Aquecimento global, desmatamento: termos controversos da emergência climática

Relatório do IPCC alertou sobre irreversibilidade das ações humanas; agora é hora de adequar o vocabulário ao tamanho do problema

Desde a década de 1990, geleiras da Islândia têm encolhido. Embora mudança climática esteja mais associada à ideia de 'aquecimento', outros fenômenos são reflexo direto de a Terra estar mais quente
Desde a década de 1990, geleiras da Islândia têm encolhido. Embora mudança climática esteja mais associada à ideia de 'aquecimento', outros fenômenos são reflexo direto de a Terra estar mais quente Foto: Sean Gallup/Getty Images

Edison Veiga, colaboração para a CNN

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Na semana que começou com a divulgação do incisivo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), termos relacionados ao atual momento ambiental foram repetidos exaustivamente pela mídia e por pesquisadores.

Mas algumas das expressões que nos acostumamos a ouvir já não são mais tão apropriadas: ou se provaram equivocadas ou simplesmente não abrangem mais o problema em sua complexidade.

Especialistas ouvidos pela CNN ressaltam como fator positivo na linguagem adotada agora o uso do tempo verbal. Pela primeira vez, a questão está claramente trazida para o tempo presente, e não mais como uma perspectiva para um futuro longínquo.

“Essa linguagem já é decorrente de reflexões que vêm sendo feitas. O próprio relatório do IPCC usa os verbos predominantemente no presente, no particípio passado e no passado simples”, afirma o pesquisador Tiago Reis, que estuda questões ambientais na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.

Logo na página sete, o texto do IPCC decreta: “A influência humana tem aquecido o clima numa taxa sem precedentes nos últimos 2 mil anos”. “Todas as declarações estão no presente. Há muitos estudos que indicam que a forma de comunicar no futuro seja prejudicial para a reação humana quanto a tomada de decisões”, acrescenta Reis.

 Natalie Unterstell, mestre em políticas públicas pela Universidade de Harvard, lembra que o setor sempre trabalha com projeções — e não com previsões. “Futuros projetados, futuros possíveis”, ressalta Unterstell, que é presidente do think tank Talanoa, dedicado à política climática.

Para ela, isso muda a percepção das pessoas e, a partir dessa nova abordagem, é possível falar mais das mudanças climáticas no presente, com bastante confiança. “Esse relatório foi o primeiro absolutamente claro e contundente no sentido de que já aquecemos e isto foi causado por influência humana. Já estamos vivendo isso, já podemos atribuir determinados eventos extremos ao próprio aquecimento do planeta.”

Confira cinco expressões da área ambiental que podem ser consideradas ultrapassadas ou suscetíveis a interpretações equivocadas frente ao tamanho do problema.

Aquecimento global x emergência climática

Embora tecnicamente esteja corretíssima, já que as médias de temperatura global estão cada vez mais elevadas, a expressão “aquecimento global” vem sendo substituída por outras como mudanças climáticas, emergência climática, crise climática, crise de civilização e colapso ambiental.

Pesquisador no Instituto Ambiental de Estocolmo, na Suécia, o biólogo Mairon Bastos Lima concorda que “aquecimento global” pode confundir, sobretudo as pessoas que não compreendem que eventos adversos como dias de frio extremo também são consequência do esquentamento do planeta. 

Para ele, a melhor expressão é “mudanças climáticas”. “Ressoa melhor com o que muita gente já percebe no dia a dia. As pessoas do campo, os mais velhos, eles já falam que ‘o tempo está mudado’, percebem que o clima está alterado”, diz. “Já ‘aquecimento global’ acaba por confundir, quando a pessoa vê outros fenômenos que não calor e não consegue identificar aquilo com o termo. Vira uma contradição que é contraproducente.” 

Unterstell prefere “emergência climática”. “Emergência é uma equação: risco dividido pelo tempo. Se temos algo com alto risco, como os impactos todos delineados no relatório do IPCC, e um curtíssimo espaço de tempo para poder gerenciar esses riscos, então estamos em uma emergência. Não é uma expressão alarmista, mas uma expressão bastante técnica.”

Ela é contra, por outro lado, o uso da palavra crise. Justamente porque passa a ideia de que é algo pontual, que terá fim. “E muitos dos efeitos que vamos experimentar e que já estamos experimentando não vão passar. Vão ficar por séculos, milênios, mesmo que consigamos reverter a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera”, ressalta. 

