Irmã relata morte de empresária horas após cirurgias plásticas em Goiânia
Segundo a irmã, Andreia Vieira apresentou complicações após os procedimentos e morreu na madrugada seguinte; família pede investigação do caso

A empresária Andreia Vieira morreu poucas horas após realizar cirurgias plásticas na região do rosto e do pescoço em um hospital em Goiânia, em Goiás, segundo relato de Djiane Vieira, irmã de Andreia, que acompanhou Andreia no dia dos procedimentos, à CNN Brasil.
Segundo a irmã, Andreia permaneceu por cerca de oito horas no centro cirúrgico e apresentou complicações após o procedimento. A representação criminal apresentada pela família ao Ministério Público de Goiás registra que as cirurgias começaram na manhã de 11 de agosto e terminaram às 16h20. O óbito foi formalmente declarado às 4h15 do dia seguinte.
À CNN Brasil, Djiane contou que a irmã morava havia cinco anos na Espanha e que havia juntado dinheiro durante dois anos para realizar as cirurgias plásticas. "Era o sonho dela", contou.
No dia das cirurgias, 11 de agosto, Andreia e Djiane chegaram ao hospital por volta das 6h. Os procedimentos foram realizados sob anestesia geral e incluíram cirurgias no rosto e procedimentos de contorno corporal. Segundo a representação, a intervenção ocorreu das 7h45 às 16h20, com indução anestésica às 8h10.
Entre os procedimentos realizados estavam ritidoplastia facial profunda, frontoplastia com redução de testa, mentoplastia óssea e blefaroplastia superior, combinadas a lipoaspiração e nanofat — técnica que utiliza a própria gordura do corpo da paciente. Ao todo, eles custaram R$ 118 mil.
A irmã de Andreia disse que foi informada de que as cirurgias durariam por volta de seis horas, porém, depois desse prazo, começou a se preocupar. Quando a paciente saiu do centro cirúrgico, Djiane afirmou que a irmã não conseguia fechar a boca porque a língua estava inchada. Segundo ela, o médico explicou que esse seria um processo normal do pós-operatório.
No entanto, ela lembra da irmã piorar e de relatar falta de ar e dor na região do pescoço.
"Mana, estou morrendo", foi o que Andreia teria dito à irmã antes de morrer, segundo Djiane.
Durante o período em que as duas ficaram no quarto, Djiane contou que a irmã não foi atendida conforme a piora do estado de saúde. "O que houve com a Andreia foi negligência", destacou.
Pré-operatório e negligência
Andreia e o médico nunca teriam se encontrado pessoalmente em uma consulta antes da cirurgia, segundo Djiane. A primeira vez teria ocorrido no dia dos procedimentos. Ela teria conhecido o trabalho do cirurgião por meio das redes sociais.
De acordo com Djiane, durante o pré-operatório, foi criado um grupo da equipe do hospital com a paciente e com ela, que era acompanhante, em um aplicativo de mensagens para se comunicarem em relação ao quadro de saúde de Andreia.
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A defesa da família da vítima, representada pelo advogado Fábio Ricardo, apresentou documentos que apontam que Andreia realizou exames pré-operatórios na Espanha em 18 de junho. Os resultados indicaram sorologia com anticorpos IgM reagentes para Borrelia burgdorferi, bactéria associada à Doença de Lyme, e Brucella. Os exames foram encaminhados à equipe médica em 23 de julho.
Segundo a representação, a sorologia indicava processo inflamatório ou infeccioso ativo ou recente. A peça afirma ainda que a equipe médica não teria realizado investigação complementar sobre as infecções ou relacionado os resultados a outros fatores de risco antes da cirurgia.
Djiane relatou que o médico responsável pela operação teria dito que os diagnósticos não seriam um problema no curso cirúrgico.
A representação também aponta que Andreia havia retornado de uma viagem transatlântica entre Madrid e o Brasil apenas oito dias antes da cirurgia. A viagem ao exterior constava no prontuário e no questionário de triagem hospitalar.
Pós-operatório e complicações
Após a cirurgia, Andreia foi encaminhada para a Sala de Recuperação Pós-Anestésica e, às 17h40, transferida para um quarto de internação comum. Segundo a representação apresentada pela família, ela apresentava edema facial severo e aumento expressivo do volume da língua, além de estar suja de sangue e secreções. O documento afirma que imagens registraram a situação.
Ainda conforme a representação, o cirurgião compareceu ao quarto por volta das 20h e afirmou que o procedimento havia sido um sucesso. Segundo o documento, ele teria dito que o "inchaço acentuado" e a "sensação de agonia" eram reações comuns no pós-operatório.
Djiane lembra da irmã relatar muita falta de ar e permanecer agonizando por várias horas. Segundo ela, ao acionar a equipe médica, era alertada de que aqueles sintomas eram normais. "A queixa foi sistematicamente desvalorizada pela equipe de enfermagem", disse a defesa.
A representação relata que, durante a noite, Andreia passou a apresentar dificuldade respiratória progressiva, sensação de afogamento e secreção nas vias aéreas. Segundo o documento, a paciente pediu: "mana, mana, chama um médico" e afirmou que "sentia algo anormal em sua glote". A peça também afirma que profissionais de enfermagem teriam dito que estava "tudo normal".
