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    Maurício Pestana: punição no caso Vini Júnior, uma questão moral

    Pena de cadeia para agressores do jogador na Espanha é um ponto de partida para que leis mais rígidas possam ser criadas

    Vinicius Júnior foi alvo de insultos racistas, que resultaram na condenação dos agressores na Espanha
    Vinicius Júnior foi alvo de insultos racistas, que resultaram na condenação dos agressores na Espanha X/Vini Jr.

    Maurício Pestana

    Certa vez, palestrando sobre a questão racial no Brasil em território europeu, fui indagado sobre como enfrentávamos o problema do racismo, uma vez que, pelas minhas colocações, era algo estrutural e sistemático por aqui. Respondi que, do ponto de vista prático, agíamos de acordo com a lei – afinal, o racismo é um crime, inclusive, inafiançável e previsto pela legislação, descrito em nossa Constituição.

    A resposta do interlocutor foi imediata: “Pobre do país que precisa ter uma lei para punir uma atitude que é imoral para qualquer cidadão civilizado”.

    Desde então, sempre coloco a questão em pauta, se é imoral ser racista, como punir isso, se dificilmente um cidadão irá assumir ser alguém imoral? Esse foi apenas um dos debates que pude presenciar no início do ano quando estive em Barcelona, na Espanha, sobre o caso que corria na Justiça das ofensas proferidas contra Vinicius Júnior.

    O que me chamou mais a atenção ouvindo alguns espanhóis é que poucos achavam atos racistas as “brincadeiras” feitas no estádio contra o jogador. Isso me fez lembrar o Brasil que conheci há dez, 15, 20 anos, quando certas imoralidades eram vistas pelas pessoas da época como “normais”.

    A punição exemplar, com cadeia, para os agressores gestuais e verbais de Vini Júnior na Espanha é algo sem precedentes na história do futebol europeu e um ponto de partida para que leis mais rígidas possam ser criadas e colocadas à disposição de quem não aceita práticas racistas – seja de forma direta ou em forma de piadas, gestos ou qualquer outro tipo de agressão.

    O Brasil só começou a enfrentar práticas racistas nos moldes da lei quando a Constituição de 1988 tipificou o racismo como crime inafiançável. A partir dali, começamos, inclusive, a colocar em prática políticas públicas de combate às desigualdades raciais.

    Um crime só existe se houver um criminoso e só se propaga se não houver lei que criminalize o seu autor. É preciso cada vez mais punição para qualquer tipo de racismo, seja o ato feito por meio de brincadeira, piada ou coisas correlatas.

    O recado que a Justiça espanhola deu à Europa e ao mundo com a punição de cadeia aos agressores foi que racismo é crime, e não é brincadeira.

    Esperamos que este seja o início de uma nova era, e que as federações e outras organizações esportivas, principalmente no futebol, não esperem surgir outro Vini Júnior de forma solitária e se imponham contra algo que não é só imoral, pois lesa também a dignidade humana.