Efeitos da pandemia sobre mulheres podem atrasar luta por equidade

Além da sobrecarga de trabalho, do desemprego e do aumento de atividades em casa, mulheres ficaram mais sujeitas a agressões e violência doméstica

Marcha do Dia Internacional da Mulher em Nova York
Marcha do Dia Internacional da Mulher em Nova York Foto: Drew Angerer/Getty Images (8.mar.2017)

Anna Satie, da CNN em São Paulo

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A pandemia da Covid-19 evidenciou as desigualdades de gênero: se as mulheres já eram responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico e pelo cuidado dos membros mais vulneráveis da família desde muito antes da chegada do novo coronavírus, essa carga se intensificou em tempos de escolas fechadas e isolamento.

Além disso, apesar do aumento do desemprego ter sido global, as mulheres foram mais afetadas que os homens em todo o mundo, de acordo com uma análise feita pela consultoria McKinsey no ano passado. Para cada homem que perdeu o emprego, havia 1,8 mulheres na mesma situação —quase o dobro.

“Sem intervenção para endereçar esse impacto desproporcional da Covid-19 sobre as mulheres, o progresso pode regredir. Isso não atrasaria somente a causa da igualdade de gênero, mas também a economia global”, diz o relatório.

No Brasil, há ligeiramente mais mulheres desempregadas que homens, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Elas compunham 50,9% das pessoas sem ocupação no 3º trimestre de 2020, enquanto eles eram 49,1%.  

Há duas justificativas para esses números, explica Maria Dolores Montoya, professora da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da Universidade de São Paulo.

“Isso tem muito a ver com o tipo de atividade que é desenvolvida por mulheres, que envolve mais interação interpessoal, na área de serviços, que fori justamente a mais afetada. Também tem a ver com o padrão familiar, em que as mulheres normalmente são mais responsáveis pelas crianças e membros mais vulneráveis da família. Com as crianças precisando de supervisão integral em casa, isso tem de ser feito por alguém e, normalmente, socialmente, são majoritariamente mulheres”.

A professora diz que um campo em que essa desigualdade durante a pandemia pode ser observada de maneira muito clara é o acadêmico.

“Ao longo de todo o ano passado, observamos uma redução drástica na submissão de trabalhos de mulheres a revistas científicas. Isso é resultado dessa transformação, de mulheres se dedicarem ao cuidado de filhos, idosos e à dinâmica da casa”, diz. ” A implicação disso é muito concreta na vida profissional dessas mulheres, porque uma parte considerável da progressão na carreira acadêmica depende de publicação”.

Esse é o tema de uma pesquisa do escritório USP Mulheres, que executa projetos e estudos sobre igualdade de gênero. A coordenadora do órgão, a socióloga Maria Arminda Arruda, conta que há pesquisas que constatam que a produção acadêmica de mulheres se reduziu em 50% durante a pandemia, o que não aconteceu com colegas homens.

“Ficou muito difícil para elas serem responsáveis ao mesmo tempo por pesquisar, escrever, dar aulas, cuidar dos filhos e se responsabilizar por toda a coisa doméstica”, diz. “A pandemia escancarou todas as desigualdades, inclusive as de gênero. Quando as acadêmicas passam a produzir menos, isso é a revelação de uma desigualdade.”

O mesmo ponto de vista é partilhado por Montoya, da FEA. “As diferenças se aprofundaram e retrocedemos muitos anos na luta por equidade”, diz a professora. “Enquanto não tivermos um quadro de vacinação ampla da população, e ainda com o receio de que as variantes possam exigir novas rodadas de imunização, estaremos num processo de piora de todas as desigualdades – de gênero, de cor, de tudo”.

Violência doméstica

Montoya é coordenadora de uma pesquisa em parceria com a Universidade de York, no Reino Unido, para investigar como as medidas de isolamento afetaram os índices de violência doméstica —e como essa violência impacta o mercado de trabalho e a economia em geral.

Ela conta que essa pesquisa começou a ser delineada no início da pandemia, com a preocupação de que o problema poderia se agravar durante o isolamento, com mulheres em convívio mais próximo com seus agressores.

“A perda de renda, em termos gerais, é também um motivo que dispara os episódios. Você expõe um domicílio a um estresse de não ter condições econômicas para sobrevivência e isso pode estimular atos agressivos”, diz.

A professora conta que investiga como o auxílio emergencial pode ter servido como atenuante para casos de agressão, uma vez que ele garantiu um nível de recurso nos lares e diminuiu parcialmente essa tensão. A pesquisa tem previsão de conclusão no início de 2022.

“Quando se fala em violência doméstica, normalmente levamos mais em conta a questão pessoal. Mas há também consequências econômicas”, diz Montoya. “As mulheres vítimas têm taxas maiores de absenteísmo [faltam mais], uma rotatividade maior e, por isso, são mais vulneráveis ao desemprego. O sofrimento não é só individual, é um impacto para a sociedade”. 

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