Cautela com Covid motiva troca do transporte público por apps, carros e bikes

Apreensão em relação à propagação da Covid-19 no transporte público fez disparar o uso de modais alternativos durante a pandemia, dizem estudos obtidos pela CNN

Usuários de transporte público e motoristas de ônibus utilizam máscaras. São Paulo, 29 de abril de 2020.
Usuários de transporte público e motoristas de ônibus utilizam máscaras. São Paulo, 29 de abril de 2020. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Weslley Galzo, da CNN, em São Paulo

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Com os riscos associados ao uso do transporte público durante a pandemia, autoridades de transporte, empresas e usuários do sistema em diversas capitais têm notado mudanças de hábitos importantes nos últimos meses.

Enquanto cai a adesão a ônibus e metrôs, cresce a opção pelo transporte individual, com destaque para a bicicleta e o uso de transporte por aplicativo para encurtar distâncias.

 

“Não piso no transporte coletivo desde 16 de março de 2020. Só ando de bike e, eventualmente, utilizo aplicativos. Às vezes combino os dois”, afirma Ronald Sclavi, professor universitário, em entrevista à CNN.

Ciclista há mais de quatro anos, Ronald interrompeu as pedaladas no final de 2019 após ter a bicicleta roubada. Em março de 2020 veio a pandemia e, com ela, a necessidade de voltar a pedalar, como forma de evitar o transporte público nos momentos mais difíceis do enfrentamento à Covid-19.

Em meados de maio, o professor comprou uma nova bicicleta para conseguir sair de casa sem precisar usar o transporte público. A aquisição também tinha o intuito de ser uma alternativa mais barata do que os aplicativos para se deslocar pela cidade. 

“Eu espero poder voltar a usar o transporte público, até porque tem o seu grau de eficiência e é barato em relação aos aplicativos”, disse Sclavi.

Atualmente, eu não entraria em um ônibus ou metrô de jeito nenhum, a não ser que seja uma coisa de extrema necessidade

Ronald Sclavi, professor universitário

Uso de aplicativos

Apesar de o custo das corridas por aplicativos ser um empecilho para muitos, como Sclavi, essa modalidade de transporte se difundiu durante a pandemia, assim como as bicicletas, como uma maneira de driblar a aglomeração nos coletivos, sobretudo nas periferias.

Pesquisa cedida à CNN pela empresa 99 aponta que 55% dos moradores de bairros periféricos de seis capitais brasileiras passaram a utilizar transporte por aplicativo com maior frequência.

Ainda segundo o levantamento, o volume de corridas feitas em bairros nobres e centrais caiu 28%, enquanto a parcela que mora na periferia ampliou o uso do aplicativo em 21%. 

Entre os entrevistados, 43% afirmou que o motivo pelo qual recorreram a esses serviços foi a busca por segurança e a tentativa de evitar aglomeração no deslocamento.

O comportamento é reafirmado pela pesquisa Datafolha encomendada pela Uber, que identificou a aglomeração (29%), a segurança (20%) e o risco de contaminação (14%) como os critérios mais importantes para escolher o meio de transporte. 

A pesquisa também mostra que 38% dos brasileiros que não possuem veículo próprio acreditam que a bicicleta é o meio de transporte mais seguro na pandemia, seguido pelos aplicativos, vistos como responsáveis do ponto de vista sanitário por 35% da população. Para 61% das pessoas, o uso dos aplicativos deve aumentar.

Queda no transporte público

Na medida em que a solicitação de carros por aplicativo e trajetos de bicicleta ganham a preferência dos brasileiros, o uso do transporte público diminui aos poucos. Em São Paulo, a frota de ônibus da cidade opera com 88,25% da sua capacidade e atende 61% da demanda em comparação com o período anterior à pandemia.

Cerca de 2 milhões de pessoas viajam diariamente em veículos coletivos na cidade de São Paulo. Antes da pandemia, a média era de 3,3 milhões de pessoas por dia.

No final de março de 2020, primeiro mês da pandemia no Brasil, a média foi de 892 mil pessoas circulando nos ônibus da SPtrans em dias úteis. Com a flexibilização e a suspensão do serviço remoto em alguns setores, a média subiu nos meses seguintes. Foram 1,03 milhão de pessoas em abril, 1,14 milhão em maio e 1,31 milhão em junho.

São Paulo, metrô
Movimentação no metrô de São Paulo, um dia após a flexibilização da quarentena na capital paulista
Foto: Bruno Rocha – 02.jun.2020/Estadão Conteúdo

No Rio de Janeiro a queda também foi intensa. Em 2019, a média de viagens realizadas mensalmente era de 75 milhões e, com a pandemia, esse número chegou a cair para 25 milhões em abril e maio. Desde junho do ano passado a média não ultrapassa 50 milhões.

Em Belo Horizonte, a queda no número de passageiros foi de 36,7% de fevereiro a dezembro de 2020. No mês de fevereiro foram registrados 25.746.967 passageiros; já em dezembro o contingente era de 16.275.601.

O mesmo aconteceu em Porto Alegre, onde o número de passageiros caiu drasticamente. Se, em fevereiro do ano passado, a companhia de transporte público municipal chegou a transportar mais de 800 mil pessoas em um dia, no decorrer do último ano a média dificilmente ultrapassou 400 mil.

Na capital baiana, antes da pandemia eram transportados diariamente cerca de 1,3 milhão de passageiros. Atualmente, a média é de 700 mil usuários em dias úteis.

Nos meses mais críticos do ano passado – quando foram adotadas medidas de restrição da circulação – a média atingiu 400 mil passageiros em dias úteis, de acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador.

A expectativa é de que as novas medidas restritivas levem a circulação de passageiros de volta aos patamares dos meses mais críticos de 2020.

O carro como opção

O mercado de vendas de carro sofreu retração em 2020, assim como os demais setores da economia. De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, no ano passado foram vendidas 2.058.437 unidades de veículos, uma queda de 26,2% em relação ao ano anterior.

O último mês do ano, no entanto, já mostrava sinais de uma possível retomada – que pode ter sido causada pela segunda onda da pandemia no país. 

Se a compra de veículos fica mais difícil em um período de recessão econômica, muitas pessoas viram no aluguel de carros o meio mais eficiente de se manter protegido. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis (ABL), a média de ocupação da frota das empresas associadas foi de 70% a 75% no último ano.

“Nós notamos maior destaque no período mais grave da pandemia em 2020. Muitas pessoas procuraram o carro de aluguel para substituir o transporte coletivo e fugir da infecção”, afirmou Paulo Miguel Júnior, presidente da ABLA.

A pandemia serviu para incentivar muito mais o mercado de locação, que já era um mercado em crescimento

Paulo Miguel Júnior, presidente da Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis

“Em 2020, o mercado de locação de veículos foi bastante demandado, de modo que ultrapassamos a nossa média de utilização da frota, atingindo de 85% a 90% de uso. Eu acredito que o aluguel de carros vai ser muito efetivo até a gente conseguir a imunização completa. As pessoas ainda têm muito medo do transporte público. As pessoas que têm renda estão buscando o aluguel de veículos”, completou.

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