Desmatamento x deflorestamento

Um dos termos mais associados ao Brasil, o “desmatamento” é considerado ultrapassado por várias razões. Uma delas é conceitual. Muito além do desmatamento, há também a degradação florestal — com efeitos graves sobre o meio ambiente.

“Se o desmatamento é a conversão de uma área de floresta para outro tipo de uso da terra, a degradação é o resultado de atividades humanas e distúrbios climáticos que afetam a qualidade da floresta”, explica o biólogo Filipe França, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Rede Amazônia Sustentável. “Quando você desmata, você remove a floresta. Quando você degrada, deixa uma floresta com saúde debilitada.”

Funcionário do Ibama combate o fogo na Amazônia em Novo Progresso (PA)
Funcionário do Ibama combate o fogo na Amazônia em Novo Progresso (PA)
Foto: Ernesto Carriço/NurPhoto via Getty Images

Isso significa que a mata restante não consegue se manter em equilíbrio. Há perda de biodiversidade — espécies mais sensíveis não resistem. Aos poucos, o bioma como um todo perde a capacidade de fazer o que os cientistas chamam de serviços ecossistêmicos, a contribuição da natureza para a natureza que, em outras palavras, garante a qualidade da vida no planeta. 

E esse tipo de cenário ocorre não só como consequência de ação de madeireiros que se infiltram na floresta ou de queimadas pontuais. Também pode ser resultado da fragmentação, quando pequenas porções de mata são preservadas — muitas vezes atendendo a limites da legislação —, mas de forma desconectada umas das outras, impossibilitando intercâmbios de animais e plantas. 

Além disso, o termo desmatamento pode passar a errônea ideia de que o que se tira “é só mato”, algo de pouca importância no imaginário coletivo. A tradução literal do termo empregado em inglês, desflorestamento, transmite uma ideia mais realista do ato: a derrubada metódica e escalonada de vegetação nativa para a posterior utilização do solo, geralmente para atividades agropecuárias. 

Savanização x degradação

França aponta para outra terminologia bastante presente no léxico de ambientalistas, acadêmicos e da mídia: a savanização da Amazônia. No caso brasileiro, o bioma que tem as características naturais de savana é o Cerrado — muitas vezes visto como uma espécie de “primo pobre” dentre as propaladas Amazônia e Mata Atlântica. 

Há décadas, o discurso que alerta para a constante degradação da Amazônia insiste nesse ponto: algo precisa ser feito para que a floresta não se torne uma savana. Para muitos pesquisadores, não é isso que vem ocorrendo. O biólogo França defende que a prova de que a Amazônia não está se savanizando é que não há registro de um fluxo de animais e plantas do Cerrado para lá — o que ocorre é mesmo a degradação do bioma.

Além disso, a consolidação dessa terminologia acaba depreciando o próprio conceito de savana, como se o Cerrado não fosse importante, rico e biodiverso. “O desmatamento da Amazônia é destruição, depredação do patrimônio natural do país e do planeta. Savanização não é isso”, frisa o biólogo Mairon Bastos Lima. “Desmatar para colocar boi não é savanização. Isso seria realmente banalizar as savanas como sinônimo de pasto.”

“O Cerrado é, na verdade, o berço das águas que nos abastecem, a caixa d’água do Brasil”, lembra Unterstell. “O que acontece na Amazônia é o risco do colapso. Já perdemos 20% da floresta, sendo que até 1970 era apenas 1% dela que havia sido desmatada. Estudos indicam que entre 23% e 27% seja o limite para que ela não deixe de produzir os serviços ecossistêmicos.”

Energia limpa

Muito se fala em substituição de matriz energética e, aos poucos, essas mudanças chegam ao dia a dia — os carros elétricos são prova desse movimento. O problema, alertam os pesquisadores, é como garantir que a energia utilizada seja realmente limpa.

Carro elétrico abastecendo nas ruas de Londres
Carro elétrico abastecendo nas ruas de Londres: baterias têm problemas na fabricação e no descarte
Foto: Yui Mok/PA Images via Getty Images

A energia hidrelétrica, por exemplo, fartamente utilizada no Brasil, era vista no passado como uma alternativa ecologicamente correta — e é o que parece ser, quando comparada com as termelétricas ou com uma planta nuclear.

