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    Ela foi acorrentada na casa de Klein, diz irmão de vítima que morreu aos 23 anos

    Diogo Meyer, irmão de Stephany Guimarães, revela que uma delegacia da Polícia Civil de São Paulo entregava relatórios com os dados das meninas

    Por Adriana Farias e Marcia Moretti, da DOC.Films

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    A estudante e modelo Stephany Guimarães da Silva era apontada como uma das garotas “preferidas” de Saul Klein, no suposto esquema de exploração sexual que teria sido montado pelo empresário. Ela era conhecida como “Capricho”, por ter aparecido nas páginas da revista de mesmo nome. A morte da jovem, em setembro do ano passado, provocou uma onda de indignação em outras mulheres, que resolveram denunciar Saul Klein ao projeto Justiceiras, de apoio a vítimas de violência, e a Ouvidoria das Mulheres, do Conselho Nacional do Ministério Publico.  

    Diogo Meyer, de 19 anos, irmão de Stephany, decidiu dar uma entrevista exclusiva à CNN Brasil após ter assistido à serie “Caso Saul Klein – as revelações completas”, exibida pelo CNN Séries Originais. Ele diz que a irmã mudou completamente depois de começar a se encontrar com Saul Klein. E afirma que ela sofreu agressões físicas, foi abusada sob uso de medicamentos e álcool, e chegou a ser acorrentada em um dos imóveis do empresário.

    Stephany nasceu em Porto Alegre, e aos 16 anos se mudou com a família para São Paulo, onde trabalhava como modelo. De acordo com o irmão, além de muito bonita, Stephany era espontânea, meiga e carismática. Diogo conta que a moça tinha poucos amigos na cidade, e teria sido convencida por Ana Paula Fogo, uma das participantes do suposto esquema de aliciamento de Saul Klein, a conhecer o empresário.

     

    No inquérito aberto pela Polícia Civil para investigar o filho do fundador das Casas Bahia, consta um documento de 2017 em que um advogado que representava Stephany narra como a estudante se envolveu com Saul Klein. De acordo com o relatório, ela tinha 17 anos quando foi acionada pelas redes sociais para fazer serviços de panfletagem para uma empresa de biquínis chamada Hype Beach. A proprietária dessa marca seria Marta Gomes, apontada como uma espécie de “diretora” do esquema de exploração, responsável por selecionar as meninas para Klein.

    Segundo o documento, após a panfletagem, Stephany recebeu uma nova proposta, com remuneração maior, para conhecer o “dono” da marca de biquínis. Ela não quis. Depois de muita insistência nos dias seguintes, uma das agenciadoras foi até a escola da estudante, e disse para ela fazer ao menos um teste, e já receberia uma quantia em dinheiro. Stephany concordou, e foi levada para a mansão do suposto dono da loja, que, na verdade, era Saul Klein. Lá, o tom mudou. Uma das aliciadoras encaminhou Stephany a um banheiro e disse que  a garota teria que manter relações sexuais com o empresário para receber o cachê de 3 mil reais. Conforme o relatório, houve ato sexual, mas sem consentimento.

    O irmão de Stephany conta que, nessa época, ela disse que estava fazendo um trabalho “mais ou menos” de moda. Mas a família não sabia exatamente o que era. E ela demorou a se abrir. Depois de um tempo, começou a dizer que tinha um namorado, só que o suposto namoro não era tradicional.

    Diogo diz que Saul Klein mantinha várias meninas com menos de 20 anos na casa e dopava as moças com medicamentos fortes e bebidas alcoólicas, e que elas eram abusadas sexualmente, sem consentimento.

    Ele afirma que a irmã era uma das principais vítimas, e ficava muito abatida com essa mistura de drogas e álcool. 

    Mas o mais chocante, para ele, foi quando Stephany começou a relatar agressões que estaria sofrendo nos imóveis de Saul. Ele conta que, uma vez, ela conseguiu mandar uma mensagem pra ele, dizendo que estava acorrentada, presa “que nem um cachorro”, e que não sabia o que fazer.

    Ele não sabe como a irmã se livrou da situação. Ela também disse ao irmão que foi estuprada. Outras vezes, ela chegava em casa com hematomas, marcas roxas no corpo, mas não contava o que tinha acontecido. Diogo também diz que Stephany sofreu muitas agressões psicológicas, ameaças e xingamentos, especialmente de Marta Gomes e Ana Paula Fogo, integrantes do suposto esquema de aliciamento.

