COP26: Meta estipulada está longe do ideal, diz encarregado de Negócios dos EUA

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, Douglas Koneff, no entanto, considerou o evento um passo importante na agenda ambiental

Mathias Broteroda CNN

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Por conta da pandemia de Covid-19, a Conferência do Clima (COP) da ONU (Organização das Nações Unidas) em Glasgow, na Escócia, sofreu atraso de um ano. E isso dobrou a expectativa sobre quais acordos seriam firmados.

De fato, novos planos, como a redução do consumo de carvão, foram apresentados. Mas metas antigas, principalmente na área de financiamento ambiental, seguem estagnadas. O saldo do encontro entre as maiores lideranças mundiais foi um dos temas da entrevista exclusiva que o encarregado de Negócios da embaixada dos Estados Unidos deu à CNN Brasil.

Douglas Koneff considerou o evento um passo importante na agenda ambiental. E citou como destaques: a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais e o avanço em torno do artigo 6 do Acordo de Paris, que trata sobre o mercado de créditos de carbono.

Sobre este, Koneff disse contar com uma participação importante do Brasil. O diplomata, no entanto, alertou que nenhum conjunto de regras vai satisfazer a todos os interesses. E estabeleceu o financiamento de países em desenvolvimento como o principal tema de preocupação das nações mais ricas.

“A COP26 não é um passo final, mas um começo”, disse. Um dos objetivos econômicos reafirmados na cúpula, por exemplo, foi o de países desenvolvidos transferirem ao menos US$ 100 bilhões por ano para países em desenvolvimento poderem combater mudanças climáticas.Essa meta foi traçada em 2009 e já havia sido renovada em 2015, durante o Acordo de Paris.

A expectativa era alcançar esse valor em 2020. Agora, o objetivo é 2023. Um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que, no período, o valor anual mais alto foi de US$ 79,6 bilhões, repassado em 2019. Os números de 2020 ainda não foram fechados por conta de atrasos nos relatórios oficiais. Segundo a OCDE, isso só poderá ser feito a partir de 2022 porque é preciso avaliar como a Covid-19 terá afetado os fluxos do financiamento do clima.

Ao final das duas semanas de negociações, o secretário-geral da ONU, António Guterres, enfatizou a importância de entregar os R$ 100 bilhões anuais. Disse que a conferência de Glasgow foi “um passo importante, mas insuficiente.” Segundo ele, é preciso adotar um “modo de emergência” para cumprir metas que possibilitem acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis, eliminar o carvão, colocar um preço no carbono e proteger comunidades vulneráveis.

Douglas Koneff também reconhece que estes números – inclusive a meta estipulada — estão longe do ideal. “Sem dúvida, o financiamento pode ser maior. Como disse John Kerry (enviado especial dos EUA para questões climáticas), devemos falar de trilhões de dólares. Não de bilhões de dólares. Então temos que continuar buscando maneiras de financiar iniciativas ambientais. E os países ricos têm que apoiar os países em desenvolvimento”, ressaltou.

Para o encarregado de Negócios da embaixada dos EUA no Brasil, enquanto o maior desafio dos países ricos na COP27, no Egito, será o de solucionar a falta do financiamento a países desenvolvidos, para o Brasil, será honrar os compromissos sobre desmatamento ilegal. “O Brasil anunciou iniciativas importantes para combater esse problema (…) Vamos trabalhar em conjunto para apoiar suas ambições”, disse.

Desmatamento no Brasil

Durante a COP26, o ministro do meio-ambiente, Joaquim Leite disse que o Brasil pode eliminar o desmatamento ilegal até 2028, dois anos antes do que estava inicialmente previsto. Os resultados, porém, não têm sido positivos.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados na última quinta-feira (18), apontam que o desmatamento na Amazônia atingiu a marca de 13.235 quilômetros quadrados entre 1º de agosto de 2020 a 31 de julho de 2021.

O dado representa um aumento de 21,97% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior e o pior resultado desde 2006. Após a divulgação das informações, o ministro do meio-ambiente disse que os dados não refletem a atuação do governo nos últimos meses e são inaceitáveis.

O governo brasileiro tem apostado na mensagem de que investimentos internacionais ajudam a promover o desenvolvimento sustentável. Questionado se os Estados Unidos planejam investir no Brasil para auxiliar na preservação do meio ambiente, Koneff afirmou que há conversas constantes entre EUA e países da América Latina, como o Brasil.

“Estamos satisfeitos com o papel do Brasil na COP 26. E isso é um passo importante para avançar, acelerar essas conversas e melhorar o meio-ambiente”, ressaltou, na entrevista realizada antes da divulgação dos números do INPE.

Desde o início do governo de Joe Biden, em 2020, o diálogo entre o Brasil e os EUA tem sido ao nível ministerial. Questionado sobre a possibilidade de um primeiro encontro com o presidente Jair Bolsonaro, Koneff disse que há conversas a vários níveis. “É importante ressaltar que existe um diálogo entre instituições. Vamos continuar dialogando para apoiar o Brasil a realizar suas ambições ambientais”.

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