Por outro lado, a instalação de uma hidrelétrica demanda o alagamento de uma imensa região — geralmente antes ocupada por floresta — e seu funcionamento traz prejuízos para a fauna fluvial e também para comunidades ribeirinhas que não conseguem mais utilizar o curso d’água como antes.

“Hidrelétricas destroem a fauna, prejudicam a biodiversidade e são uma bomba de emissões de gases do efeito estufa, porque quando uma área de vegetação nativa é inundada, essas árvores morrem e se tornam emissoras de carbono e metano. Isso foi muito negligenciado no passado”, avalia Tiago Reis.

O outro capítulo tem a ver com os veículos elétricos. Na corrida desenfreada em busca de alternativas menos poluentes, os carros do tipo começam a se firmar como solução. Mas há uma armadilha: as baterias utilizadas nesses carros, que precisam de minerais específicos.

“Tenho visto vários estudos que modelam o uso desses minerais, como lítio, e as indicações são de que o planeta simplesmente não teria estoques suficientes desses materiais para uma eventual substituição de toda a frota”, Reis acrescenta. 

Além disso, nas duas pontas desses equipamentos — a fabricação e o descarte das baterias, encerrada a vida útil —, não é difícil imaginar que a energia não pode ser considerada 100% limpa como a expressão consagrou.

“Energia limpa é uma expressão mais de comunicação do que analítica”, explica Lima. “Limpo é algo relativo. E perigoso, pois permite a muitos chamar, por exemplo, o gás natural de ‘energia limpa’ só porque emite menos do que o petróleo ou o carvão mineral.”

Ele lembra que o debate acaba se situando com base exclusivamente no clima, ou seja, nas emissões de gases de efeito estufa, mas é preciso pensar em outros danos de acordo com a matriz energética: de paisagístico a poluição sonora. “Limpo ou sujo não é algo binário. É algo relativo. A sustentabilidade energética precisa ser pensada de forma mais ampla. Não só nos seus outros impactos ecológicos e sociais, como também no aspecto econômico e político.”

Neutralização de carbono

“Muito do que se oferece como neutralização de emissões é tão eficaz quanto comer abacaxi depois do churrasco e achar que queimou a gordura”, comenta Lima. Seja por marketing ou realmente com a melhor das intenções, ações de neutralização de emissões de carbono, embora louváveis,  podem dar a falsa impressão de que uma coisa conserta diretamente a outra. 

“Uma vez que uma área foi desmatada, queimada e emitiu dióxido de carbono, esse carbono se concentrou na atmosfera e está gerando efeitos de aquecimento global. Quando se planta uma área equivalente de floresta para ‘compensar’, não significa que vai neutralizar o dano”, diz Reis.

Em primeiro lugar, porque essas árvores vão precisar de décadas para que consigam estar desenvolvidas a ponto de absorverem a mesma quantidade de carbono que a mata original. E enquanto isso, a conta da neutralização não estará fechada. Mas o pesquisador alerta ainda para os efeitos secundários da emissão do carbono.

“Ele saiu da floresta e foi para a atmosfera e nisso contribuiu para o efeito de aquecimento. Com isso, hipoteticamente, pode ter feito com que um pedaço de permafrost da Sibéria tenha sido derretido, liberando assim gás metano na atmosfera — um gás que tem efeito 30 vezes mais potente para o efeito estufa do que o dióxido de carbono”, argumenta Reis.

“Ou seja: uma pessoa desmatou 10 hectares e replantou 10 hectares em outro local, para ‘compensar’. Mas vai levar pelo menos 50 anos para essa nova floresta recuperar a quantidade de biomassa emitida. E nesses 50 anos, o carbono vai ficar acumulando na atmosfera, aquecendo o planeta. Não foi neutralizado.”

Para Lima, o discurso de neutralização do carbono costuma ser “uma forma de dizer às pessoas que elas não precisam repensar seus comportamentos, que não precisamos rever nossa sociedade ou economia como estão organizadas”, como se bastasse “uma ação adicional para que tudo seja supostamente resolvido”. “É como uma pílula mágica em escala social. Não funciona e ainda atrapalha a conscientização das pessoas”, destaca ele.

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