MPF move ação para Polícia Rodoviária Federal não atuar em operações fora de estradas

Medida também recomenda multa de R$ 1 milhão por ações da PRF “fora de seu âmbito geográfico

Beatriz Puente e Leandro Resende, da CNN, Rio de Janeiro
Movimentação de policiais após ação que deixou 23 pessoas mortas na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio de Janeiro
Movimentação de policiais após ação que deixou 23 pessoas mortas na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio de Janeiro  • José Lucena/The News 2/Estadão Conteúdo
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O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com ação civil pública, com pedido de liminar, contra a União para que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) não seja autorizada a atuar em operações conjuntas com outras forças de segurança fora de estradas. O MPF destaca a responsabilidade da corporação na segunda operação mais letal da história do Rio de Janeiro, na comunidade da Vila Cruzeiro, no último dia 24, e que resultou em 23 mortes, entre elas uma mulher atingida por bala perdida.

A medida também recomenda multa de R$ 1 milhão por operação para a PRF “fora do âmbito geográfico das rodovias e estradas federais, vedando expressamente o ingresso em locais de operações conjuntas planejadas e realizadas dentro de comunidades e no perímetro urbano”.

No dia seguinte à operação, a participação dos policiais foi questionada pelo procurador Eduardo Benones, do MPF, que instaurou uma investigação para apurar se houve desvio de função dos agentes. O MPF deu prazo de 72h horas para a PFR informar o relatório final da operação realizada e os nomes e matrículas dos agentes envolvidos para serem convocados a prestarem depoimentos. O prazo expira hoje e o MPF informou que não recebeu as respostas da PRF.

Em nota, a PRF informou que: “Todas as informações solicitadas pelos órgãos de controle foram devidamente respondidas.”

De acordo com o MPF, apenas as polícias Civil e Federal enviaram as informações solicitadas.

Embora não seja atribuição da PRF atuar em favelas da cidade – e sim fiscalizar e fazer o policiamento ostensivo das rodovias federais – a PRF atribui à ação na região para prender lideranças criminosas que estariam escondidas na comunidade.

A PRF também argumenta que está em conformidade com portaria do Ministério da Justiça que autorizou o ingresso de seus agentes em locais alvos de mandado de busca e apreensão.

No mérito, o MPF requer a declaração da inconstitucionalidade incidental do artigo de uma portaria de 2021 do Ministério da Justiça e Segurança Pública, decretando-se a nulidade parcial do ato administrativo. Foi com base nessa portaria que a Superintendência da PRF no Rio de Janeiro autorizou a operação conjunta com a Polícia Militar na Vila Cruzeiro.

“A legislação que rege a matéria não conferiu ao Ministro da Justiça e Segurança Pública o poder normativo de estabelecer as atribuições da Polícia Rodoviária Federal, alterando-lhe o âmbito da competência territorial ou em razão da matéria”, argumenta o procurador da República Eduardo Benones, autor da ação.

De acordo com o MPF, só esse ano em três incursos da PRF em comunidade do Rio, 37 pessoas já morreram.

SBT denuncia ter tido material apreendido pela PRF

Durante a operação na Vila Cruzeiro, na semana passada, o SBT informou que agentes da PRF apreenderam imagens feitas pelo cinegrafista da emissora Francisco Vidal. Horas depois, o material que estava e um cartão de memória foi exibido em um telejornal local da Rede Record. As imagens, de acordo com o SBT mostravam um perito da delegacia de homicídios sendo atingido por um tiro, supostamente por traficantes da região.

Em nota e em suas redes sociais, o SBT se manifestou e informou que “aguarda esclarecimento sobre as circunstâncias do desaparecimento do cartão de memória com as imagens”.

A TV Record se manifestou por meio de nota. “O jornalismo da Record TV Rio recebeu, na segunda-feira (30/05), de uma fonte fidedigna, imagens da operação policial realizada na Vila Cruzeiro, captadas na semana passada. A emissora exibiu as cenas em dois programas locais, Balanço Geral Rio e Cidade Alerta Rio, de forma absolutamente legítima. Entretanto, a Record TV tomou conhecimento de que teriam sido originalmente gravadas para o SBT, por um cinegrafista amador que alega ter tido o cartão de memória da câmera apreendido durante a operação. Uma informação que não havia como ser obtida até então. Após ser inteirada do caso, a emissora optou por interromper a veiculação das cenas, que não serão novamente levadas ao ar”.

A PRF não respondeu aos questionamentos da CNN sobre quais motivos levaram seus agentes a apreenderem o material que pertencia ao departamento de jornalismo do SBT e ter, suspostamente, entregue o conteúdo do cartão de memória para a Record. Também não informou se abriu procedimento interno para averiguar o caso.