COP30

Guajajara quer que COP30 reconheça demarcação indígena como ação climática

Proposta será levada para debate nos grupos temáticos da conferência de Belém, em novembro

Pedro Teixeira, da CNN, em Brasília
Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas  • Mre Gavião
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A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, afirmou nesta terça-feira (7) que o Brasil chegará à COP30, em Belém (PA), com a proposta de incluir a demarcação e a proteção de terras indígenas nas metas oficiais da política climática nacional.

A intenção é inserir o tema na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês), documento que define os compromissos brasileiros de redução de emissões de gases de efeito estufa.

“Estamos trabalhando para que a demarcação de terras indígenas e a proteção territorial sejam reconhecidas como ações de mitigação”, disse Guajajara. “As terras indígenas já protegem muito mais do que outras áreas de conservação que recebem apoio. É preciso valorizar isso", completou.

Segundo a ministra, o movimento indígena e o ministério elaboraram conjuntamente propostas técnicas para a NDC e para o Plano Clima, que ainda está em discussão dentro do governo. “O movimento indígena apresentou sua NDC e nós complementamos com uma nota técnica para levar aos ministérios que tratam do tema. Queremos que, mesmo que o texto oficial não seja alterado, o presidente Lula possa fazer um anúncio político na COP30 incorporando o que está na NDC indígena”, explicou.

A proposta inclui metas concretas como a conclusão da demarcação de 72% das terras indígenas que já possuem relatórios de identificação e portarias declaratórias. “São áreas que estão paradas por falta de orçamento ou por causa do marco temporal. Se conseguirmos destravar esses processos, estaremos fortalecendo a política climática brasileira e garantindo direitos constitucionais”, afirmou.

Guajajara reconhece, porém, que há resistência dentro do governo e de setores ligados ao agronegócio. “O momento é muito difícil para mudar a NDC, porque abriria espaço para outros setores e o agronegócio está pressionando para alterar percentuais. Mas seguimos insistindo que proteger terras indígenas é proteger o clima”.

Fundo climático

A ministra também comentou a criação de fundos financeiros voltados para comunidades indígenas, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). “O TFFF está sendo organizado com uma governança que garante a participação direta dos povos indígenas não só no acesso, mas também na tomada de decisão”, explicou.

Guajajara afirmou que o governo brasileiro tem trabalhado para sensibilizar outros países a contribuírem com o fundo. “Na apresentação em Nova York, quando o presidente Lula anunciou o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre), mais de 40 países manifestaram interesse. Esperamos que até a COP30 eles anunciem seus apoios com dólares ou euros”, disse.

Em meio ao debate climático, a ministra voltou a criticar o marco temporal, que segue em vigor apesar do veto presidencial e da decisão anterior do Supremo Tribunal Federal (STF) contrária à tese. “Essa lei é um grande impeditivo para o avanço das demarcações. É uma afronta à Constituição e precisa ser derrubada”, afirmou.

“Enquanto isso, buscamos alternativas para destravar processos que não são afetados pela lei, com diálogo com governos estaduais e com a Funai. Mas não vamos deixar de lutar para que essa legislação seja revista”.

Papel das grandes potências

Questionada sobre o papel das grandes potências, Guajajara admitiu que é difícil avançar sem o apoio dos Estados Unidos, mas reforçou a importância de pressionar por compromissos globais.

“Vivemos um tempo de crescimento do negacionismo climático e do negacionismo da democracia. O Brasil tem mostrado ao mundo que é possível priorizar a vida e o meio ambiente, em vez de investir em armas e guerras. É isso que esperamos que a COP30 mostre.”

Para a ministra, fortalecer as comunidades indígenas é também fortalecer a defesa da floresta. “Quando as comunidades têm condições de viver em seus territórios, elas permanecem ali e continuam fazendo a proteção que sempre fizeram. Apoiar diretamente as organizações indígenas é garantir que a floresta continue de pé e que o planeta respire”.