Estudo: Goiás lidera em solução de homicídios, DF é referência e RN, o pior

Levantamento do Instituto Sou da Paz aponta diferenças de até nove vezes entre estados brasileiros; São Paulo, apesar de registrar a menor taxa de homicídios do país, esclareceu 31% dos casos em 2023, pior resultado da série histórica estadual

Adriana De Luca, da CNN Brasil, São Paulo
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O Rio Grande do Norte registra o pior índice de esclarecimento de homicídios do Brasil, com apenas 9% dos casos resultando em denúncia apresentada pelo Ministério Público. Na outra ponta, Goiás aparece com a maior média percentual de esclarecimento (86%), seguido pelo Distrito Federal (81%).

Os dados fazem parte do estudo "Diagnóstico sobre a Investigação de Homicídios no Brasil", divulgado nesta quarta-feira (8) pelo Instituto Sou da Paz, que analisou os fatores associados às taxas de esclarecimento de homicídios entre os estados brasileiros. Pela primeira vez, a pesquisa buscou identificar por que algumas unidades da federação conseguem resultados muito superiores aos de outras.

O levantamento considera esclarecido o homicídio doloso que resulta em denúncia criminal oferecida pelo Ministério Público até o final do ano seguinte ao crime. O indicador mede a responsabilização inicial no sistema de Justiça e não inclui etapas posteriores, como julgamento ou condenação. Os percentuais divulgados correspondem à média registrada entre 2020 e 2023.

Embora Goiás apresente a maior média percentual de esclarecimento, o Instituto Sou da Paz ressalta que o estado disponibilizou dados para apenas um dos quatro anos analisados. Por esse motivo, o estudo aponta o Distrito Federal como a principal referência nacional, por reunir elevado percentual de esclarecimento e maior regularidade no envio das informações ao longo da série histórica.

Na sequência aparecem Minas Gerais (75%), Paraná (72%), Mato Grosso do Sul (71%), Rondônia (67%) e Santa Catarina (65%).

No outro extremo estão Rio Grande do Norte (9%), Bahia (14%), Piauí (23%), Rio de Janeiro (23%) e Ceará (27%).

Veja abaixo o ranking completo de esclarecimento de homicídios (média 2020-2023):

  • Goiás – 86%
  • Distrito Federal – 81%
  • Minas Gerais – 75%
  • Paraná – 72%
  • Mato Grosso do Sul – 71%
  • Rondônia – 67%
  • Santa Catarina – 65%
  • Mato Grosso – 57%
  • Sergipe – 55%
  • Espírito Santo – 48%
  • Acre – 47%
  • Maranhão – 41%
  • Amazonas – 41%
  • São Paulo – 40%
  • Paraíba – 39%
  • Roraima – 39%
  • Pernambuco – 33%
  • Amapá – 30%
  • Pará – 29%
  • Ceará – 27%
  • Rio de Janeiro – 23%
  • Piauí – 23%
  • Bahia – 14%
  • Rio Grande do Norte – 9%

Alagoas, Rio Grande do Sul e Tocantins não disponibilizaram dados suficientes para compor a série analisada.

Queda em São Paulo

Em São Paulo, a média do período analisado ficou em 40%, mas o estado vem apresentando queda. Depois de atingir 47% em 2021, o índice caiu para 40% em 2022 e chegou a 31% em 2023, o menor percentual da série histórica analisada pelo Instituto Sou da Paz.

O caso paulista chama atenção porque o estado registra a menor taxa de homicídios do Brasil — 7,8 mortes por 100 mil habitantes em 2023 —, mas não consegue converter esse cenário em melhores resultados nas investigações. Segundo o estudo, São Paulo apresenta um desempenho inferior ao esperado para seu contexto criminal.

A pesquisa não encontrou relação direta entre o número de policiais ou peritos por habitante e as taxas de esclarecimento. Em contrapartida, identificou que estados que transformaram a investigação de homicídios em prioridade permanente, com metas, monitoramento de indicadores, fortalecimento da perícia e gestão por resultados, obtiveram avanços consistentes.

