Desafio do desodorante: rede social pode ser responsabilizada? Entenda

O caso de Sarah Raissa, ocorrido na última semana, levanta questionamentos sobre a responsabilidade da plataforma em relação a conteúdos perigosos e à segurança de menores

Beto Souza, da CNN
Compartilhar matéria

Uma menina de oito anos, Sarah Raíssa Pereira, morreu no Distrito Federal após supostamente participar de um desafio viral no TikTok envolvendo a inalação de desodorante.

O caso, ocorrido na última semana, levanta questionamentos sobre a responsabilidade da plataforma em relação a conteúdos perigosos e à segurança de menores.

Na última quinta-feira (10), Sarah Raissa foi levada ao Hospital Regional de Ceilândia (HRC), no Distrito Federal, após ter inalado o gás de um desodorante aerosol, o que resultou em uma parada cardiorrespiratória.

O que se sabe sobre menina que inalou desodorante em desafio no TikTok

Apesar de ter sido reanimada cerca de uma hora depois, a garota não apresentou reflexos neurológicos, levando à confirmação de morte cerebral.

O falecimento foi oficialmente declarado neste domingo (13), quando a família também fez o registro da ocorrência policial. A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga como a criança teve acesso ao desafio e busca identificar os responsáveis pela sua divulgação.

Especialista explica por que inalar desodorante pode ser fatal

O que diz a lei?

Especialistas em direito consultados pela CNN Brasil divergem sobre a possibilidade de responsabilização da empresa.

Beatriz Alaia Colin, advogada especialista em Direito Penal, argumenta que a responsabilização criminal da empresa é improvável no Brasil. Segundo ela, a legislação brasileira limita a responsabilidade criminal de pessoas jurídicas a crimes ambientais.

"A empresa não poderia ser responsabilizada, uma vez que no Brasil os únicos crimes passíveis de serem praticados por pessoa jurídica são os ambientais", avalia.

Além disso, a advogada questiona a existência de um dever legal do TikTok em impedir mortes decorrentes de desafios virais. Polícia vai notificar TikTok após criança morrer em desafio do desodorante.

Marco Civil da Internet e dever de remoção de conteúdo

Outros especialistas defendem a possibilidade de responsabilização civil da plataforma. Antonielle Freitas, especialista em Privacidade e Proteção de Dados e Segurança Cibernética, aponta o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD - Lei nº 13.709/2018), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - Lei nº 8.069/1990) e o Código de Defesa do Consumidor (CDC - Lei nº 8.078/1990) como instrumentos legais que poderiam embasar a responsabilização do TikTok.

"Pode haver responsabilização da plataforma, se for comprovado que a plataforma falhou em monitorar e remover conteúdos perigosos", afirma.

Segundo Freitas, se a plataforma foi notificada sobre o conteúdo perigoso e não tomou as medidas cabíveis para removê-lo, pode ser responsabilizada. Ela destaca a vulnerabilidade de crianças e adolescentes no ambiente online.

Jurisprudência

Fernando de Jesus Santana, especialista em Direito Privado, concorda com a possibilidade de responsabilização com base no Marco Civil da Internet.

Polícia instaura inquérito após morte de criança em desafio pela internet

Ele cita a discussão nos tribunais sobre a responsabilidade das plataformas, mesmo sem ordem judicial, mencionando a manifestação do Ministro Barroso do STF em 2024, que defendeu que as plataformas deveriam ser mais proativas na moderação de conteúdo. Santana levanta a hipótese de o desafio se enquadrar como indução ou instigação ao suicídio.

"No caso como o apresentado, da jovem de Ceilândia, fica evidente que as publicações postadas na rede social que a levaram a participar do mencionado “desafio na internet” – que consistia na inalação de desodorante aerossol – deram ensejo à efetiva prática criminosa prevista no artigo 122 do Código Penal, que se refere à indução ou instigamento ao suicídio", exemplificou.

Sanções e medidas de segurança

Os especialistas ponderam que as possíveis consequências para o TikTok, caso seja responsabilizado, incluem multasadvertênciassuspensão temporária das atividadesindenizações e a imposição de medidas de monitoramento mais rigorosas. A vigilância parental e a educação digital são apontadas como medidas preventivas essenciais pelos especialistas.

Janja pede regulamentação das redes após morte de criança por desodorante

Os pais de Sarah Raíssa podem buscar a responsabilização do TikTok através de queixa às autoridadesação judicial e colaboração com as investigações policiais. Antonielle Freitas cita o caso de Antonella Sicomero na Itália, onde o órgão regulador impôs restrições ao TikTok após a morte de uma criança em um desafio.

A CNN tenta contato com o TikTok para um posicionamento sobre o caso, mas não obteve retorno até o n=momento. O espaço segue aberto.