    De acordo com o documento sobre Stephany que consta no inquérito policial, Stephany virou “cuidadora” de Saul Klein, ficando de segunda a segunda nos imóveis do empresário. “Passava até mesmo dois dias encarcerada, sem sair literalmente, do quarto do senhor Saul Klein”, diz o texto. “Na maioria dessas noites de encarceramento, a senhora Stephany, dopada pelo uso de stillnox, mais consumo de bebidas, mantinha relações sexuais não consentidas”, e sem uso de preservativo.

    No relatório também consta que, quando Stephany estava no sítio de Saul Klein na cidade de Boituva, no interior de São Paulo, em fevereiro de 2017, ela sofreu hemorragia e sentiu um corpo estranho sair pela vagina. E chegou a trocar mensagens sobre o fato com uma amiga.

    Troca de mensagens de vítima com amiga
    Troca de mensagens de vítima com amiga
    Foto: Reprodução

     

    Conforme o relato, o corpo estranho seria um “embrião natimorto”. Ou seja, Stephany teria sofrido um aborto. E, depois de três dias, o próprio Saul Klein teria levado a moça em seu carro particular para sua mansão em Alphaville.

    Carro com Saul Klein
    Carro com Saul Klein
    Foto: Reprodução

     

    Ao chegar, ela teria sido posta em um quarto privativo, sendo tratada pela médica ginecologista Silvia Petrelli (que também está sendo investigada no caso Saul Klein). Na conclusão do documento, o advogado diz que Stephany se encontrava em quadro agudo de distúrbio emocional decorrente dos fatos ocorridos na casa do senhor Saul Klein.

    Pedido médico de ultrassom
    Pedido médico de ultrassom
    Foto: Reprodução

     

    De acordo com Diogo Meyer, depois que passou a conviver com Saul Klein, Stephany se isolou da família e dos amigos, e passou a viver só no mundo do empresário, cuidando dele 24 horas por dia. Ela acabou ficando depressiva e foi cortada da casa.

    Delegacia estaria envolvida no esquema de exploração

    Diogo Meyer diz que Stephany quis denunciar Saul Klein, e que ele foi com a irmã à 5ª Delegacia da Polícia Civil da Aclimação, no centro de São Paulo. Mas, quando chegaram ao local, Stephany se lembrou de que aquela delegacia teria envolvimento com o esquema de exploração.

    Segundo ela disse ao irmão, todos os casos referentes a meninas do possível esquema de exploração sexual iriam para aquela delegacia, e as denúncias seriam “abafadas”. Pessoas de dentro da delegacia também seriam responsáveis por levantar as fichas das garotas que frequentavam a casa do empresário.

    A ex-funcionária Ana Paula Fogo, que denunciou como funcionava o suposto esquema sexual ao CNN Séries Originais, confirma que uma delegacia da Polícia Civil de São Paulo estaria agindo para beneficiar Saul Klein, levantando todo o histórico das meninas, a partir de biometrias que eram colhidas nos imóveis do empresário. Mas ela não sabe se era a delegacia da Aclimação. Segundo Ana Paula, antes de conhecer qualquer moça, Saul receberia um relatório com cinco a seis páginas, com nome, idade, foto atual dos documentos dela, dos pais, dos irmãos, endereço e profissão dos pais, e antecedentes. Ela também diz que essa equipe da delegacia receberia pelo menos R$ 150 mil mensais pelo serviço.

    O irmão de Stephany diz que, sem conseguir denunciar, ela entrou em depressão profunda, e acabou se matando. O suicídio de Stephany foi registrado exatamente da 5ª Delegacia de Polícia, da Aclimação. Diogo afirma que decidiu falar porque espera que a delegacia seja investigada, e que Saul Klein, Marta Gomes e Ana Paula Fogo sejam penalizados.

    O inquérito da Polícia Civil em que Saul Klein é investigado pelo suposto esquema de aliciamento, abuso, exploração sexual e estupro foi aberto em dezembro de 2020, três meses depois da morte de Stephany. Trinta e duas vítimas acusam o empresário.

