, apenas 6,5% das operações policiais realizadas na cidade do Rio de Janeiro em 2019 foram em áreas de milícia. Apesar do baixo número as milícias, como um estudo anterior mostrou, controlam 25,5% dos bairros do Rio, o que equivale dizer que cerca de ? dos cariocas vivem sob o controle desses criminosos. De acordo com o estudo, o baixo número de operações, no comparativo com a área por eles controlada, confere vantagem “política” aos milicianos na disputa por espaço.

A maior parte das operações policiais no Rio ocorreu em bairros onde há disputa por controle territorial entre criminosos: em 2019, foram 45,5% das incursões. Áreas dominadas por facções do tráfico, que hoje dominam um espaço menor e atingem menos cariocas, são as que mais recebem operações policiais: 48% delas foram em bairros dominados por uma das três facções de traficantes que atuam no estado.

A pesquisadora Carolina Grillo, uma das responsáveis pelo estudo, explica que os números levantados são “um mínimo”: o monitoramento apresentado leva em consideração as operações reportadas via imprensa ou redes sociais, então podem ter ocorrido outras incursões para além das contabilizadas, e não menos.

A outra vantagem apontada pelo relatório é econômica, com a entrada massiva da milícia no ramo imobiliário em toda cidade – contando com a omissão da fiscalização por parte do poder público. Grilagem de terrenos, construções ilegais e domínio sobre habitações do Minha Casa, Minha Vida, localizadas principalmente em bairros dominados pela milícia ajudam a explicar como as milícias têm enriquecido.

Grillo lembra do caso da Muzema, em 2019, quando prédios construídos pela milícia desabaram e deixaram 24 pessoas mortas. “Ali era um empreendimento imobiliário, irregular e ilegal, que foi posteriormente legalizado. O indicador que trazemos é importante, pois muitas vezes as milícias usam outros grupos criminais para conseguir licenças. E essa é uma fonte de renda que a gente consegue mensurar de alguma maneira, ao contrário das taxas de segurança, por exemplo”.

O estudo revela que, entre 2009 e 2017, o maior número de licenças para construção dadas pela prefeitura se deu em áreas dominadas pela milícia, em Campo Grande e Jacarepaguá. Um outro mapa traz, ainda, a informação de que de todas as áreas que tiveram mais de 1000 permissões para legalizar prédios, apenas uma não fica em área de milícia.

“A análise deste mapa, portanto, parece indicar que os dispositivos de legalização de empreendimentos imobiliários irregulares pela prefeitura favorecem a expansão do mercado imobiliário em áreas sob o domínio armado de milícias, onde esse dispositivo tem sido mais frequentemente acionado”, diz trecho do estudo.

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