Em entrevista à CNN Brasil, o coordenador da pesquisa, Rafael Rocha, afirmou que estados como Paraíba, Paraná, Pernambuco e Mato Grosso passaram a acompanhar sistematicamente os indicadores de elucidação e a cobrar resultados das equipes responsáveis pelas investigações. Segundo ele, São Paulo ainda não adota esse modelo de forma estruturada, o que ajuda a explicar o desempenho abaixo do esperado, apesar da baixa taxa de homicídios.

Segundo Rafael Rocha, o objetivo desta edição foi ir além do ranking.

“Até agora, nosso esforço era medir quantos homicídios eram esclarecidos. Desta vez, quisemos entender por que alguns estados conseguem resultados muito melhores do que outros.”

Estados em evolução

Além do Distrito Federal, o estudo destaca estados que vêm apresentando evolução consistente.

O Mato Grosso elevou sua taxa anual de esclarecimento de homicídios de 33% para 71% entre 2020 e 2023. Rondônia passou de 50% para 92% no mesmo período. A Paraíba ampliou o índice de 32% para 46%, enquanto Sergipe avançou de 46% em 2022 para 64% em 2023.

Segundo os pesquisadores, esses resultados mostram que é possível ampliar a capacidade de esclarecimento dos homicídios por meio da qualificação das investigações, fortalecimento da perícia, gestão por indicadores e prioridade política para a investigação desses crimes, mesmo em estados que convivem com elevados índices de violência.

Outro lado

Secretaria de Segurança Pública de São Paulo 

A Secretaria da Segurança Pública não comenta pesquisas cuja metodologia desconhece. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) esclarece que são considerados solucionados casos em que houve indiciamento formal dos responsáveis, sustentado por provas e evidências colhidas no curso do inquérito policial. Em 2025, o trabalho da Polícia Civil, por meio do DHPP, permitiu que cerca de 51% dos inquéritos instaurados por autoria desconhecida fossem esclarecidos, resultado superior à média nacional, que varia entre 20% e 30% conforme estatísticas do CNJ e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O desempenho se mantém neste ano. Nos cinco primeiros meses de 2026, mais de 48% dos inquéritos instaurados pelo departamento já foram esclarecidos.

A pasta intensificou as ações de prevenção e repressão aos crimes contra a vida com base no monitoramento contínuo dos indicadores criminais realizado por meio do Programa SP Vida. A iniciativa reúne dados estratégicos que orientam o emprego das forças policiais e o reforço do policiamento em áreas com maior incidência de ocorrências. A Polícia Civil de São Paulo concentra o maior volume de investigações e, há quase três anos, vem adotando um conjunto de medidas para melhorar ainda mais a taxa de solução de casos de homicídio. Entre elas estão o incremento das equipes e delegacias especializadas, realização de concursos públicos para ampliação de efetivo, modernização de estruturas e implantação de sistemas de inteligência artificial e análise de dados.

Secretaria de Estado da Segurança Pública de Sergipe

A respeito do estudo divulgado nesta quarta-feira, dia 8, pelo Instituto Sou da Paz sobre a elucidação de homicídios no Brasil, a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE) destaca que o levantamento, baseado na média dos anos de 2020 a 2023, coloca Sergipe como referência nacional na investigação de homicídios, com índice de elucidação de 55%, muito acima da média nacional, de pouco mais de 30%. A SSP ressalta ainda que esse percentual já foi superado e que, atualmente, a taxa de elucidação de homicídios em Sergipe ultrapassa 66%, conforme levantamento do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informa que com o intuito de fortalecer o trabalho de investigação para elucidação de crimes por mortes violentas, são realizados investimentos em equipamentos e efetivo na Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE). Entre 2023 e 2026, a instituição recebeu 1.272 novos servidores. Entre eles, 750 Oficiais de Investigação e 94 delegados que estão em formação na Academia Estadual de Segurança Pública (Aesp). Além de efetivo, 11 novas delegacias e um Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) para a Região Metropolitana de Fortaleza foram entregues.