    Outro lado

    Saul Klein

    O advogado de Saul Klein, André Boiani, nega as acusações de crimes sexuais do empresário por meio de posicionamento encaminhado por e-mail. “O Sr. Saul Klein jamais manteve relações sexuais não consentidas. Ele também nunca admitiu a presença de menores de idade em seus eventos, tendo sempre sido esse tema pauta de sua agenda de responsabilidade como anfitrião”, diz. “O Sr. Saul Klein vem sendo vítima de um grupo organizado que se uniu com o único objetivo de enriquecer ilicitamente às custas dele, através da realização de ameaças e da apresentação de acusações falsas em âmbito judicial, policial e midiático. Várias dessas pessoas já conseguiram se aproveitar dele em outras oportunidades, causando-lhe prejuízo milionário, e estavam acostumadas a essa situação. Quando perceberam que esse tempo acabou, passaram a difamá-lo publicamente. Ele sente profunda indignação diante desse quadro, mas se defenderá com toda a tranquilidade, pois tem absoluta confiança na Polícia, no Ministério Público e no Poder Judiciário”.

    Sobre o caso de Stephany Guimarães, o advogado diz em nota que ela “jamais foi por ele explorada ou tratada de forma reprovável”. Sobre o afastamento da garota da casa, “nos autos do inquérito foram ouvidos [outros] familiares próximos dela que deixaram claro que ela foi impedida de continuar a participar dos eventos pelas pessoas da empresa contratada pelo Sr. Saul, e não por decisão dele”, diz a nota. “O afastamento teria ocorrido em razão de ela ter se tornado próxima demais dele e por querer alertá-lo quanto às más atitudes dessas pessoas contra ele (por exemplo, alertá-lo de que ele era dopado por elas).

    Sobre o uso da estrutura de uma delegacia para favorecê-lo com levantamento de dados das meninas que frequentavam seu imóvel, o advogado diz que o empresário “nega veementemente a existência de qualquer esquema com a Polícia Civil ou com qualquer outro órgão público”. De acordo com a nota do advogado, “quem dizia que fazia a verificação dos documentos das pessoas que participavam dos eventos era a empresa contratada para seleção das moças”. O texto completa dizendo que “deve ser lembrado que muitas moças disseram que receberam documentos falsos da agência para poderem ingressar nas casas do Sr. Saul Klein, o que, por si só, já seria demonstração da inexistência de qualquer “esquema” de verificação sob controle do Sr. Saul. Trata-se de mais uma invenção totalmente ilógica”.

    Secretaria de Segurança Pública

    Procurada pela reportagem para comentar sobre a denúncia em relação a delegacia da Aclimação, a Secretaria de Segurança Pública encaminhou uma nota. “Não há denúncia registrada contra o referido distrito policial, até o momento, entretanto a Corregedoria da Instituição está à disposição para ouvir eventuais vítimas ou testemunhas”. Sobre o andamento das apurações com relação ao suicídio de Stephany registrada pela mesma delegacia, a SSP informou: “a Polícia Civil esclarece que a autoridade policial do 5° DP ouviu familiares da vítima, analisou os laudos necroscópico e da perícia no local. Inicialmente, não há indícios de induzimento ou instigação ao suicídio, porém, as investigações estão em andamento por meio de inquérito policial.”

    Ana Paula Fogo

    A ex-funcionária Ana Paula Fogo confirma as violências sofridas por Stephany nos imóveis de Saul Klein e diz que tentou ajudar a garota. “Ela viveu um cárcere privado não só físico como emocional. Ela ficava de segunda a segunda na casa dele”, diz. “Ela tinha uma carência afetiva que o Saul cobriu. Um dia ele falou que não queria mais, falou que era porque ela tinha engordado, e eu que tinha que falar para ela essas coisas. ‘Como que fica a cabeça dessa menina?’ Aí o primeiro ódio dela foi comigo”, diz. “A Stephanie é uma dor que eu sinto muito particular porque eu poderia ter feito muito”. Em entrevista exclusiva ao CNN Séries Originais, Ana Paula Fogo, que diz ter sido aliciadora de Klein, e pede perdão às vítimas

    Marta Gomes

    Marta Gomes informou por meio de seu advogado, Paulo Amador, que não irá se pronunciar sobre o caso.

    Silvia Petrelli 

    A ginecologista Silvia Petrelli não quis dar entrevista, mas nega que tenha cometido qualquer ato ilícito e disse que já prestou todos os esclarecimentos à Polícia Civil.

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