Mortes ligadas à cocaína crescem no Brasil, alerta relatório da ONU

Número de mortes cresce simultaneamente ao aumento de apreensões da droga no país; na América do Sul, apreensões atingiram nível histórico

Larissa Soave, da CNN Brasil*, em São Paulo
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As mortes ligadas ao uso de cocaína cresceram consideravelmente a partir de 2020 no Brasil, assim como o número de apreensões da droga, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2026 divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) nesta sexta-feira (26).

O relatório, elaborado pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), funciona como uma avaliação que fornece evidências científicas sobre as tendências globais de produção, tráfico e consumo de drogas, além de seus impactos na saúde e na segurança.

De acordo com a ONU, o mercado global de drogas tem crescido e se espalhado rapidamente. “E já estamos sofrendo o impacto: milhões de mortes prematuras e anos de vida saudável desnecessariamente perdidos; redes de tráfico de drogas que distorcem economias[...] e o agravamento da insegurança e da violência", diz Monica Juma, Diretora Executiva do UNODC.

O Brasil registrou um aumento considerável na mortalidade relacionada à cocaína desde 2020. Essa tendência está acompanhada pelo crescimento de quantidades de cocaína apreendidas na América do Sul.

O gráfico abaixo, intitulado "Mortes atribuídas a transtornos pelo uso de cocaína, Brasil e quantidades totais de apreensões relatadas de cocaína na América do Sul" mostra a relação do número de mortes (representado pelas barras) e de apreensões de cocaína (representado pela linha). As áreas rosas das barras representam as mortes de mulheres, enquanto as azuis representam homens.

De 1996 a 2005, em contrapartida, o número de mortes no Brasil por transtornos ligados à cocaína se manteve baixo e estável, oscilando geralmente abaixo de 50 casos por ano, enquanto a apreensões na América do Sul também eram menores.

O período de 2018 a 2023 é o mais crítico do gráfico, em que a linha amarela de apreensões atinge seu pico, aproximando-se de 1.300 toneladas da droga apreendidas no continente. A mortalidade no Brasil bate recordes históricos, aproximando-se de 270 mortes registradas em um único ano.

A partir da análise dos números, o relatório associa diretamente as mortes registradas à alta disponibilidade da substância no Brasil e em países próximos.

O consumo mundial de drogas

A estimativa revelada no relatório aponta que 331 milhões de pessoas usaram alguma droga em 2024, o que corresponde a 6,2% da população global com idade entre 15 e 64 anos, em comparação com 5,2% em 2014.

A cannabis continua sendo a droga mais utilizada, com 256 milhões de usuários em 2024, seguida pelos opioides (63 milhões), anfetaminas (32 milhões), cocaína (25 milhões) e ecstasy (21 milhões).

A produção, o tráfico e o uso de cannabis estão evoluindo, provavelmente devido às mudanças contínuas na percepção em relação à droga na época em que muitos países adotaram políticas de legalização ou descriminalização.

Segundo a ONU, os fabricantes de drogas ilícitas continuam a inventar novas drogas sintéticas para burlar regulamentações e evitar a detecção, com cinco vezes mais tipos de drogas encontrados em apreensões em 2024 do que no ano 2000.

O número de NPS (Novas Substâncias Psicoativas), por exemplo, atingiu 755 em 2024, sendo que 118 dessas substâncias foram relatadas em no ano 2000.

Outra questão mundial é a metanfetamina, já que, com novas rotas de tráfico e a disseminação gradual da produção de metanfetamina, traficantes criaram novos mercados para a droga, principalmente no Próximo e Médio Oriente, na África e em partes da Europa.

As apreensões de metanfetamina cresceram em média 13% ao ano, um aumento impulsionado em grande parte pelas quantidades no Leste e Sudeste Asiático. Mianmar é o principal país de origem da metanfetamina, mas a alta demanda também atraiu fornecedores da América do Norte, das Áfricas Ocidental e Austral e do Sudoeste Asiático.

A ONU alerta a população que o uso de drogas pode estar associado a crimes contra o patrimônio, violência dentro de famílias e grupos sociais, e à vitimização daqueles que usam drogas. Porém, para intervenções efetivas, fatores mais amplos devem ser considerados, como o contexto do uso da droga e o histórico pessoal dos envolvidos, como pobreza, situação de rua, saúde mental e a potencial falta de acesso ao tratamento de drogas e a serviços sociais.

*Sob supervisão de Felipe Andrade

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