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    “Entre o tiro e a multa”: motociclistas relatam que criminosos proíbem uso de capacete no Rio

    Acirramento da disputa territorial entre traficantes e milicianos impôs cuidados a moradores

    Motociclista sem capacete em rua da Gardênia Azul, no Rio de Janeiro
    Motociclista sem capacete em rua da Gardênia Azul, no Rio de Janeiro Reprodução/Polícia Civil

    Isabelle Salemeda CNN

    Moradores da Gardênia Azul, na zona oeste do Rio de Janeiro, que preferem não ser identificados por uma questão de segurança, relataram à CNN uma difícil escolha: andar diariamente em suas motocicletas sem a utilização de capacete e colocar a vida em risco, além de ser multado, ou arriscar ser confundido com um criminoso por conta da proteção na cabeça e acabar baleado.

    “Eu prefiro tomar multa do que tomar um tiro, então eu saio sem capacete. Aí outro dia os policiais passaram e me multaram. Ainda ficaram me olhando… Em vez de chegar e me dar uma advertência, tá ligado? E chegar e falar, ah, não pode andar sem capacete. Eu sei que não pode, que eu sou habilitado e tal, mas eu prefiro tomar uma multa do que um tiro. E eles que estão lá, eles deveriam saber disso, que andar sem capacete é perigoso e tal, e em vez deles alertarem, não. Eles preferem multar, e é complicado, né?”, contou um ex-morador da localidade.

    Segundo um artista visual, que também optou por não se identificar, esse tem sido um dilema enfrentado por muitos moradores da comunidade, desde que a região passou a ser disputada por milicianos e traficantes.

    “Constantemente a gente convive com essa guerra entre o tráfico e a milícia. E o Batalhão de Choque, que está estabelecido aqui e deveria estar acabando com essa guerra e trazendo a paz para a gente que é morador, eles estão multando em todas as oportunidades que eles têm. A gente que é morador, muitas vezes a gente fica com medo de tomar um tiro, de ser confundido, então, quando a gente entra numa comunidade, automaticamente a gente tira o capacete”, contou ele em uma publicação nas redes sociais.

    No dia 26 de dezembro do ano passado, o artista recebeu três multas consideradas gravíssimas pelo Código Nacional de Trânsito num período de dois minutos. Duas delas tinham a ver com a falta de uso de capacete: uma por ele conduzir sem o equipamento de proteção e a segunda porque um passageiro também dispensou o uso. A terceira penalidade foi dois minutos depois, por transitar pela contramão. Para quitar cada uma delas, terá que pagar R$ 293,47.

    Motociclista foi multado três vezes em menos de dois minutos / Reprodução

    “O Gardênia hoje está dividido: milícia e tráfico. O morador fica com medo de ser reprimido entre o tiro e a multa. Está faltando entregador, porque o pessoal está fugindo do Gardênia”, afirmou outro morador da comunidade à CNN.

    A página “Gardênia Azul Notícias” abordou o tema nas redes sociais. Os comentários publicados são de moradores assustados pela guerra na região e com medo de usar o capacete. “Me deram multa por estar sem [capacete] no Gardênia, maior covardia isso, se tá proibido não tem que dar multa nenhuma”, escreveu um jovem.

    “Passei por isso ontem, me pediram pra tirar e mais a frente o Choque mandou colocar e ameaçou de multar com a maior ignorância do mundo”, relatou outro rapaz.

    Muitos moradores também relatam supostas irregularidades nas multas. “Eu mesmo tomei uma [multa] na Avenida das Lagoas, de contramão, que até hoje não sei como tomei isso e quem deu… e eu ando corretamente, justamente para não acontecer isso, mas, enfim, o estado como sempre prejudicando a população”, afirmou uma pessoa.

    Consultada, a Polícia Militar informou que as equipes policiais da corporação estão trabalhando nas ruas com foco na segurança pública, prevenindo e coibindo crimes que impactam na sensação de segurança da população. A PM também atua em conjunto com outros órgãos de trânsito em ações para reprimir crimes e infrações de trânsito.

    Já o Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ) informou que, no caso citado acima, são multas distintas: a primeira refere-se ao condutor e a segunda, ao passageiro. A terceira é relacionada ao fato de o motorista estar na contramão. O Detran informou, ainda, que as infrações estão listadas no Código Nacional de Trânsito.

    A CNN consultou, ainda, a Polícia Civil para saber se há registros em delegacias sobre as denúncias de que criminosos ameaçam moradores que usam o capacete. Aguardamos o retorno.