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    CNN No Plural+: Um pé dentro e outro fora da quadra

    Preconceito, banheiros que separam homens e mulheres e uniformes nada inclusivos são alguns dos motivos que afastam, cada vez mais, pessoas LGBTQIA+ dos esportes

    O clube de futebol Vasco da Gama faz uma campanha a favor do respeito a comunidade LGBTQIA+
    O clube de futebol Vasco da Gama faz uma campanha a favor do respeito a comunidade LGBTQIA+ Daniel Ramalho / Redes Sociais do Vasco da Gama

    Rafael Câmarada CNN

    São Paulo

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    Hora de mudar de faixa.

    Mal dormia pensando como seria tenso aquele exame para sair da simples faixa branca para a azul. Eu estou falando do judô.

    Pasmem – sim, eu pratiquei por uns três anos.

    Eu suava, só de pensar naquele monte de gente olhando para mim no tatame, e eu tendo que mostrar habilidades que não tinha.

    Cada golpe era milimetricamente pensado, não para vencer o meu adversário, mas para não mostrar nenhum trejeito que pudesse gerar piadas homofóbicas.

    E a tensão aumentava porque eu sabia que meu pai, logo ali do lado, estava torcendo por mim.

    Quando a competição acabava, eu estava exausto de ter me esforçado para ser alguém que eu não sou.

    Não estou aqui para criticar o esporte, nada disso.  Muito pelo contrário, estou aqui para pedir para que o esporte considere a gente e nos inclua.

    Você já parou para pensar em quais são as dificuldades de pessoas LGBTQIA+ em praticar qualquer esporte? 

    A população LGBTQIA+, de uma forma geral, tem maior dificuldade de acesso a práticas desportivas, principalmente às práticas esportivas em grupos. Isso acontece por não se sentirem muitas vezes abraçadas por esses grupos, por algumas vezes até mesmo hostilizadas, infelizmente, e por não se sentirem adequadas àquela realização da prática desportiva”, explica o professor de endocrinologia do Centro Universitário São Camilo Leonardo Alvares.

    Não se sentir pertencente ao grupo. Talvez essa seja, na minha humilde opinião, um dos principais pontos.

    Pessoas procuram os iguais para formarem grupos. Então, é nessa hora que você, eu ou qualquer um da comunidade LGBTQIA+ ficamos mais diferentes.

    Se para mim, um homem gay cis, apontado muitas vezes como “padrão”, era difícil me sentir parte… imagine para as pessoas trans.

    Dr. Leonardo Alvares, professor de endocrinologia do Centro Universitário São Camilo, dedica seus estudos a análise de pessoas trans no esporte / Acervo pessoal

     

    A gente tem vários estudos específicos, em relação ao esporte, dizendo que há diversas barreiras para que a população trans consiga realizar essas atividades físicas. Dentre elas, cito muitas vezes inadequação de roupa à população trans, a dificuldade de acesso a banheiros nesses locais, como vão ser aceitas nesses ambientes e a própria aceitação pelos demais desportistas ali

    Leonardo Alvares, professor de endocrinologia do Centro Universitário São Camilo

    A não aceitação pelos colegas de quadra é sim LGBTfobia.

    Uma pesquisa feita pela empresa Nix Diversidade mostrou que 85% da população LGBTQIA+ considera transfobia e homofobia um dos principais problemas do esporte, aqui no Brasil.

    “Se os seus pais não te ensinam a respeitar o próximo, claramente quem é uma pessoa trans ou LGBT vai sofrer muita LGBTfobia dentro da escola e vai acabar ficando com ódio, com raiva de praticar esporte, porque não é incluído, porque não é aceito pelos coleguinhas.”  Quem dá esse depoimento foi justamente quem enfrentou e venceu o preconceito em quadra. Estou falando de Tifanny Abreu, atleta do Osasco e a primeira mulher trans a integrar uma equipe feminina de vôlei profissional no Brasil.

    “A gente tem a necessidade de ir ao banheiro, a gente tem a necessidade de beber água, de comer e muitas vezes algumas pessoas não querem que nós estejamos ali. Isso machuca. Isso faz com que muitas mulheres trans não procurem o esporte, não procurem o lazer, com medo de como serão aceitas. Você ser uma pessoa LGBTQIA+ é simplesmente uma pessoa no mundo, e não muda nada você ficar no esporte. A nossa intenção é fazer o gol, é fazer o ponto, chegar em primeiro na corrida” , conta Tifanny.

    E foram muitos pontos também fora da quadra. Tifanny jogou em ligas masculinas até os 29 anos, e, depois da transição, voltou aos campeonatos e conquistou essa posição de tanta representatividade dentro do vôlei de alto rendimento.

    Quando a gente fala sobre saúde, não é sobre emagrecer ou engordar, mas sobre praticar o esporte. Você vai ativar os seus jogos internos a trabalhar melhor, coração, pulmões. Quando é tirada de você essa oportunidade ainda quando criança, isso acontece principalmente com a gordofobia, porque eles são tirados do esporte, assim como com os nossos LGBTQIA+, por causa de um preconceito, de que não iriam conseguir fazer. E todos os corpos são capazes

    Tifanny Abreu, jogadora profissional de vôlei

    Sim, nossos corpos são capazes. Só precisa ter espaço pra gente.

    Mas nós, da comunidade LGBTQIA+, somos tão fortes que, se não tem local, a gente cria um.

    Eu apresento a vocês um time de handebol 100% LGBTQIA+: o Fadas.

    “Temos bissexuais, lésbicas e gays até o momento. Já treinou com a gente [pessoas] trans. Os aliados, por exemplo, já foram convidados e podem treinar com a gente, mas neste momento todos os mensalistas são LGBTQIA+”. Samuel Prado é um dos atletas do time, que atualmente conta com 25 jogadores e jogadoras e já é reconhecido pela Federação Paulista e pela Confederação Brasileira de Handebol.

    Infelizmente, tem que existir um time inclusivo. Mas aí as pessoas podem falar ‘ah, mas tem gays no meu time e eles jogam’. E tudo bem. Mas será que ele se sente bem lá ou ele tem que esconder um pouquinho de quem ele é? Ele precisa se adaptar um pouco ou ele fica de fora de algumas conversinhas? Esse é o ponto. Quando eu digo ‘infelizmente’, é porque a gente teve que se juntar para se sentir mais à vontade para ser quem a gente é 100%

    Samuel Prado, atleta do Fadas Handebol

    Faço das palavras do Samuel também as minhas: infelizmente, ainda precisamos nos separar para nos proteger.

    Mas até quando? O esporte tem que ser aquele momento de descontração, onde você encontra o seu amigo, fala da vida, compartilha sonhos e desejos.

    Mas como? Se o machismo e a homofobia são tão enraizados, que o simples fato de não jogar futebol já te coloca em um local de exclusão diante de outros meninos.

    “Você tem que se esconder. Se alguém perguntar como que foi o seu final de semana, você não pode falar que conheceu um garoto legal, como todos os meninos falavam ‘ah, fiquei com a fulana’.  Você não tem esse tipo de liberdade no ambiente, tanto no time como em qualquer lugar”

    Samuel Prado, atleta do Fadas Handebol

    Olhamos o esporte como olhamos as empresas, vamos precisar de políticas claras para expandir a diversidade.

    Porque, no fim, tudo se resume em liberdade para ser o que se é.

     

    • Produção: Letícia Brito, Carol Raciunas e Talita Amaral

     

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