Ainda conforme a representação, as profissionais teriam tratado os sintomas como "nervosismo" e dito que as queixas eram "frescura" e que Andreia estaria "dando piti". O documento afirma que gravações em vídeo registraram parte da conduta e que as próprias profissionais teriam relatado que os médicos não atendiam aos chamados durante a noite.
Por volta das 22h, segundo a peça, Andreia teria passado a pedir socorro aos gritos: "Eu estou morrendo, chama o médico, chama o médico".
Às 0h50 do dia 12 de agosto, uma médica plantonista compareceu ao quarto após chamados. Segundo a representação, ela registrou no prontuário a queixa de "desconforto cervical anterior" e prescreveu analgésico e oxigenoterapia por cateter nasal a 2 litros por minuto. A família questiona a conduta adotada diante da evolução do quadro respiratório.
Durante a piora de Andreia, a irmã tentou contato com os médicos por meio do grupo que possuía com a equipe profissional, mas, segundo ela, ninguém a respondeu.
Por volta das 2h15, a paciente sofreu uma queda abrupta da saturação e entrou em parada cardiorrespiratória em assistolia. Às 2h28, a acompanhante enviou uma mensagem de áudio no grupo de WhatsApp da clínica: "A minha irmã tá morrendo, pelo amor de Deus. Vocês ninguém atende, ninguém aparece, pelo amor de Deus.".
O cirurgião chegou ao hospital entre 2h20 e 2h45, segundo a representação, quando Andreia já estava em assistolia e sob manobras de ressuscitação cardiopulmonar realizadas pela médica plantonista e pela equipe de enfermagem. Após as tentativas de reanimação, o óbito foi formalmente declarado às 4h15.
Necrópsia e causa da morte
Após a morte, o corpo de Andreia foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Goiânia. A representação apresentada pela família questiona a atuação durante o exame necroscópico e afirma que o cirurgião teria acompanhado o procedimento no SVO.
De acordo com a peça, o exame do SVO registrou presença de secreção mucóide hemorrágica nas vias aéreas, infartos pulmonares nas bases pulmonares e trombose coronariana aguda no tronco da artéria coronária esquerda. A defesa afirma haver divergência entre esses achados e a causa da morte registrada em documento civil e pede investigação sobre o nexo entre os achados, a cirurgia e o pós-operatório.
A representação também solicita uma perícia médico-legal independente para esclarecer a causa definitiva e imediata da morte e avaliar se havia relação entre as condições clínicas anteriores, o procedimento cirúrgico e as complicações respiratórias apresentadas no pós-operatório.
No dia do enterro, Djiane disse que o médico a encontrou e comentou sobre "devolver" parte do dinheiro que teria recebido da cirurgia.
Durante a piora de Andreia, a irmã tentou contato com os médicos por meio do grupo que possuía com a equipe profissional, mas, segundo ela, ninguém a respondeu. Somente após a mulher apresentar um quadro de parada cardiorrespiratória em assistolia, que uma enfermeira e uma médica plantonista interviram.
Foram realizadas manobras de reanimação, porém Andreia não apresentou melhora e morreu.
Cerca de uma hora após a paciente morrer, o médico-cirurgião, responsável pelos procedimentos, chegou ao hospital.
No dia do enterro, Djiane disse que o médico a encontrou e comentou de "devolver" parte do dinheiro que teria recebido da cirurgia.
Buscas por respostas
A representação jurídica da família procurou o Ministério Público de Goiás para pedir a instauração de um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) e a preservação urgente de provas. O documento afirma que o objetivo é apurar, entre outros pontos, possível violação do dever de cuidado, eventual omissão no atendimento e possível nexo causal entre a assistência médico-hospitalar e a morte.
"Eu preciso fazer Justiça", relatou Djiane sobre buscar autoridades para investigar o caso da irmã.
A defesa da família de Andreia defende que, após mais de oito horas de uma cirurgia plástica combinada invasiva, deveria ser avaliada a necessidade de internação em UTI. A representação questiona ainda o fato de a paciente ter sido encaminhada para um quarto comum e afirma que o hospital não teria oferecido suporte de terapia intensiva no pós-operatório imediato.
A peça apresentada ao MP também enquadra os fatos, em tese, como possível homicídio culposo majorado pela inobservância de regra técnica de profissão. O próprio documento ressalta, porém, que a definição do nexo causal depende de perícia médico-legal independente e que não há elementos, até o momento, para afirmar a existência de dolo eventual por parte dos profissionais.
Em nota o Cremego (Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás) se manifestou esclarecendo que todas as denúncias são apuradas em sigilo. O conselho também solicita esclarecimentos ao médico responsável pelo hospital.
Em nota à CNN Brasil, o Hospital Ankar informou que a paciente recebeu atendimento de emergência imediato, com assistência da equipe médica e de enfermagem e adoção das medidas necessárias diante do quadro apresentado.
