Flordelis diz que há interesse político e religioso em sua prisão

Em depoimento no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, ela se disse injustiçada e perseguida e negou ter planejado morte do pastor Anderson

Em depoimento na Comissão de Ética, Flordelis negou envolvimento na morte do pastor Anderson
Em depoimento na Comissão de Ética, Flordelis negou envolvimento na morte do pastor Anderson Foto: Claudio Andrade/Câmara dos Deputados

Por Iuri Corsini, da CNN, no Rio de Janeiro

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A deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ) foi ouvida e inquirida por cerca de 4 horas no Conselho de Ética e Decoro da Câmara dos Deputados, na quinta-feira (13), no procedimento que julga a perda ou não de seu mandato parlamentar. Acusada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) de ter sido a mentora e a mandante da morte de seu então marido, o pastor Anderson do Carmo, a deputada se disse perseguida e injustiçada, e afirmou, sem citar nomes, que há interesses de políticos do Rio e de lideranças religiosas em sua prisão.

“Minha desgraça é boa para alguns políticos do meu estado que pretendem herdar meus quase 200 mil votos que conquistei e que vou repetir com meu trabalho. Não entrei nessa casa de paraquedas. Eu tenho uma história”, afirmou a pastora, que ainda continuou. “Existe um pequeno grupo de falsos cristãos que querem, a qualquer custo, continuar me agredindo, continuar me rotulando de assassina, para conquistar os fiéis das minhas igrejas que, infelizmente, eu tive que fechar”.

Ao relator da comissão, o deputado federal Alexandre Leite (DEM-SP), Flordelis também falou que houve uma trama entre alguns de seus filhos, sob articulação de Mizael (filho afetivo), que planejaram e executaram o assassinato de Anderson por motivos financeiros e mirando cargos na municipalidade de São Gonçalo. Tudo isso, segundo ela, sem o seu conhecimento. Flordelis também afirmou que o fato de ter havido essas tramas e acusações mútuas entre ela e alguns de seus filhos não “macularia a imagem da família unida”, que passou ao longo de seus depoimentos.

Voltando a alegar ser inocente, a deputada afirmou que o pastor Anderson era seu principal articulador político e que não teria motivos para matá-lo.

“Eu não mandei matar meu marido. Ele não era só meu amigo, era também meu parceiro. Me tornei quem me tornei por causa das articulações do meu marido. Por qual motivo eu mandaria matá-lo, meu articulador? Me deem um motivo. Não vão encontrar. Já tentaram de tudo e não conseguiram. ”.

Flordelis então fez um apelo à comissão para que seu mandato não seja cassado, o que, segundo ela, seria uma injustiça cometida pela Casa.

“Falar em cassar meu mandato é tirar a comida da mesa dos meus filhos, por um crime que jamais cometi e sequer fui julgada. Queria pedir humanidade nessa casa. Que deixem continuar com meu mandato. Que deixem eu ir até o fim. Que esperem o julgamento. Gostaria que pensassem, refletissem para que uma injustiça não seja cometida nesta casa. Me deixem com meu mandato”.

Em um dos momentos mais conflitantes da oitiva, o relator questionou sobre o teor de algumas das mensagens que os investigadores encontraram no celular da deputada, que mostram conversas entre ela e alguns de seus filhos falando do pastor Anderson e supostamente planejando sua morte.

Essas mensagens, segundo o relatório de análise da Polícia Civil, apontam como a relação dela com Anderson era uma “farsa” e uma “encenação”. Nestas comunicações, Flordelis chama o marido de “traste” e diz que “precisa pôr um fim nisso”. Ela também teria escrito para uma das filhas que só não se separava de Anderson para não escandalizar o nome da família. Já outras mensagens mostram a intenção e o planejamento do assassinato de Anderson.

Em uma das conversas que consta na denúncia, Flordelis teria escrito, em março de 2019:

“Dez mil depois do serviço feito, mas as outras pessoas do carro não podem ser atingidas. Simula um assalto, ele foi para o Rio hoje e aproveita e já espera ele na volta. Se voltar no [carro] dele, melhor ainda. Vou mandar ele enviar a foto, nós vamos saber qual o carro e qual a placa”. A versão da tentativa de assalto foi a usada pela parlamentar dias depois da morte do pastor.

Em sua defesa, Flordelis falou que nenhuma dessas mensagens foi enviada por ela. Como justificativa, disse que seu celular, apesar de ser o único que usa, era utilizado por seus filhos e outras pessoas. Afirmou que não soube ou viu nenhuma destas conversas, culpando alguns filhos, sem citar nomes, de ter usado seu celular para incriminá-la como se fosse ela a escrever.

Conforme as investigações, Flordelis foi a mentora e mandante da morte de seu marido, assassinado a tiros em sua casa em julho de 2019. Ela teria, conforme apontado na denúncia do MPRJ, literalmente escrito o plano para matar Anderson do Carmo.

Ela e outras 11 pessoas são réus na Justiça do Rio, por supostamente terem participação neste crime. Dez destas onze, incluindo Flordelis, serão julgadas em júri popular, com data ainda a ser definida pela juíza do caso.

Flordelis e sua defesa negam todas as acusações.

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