Com vacinação atrasada, cidade do RJ cria posto ‘secreto’ para aplicar Coronavac

Duque de Caxias tem 50 mil pessoas na fila de espera, mas apenas 2,6 mil doses do imunizante – que serão aplicadas em local não divulgado ao público

Stéfano Salles, da CNN no Rio de Janeiro

Ouvir notícia

Com quase um milhão de habitantes, Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, tem nesta segunda-feira (3) um ponto de vacinação ‘secreto’. A prefeitura diz possuir 2,6 mil doses da Coronavac, mas um saldo de mais de 50 mil pessoas com a aplicação da segunda dose em atraso – por isto, toda a carga será aplicada em apenas um local, que não foi divulgado ao público pelo município.

A informação foi confirmada pela própria Secretaria de Comunicação de Duque de Caxias. De acordo com a pasta, a prefeitura vai telefonar para cerca de 2,6 mil pessoas, para que se dirijam ao local indicado e recebam a aplicação do imunizante produzido pelo Instituto Butantan.

A estratégia de não divulgar o local tem como objetivo evitar que se formem aglomerações na porta da unidade, explica o secretário Aroldo Brito.

“Nós temos 2,6 mil vacinas, vamos ligar para 2,6 mil pessoas que estão com a segunda dose atrasada. Não vamos divulgar para não ter 30 mil pessoas no local e criar tumulto. Não vamos fazer isso por questão de segurança”, afirmou o secretário.

O município recebeu no domingo (2), da Secretaria de Estado de Saúde (SES), 2.260 doses de Coronavac para serem aplicadas como segunda imunização. A CNN apurou que o local escolhido para que as doses sejam inoculadas é uma unidade de saúde do Centro.

De acordo com o Ministério da Saúde, Duque de Caxias teve 67,7 mil pessoas vacinadas com a primeira dose e 13,7 mil com a segunda. Ou seja: 54 mil pessoas aguardam a aplicação complementar ou o prazo para voltar ao posto de saúde para recebê-la na data estipulada.

Médica sanitarista e professora de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lígia Bahia recebeu com espanto a notícia de que o município criara um posto “secreto” de vacinação.

“Nunca vi nada assim. Estão transformando o público em privativo, secreto. Duque de Caxias tem sido um ponto fora da curva permanente. O critério é absolutamente inadequado. Com essa escassez de doses é absolutamente imprescindível tornar público quem será vacinado”, explica a especialista.

Frasco com Coronavac, vacina contra Covid-19, em São Paulo
Frasco com Coronavac, vacina contra Covid-19; Duque de Caxias tem 2,6 mil doses e 50 mil pessoas na fila para tomar segunda dose
Foto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo (2.mar.2021)

Para a pesquisadora, a falta de imunizantes deve fazer com que os municípios sejam ainda mais criteriosos no uso das doses que estiverem à disposição.

“Não é difícil estabelecer prioridades entre prioridades. Idosos acamados, hospitalizados, em tratamento para câncer. Um balizamento baseado em maiores riscos e não numa lista de telefones”, conclui Bahia.

Procurados, a SES e o Ministério da Saúde não responderam até o momento os contatos feitos pela CNN sobre quais as recomendações para casos como esse, de gestão de vacinas com aplicação em atraso, de acordo com o Plano Nacional de Imunização (PNI).

Duque de Caxias recebeu, também da SES, no domingo, 24.020 doses da vacina do laboratório anglo-sueco AstraZeneca, produzidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), para uso como primeira dose.

Nessa fase, o calendário segue público e são vacinadas pessoa com comorbidades, desde que tenham a partir de 50 anos, além de profissionais de educação.

Mais Recentes da CNN