Veja nota completa na íntegra
"A advogada responsável pela defesa do Hospital Ankar, Cristiene Pereira Couto, informa que a unidade lamenta profundamente o falecimento da paciente Andréia Vieira Gaspar e manifesta solidariedade aos seus familiares.
A defesa esclarece que a paciente recebeu atendimento de emergência imediato, com assistência da equipe médica e de enfermagem e adoção das medidas necessárias diante do quadro apresentado.
É importante destacar que a avaliação e os exames pré-operatórios foram realizados externamente, antes da admissão da paciente no Hospital Ankar para a realização do procedimento cirúrgico.
A partir da intercorrência, a paciente foi prontamente assistida pelos profissionais presentes, com utilização da estrutura hospitalar necessária e realização das medidas de emergência indicadas.
Todos os registros referentes ao atendimento estão devidamente documentados em prontuário, que poderá ser disponibilizado às autoridades competentes sempre que necessário.
Ao longo dos últimos quatro anos, o Hospital Ankar já realizou mais de 6 mil cirurgias, reunindo experiência, equipe qualificada e protocolos assistenciais voltados à segurança dos pacientes em todas as etapas do atendimento.
A instituição permanece à disposição para prestar todos os esclarecimentos pertinentes e colaborar integralmente com a apuração dos fatos, com transparência, responsabilidade e respeito à paciente, à família e aos profissionais envolvidos."
Em nota à CNN Brasil, o Dr. Lessandro Paiva Martins, médico responsável pela cirurgia, lamenta a morte de Andreia e manifesta sua solidariedade com a família.
A defesa afirma que, desde o início, o médico tem colaborado ativamente com a apuração dos fatos, apresentando toda a documentação que comprova o cumprimento dos protocolos adotados.
Veja a nota completa na íntegra:
"A defesa do Dr. Lessandro Paiva Martins lamenta profundamente o falecimento de Andreia Vieira Gaspar, ocorrido em 12 de agosto de 2026, e manifesta sua solidariedade aos familiares e amigos.
Acima de qualquer questão técnica, estão a perda de uma vida e a dor de uma família. Desde o início, o médico tem colaborado ativamente com a apuração dos fatos, apresentando toda a documentação que comprova o cumprimento dos protocolos adotados.
Os exames imprescindíveis foram solicitados, inclusive a avaliação de risco cirúrgico. A paciente foi avaliada e liberada por seu médico particular para a realização da cirurgia. Eletrocardiograma, raio-X de tórax e análises laboratoriais foram avaliados e estavam adequados; os resultados não indicavam infecção nem apontavam impedimento para a intervenção.
Andreia fazia uso de terapia hormonal, composta por testosterona em gel, estradiol em gel e progesterona micronizada por via oral, informação que havia sido comunicada à equipe do Dr. Lessandro. Como medida de cautela, foi orientada a suspensão da terapia hormonal uma semana antes da cirurgia. De acordo com a avaliação médica, considerando as medicações utilizadas e suas vias de administração, o esquema hormonal não representava, por si só, risco trombótico aumentado relevante que impedisse a realização do procedimento.
A equipe do Dr. Lessandro também estava ciente de que a paciente viria de Madrid, na Espanha, para o Brasil antes da cirurgia. Há registro de contato da própria paciente com a equipe, cerca de uma semana antes do procedimento, informando que já se encontrava no país. Considerando seu perfil clínico, os exames pré-operatórios dentro da normalidade e a ausência de fatores de risco trombótico conhecidos relevantes, o intervalo entre a viagem aérea e a cirurgia foi considerado adequado, e não havia contraindicação ao procedimento em razão do deslocamento.
Andreia também passou por consulta presencial com o Dr. Lessandro antes do procedimento. Foi indicada e realizada uma cirurgia facial, considerada um ato cirúrgico único, com duração adequada e dentro dos parâmetros da medicina.
A intervenção ocorreu em estabelecimento devidamente habilitado, com estrutura compatível e em conformidade com as exigências aplicáveis, contando também com suporte de UTI móvel.
Cabe o registro de que tudo transcorreu normalmente, inclusive no pós-operatório. A paciente se alimentou, conversou e estava bem até passar mal horas depois.
Após a intercorrência, o Dr. Lessandro foi avisado e participou, em conjunto com outros médicos, das manobras de reanimação, que se estenderam por cerca de duas horas na tentativa de reverter o quadro.
Segundo a necropsia realizada pelo Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), foi identificada trombose coronariana aguda em tronco da artéria coronária esquerda, em coração livre de doença aterosclerótica, além de infartos pulmonares bilaterais. O óbito foi classificado como decorrente de causa natural.
Três pareceres elaborados por profissionais distintos e independentes analisaram o caso e concluíram, de forma convergente, que não há nexo causal, direto, indireto ou concausal, entre a atuação do Dr. Lessandro e o óbito, tampouco elementos que caracterizem negligência, imprudência ou imperícia.
Em 28 de agosto de 2026, foi realizada a exumação do corpo para avaliações complementares, cujos resultados ainda são aguardados.
A defesa seguirá à disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários."
A CNN Brasil procurou o Ministério Público de Goiás. Até o momento, não obteve retorno. O espaço permanece aberto.
*Sob supervisão de Manuella Dal Mas