Secretaria de Defesa Social de Pernambuco

Os dados oficiais da Secretaria de Defesa Social mostram que a taxa de resolubilidade das Mortes Violentas Intencionais foi de 60,2% (2023), 63,9% (2024) e 64,9% (2025). Nos primeiros seis meses de 2026, as taxas estão em 52,5% de casos concluídos com identificação de autoria e remetidos ao Ministério Público. Os números são da Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística (GGace) da SDS.

Polícia Civil de Minas Gerais

A PCMG informa que o Relatório Estatístico de Mortes Violentas Intencionais (MVI) e Taxa de Elucidação (Art. 4º-A, da Lei Estadual nº 13.772/2000) estão disponíveis no site, no link transparência. Nos relatórios, constam a metodologia utilizada pela Diretoria de Estatísticas da Superintendência de Informações e Inteligência Policial.

Polícia Civil do Estado do Pará

A Polícia Civil do Estado do Pará informa que, segundo as diretrizes da Portaria do Ministério de Justiça e Segurança Pública Nº 1.145, de 9 de fevereiro de 2026, que versa sobre as fórmulas para aferição do desempenho investigativo das Polícias Judiciárias no país, o índice de elucidação de homicídios da Polícia Civil do Estado do Pará foi de 45,87%, entre os anos de 2020 e 2023.

Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro

A Secretaria de Segurança Pública desconhece a metodologia utilizada no levantamento. A fonte oficial de informações é o Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão responsável pela consolidação e análise dos indicadores do Governo do Estado.

De acordo com o ISP, a taxa de elucidação de letalidade violenta no estado do Rio de Janeiro no 1º semestre de 2024 foi de 29,3% - um aumento quando comparado o semestre anterior (22,9% no segundo semestre de 2023). O mesmo panorama é visto no que diz respeito ao homicídio. Ainda segundo o Instituto, a elucidação destes casos subiu de 19,6% no segundo semestre de 2023 para 24,8% no primeiro semestre de 2024.

Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal

A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) informa que não irá se manifestar sobre levantamentos produzidos por instituições externas.

Esclarece, ainda, que eventuais informações relativas ao esclarecimento de homicídios e à metodologia utilizada para sua apuração são de competência da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), órgão responsável pela investigação desses crimes.

Polícia Civil do Rio Grande do Norte

A Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (SESED/RN) e a Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Norte (PCRN), em atenção aos questionamentos formulados por esse veículo de imprensa acerca da pesquisa sobre esclarecimento de homicídios, reafirmam seu compromisso com a transparência, a produção de estatísticas oficiais e o permanente aperfeiçoamento das investigações dos crimes contra a vida.

Secretaria da Segurança Pública do Paraná

A Secretaria da Segurança Pública do Paraná (Sesp) ressalta que o Paraná tem o maior índice de esclarecimento de homicídios da região Sul e um dos maiores do País, com 72%. Os dados da pesquisa do Instituto Sou da Paz são de 2023 e apontam um crescimento de 12 pontos percentuais em relação a 2022, o que colocou o Estado na faixa de alto desempenho. Essa evolução é fruto de um investimento prioritário nos últimos anos em inteligência, equipamentos e integração das polícias. Vale destacar que se for considerada a forma de cálculo estatístico padrão do FBI, que leva em conta somente a atuação da polícia, esse índice fica próximo de 100% no Paraná em 2024 e 2025. Outro ponto importante é que o relatório cita o Paraná, notadamente a atuação da Polícia Civil (PCPR), como um exemplo de boas práticas das investigações a serem seguidas.

A CNN Brasil solicitou posicionamento aos estados e aguarda retorno.