O Grande Debate: Bolsonaro pressiona o STF para acabar com o isolamento?

Augusto de Arruda Botelho e Caio Coppolla discutiram também os impactos do novo rodízio que começará a valer na cidade de São Paulo

Da CNN, em São Paulo

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No Grande Debate da noite desta quinta-feira (7), Caio Coppolla e Augusto de Arruda Botelho discutiram a “visita surpresa” do presidente Jair Bolsonaro ao STF (Supremo Tribunal Federal) e se é válido que o presidente tome este tipo de atitude para pressionar outros poderes para reabrir a economia.

Augusto lembrou que o STF vem sendo alvo constante de informações falsas e pedidos para seu fechamento, e disse que a visita foi uma forma de intimidação à Corte.

“Bolsonaro conseguiu algo quase impossível, desagradando a todos com sua visita surpresa. Desagradou uma série de ministros do Supremo, parte dos empresários que o acompanhavam. A atitude e estratégia do governo é de intimidação à mais alta Corte do país, feita em um momento delicado e de ânimos exaltados”.

Caio viu a visita com outros olhos, e entendeu que o encontro foi uma maneira de Bolsonaro e empresários sensibilizarem as elites de Brasília para os problemas que a indústria brasileira vem enfrentando.

“A síntese do encontro aconteceu no início da reunião: economia também é vida. A visita serviu para sensibilizar o STF e conscientizar os ministros da Corte dos anseios da população. O Brasil vive hoje uma crise de demanda e há uma série de setores que podem ser reabertos de forma gradual e responsável. Economia é vida, e desemprego mata”.

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Augusto rebateu seu debatedor e questionou a frase dita no encontro, que a pandemia irá causar uma série de “mortes de CNPJ”, e disse que no momento prefere defender o isolamento diante dos números crescentes de mortes no Brasil. Ele também mencionou o alto nível de atividade da indústria de São Paulo e questionou a cobrança do governo neste momento uma vez que poucas diretrizes para enfrentar a crise foram estabelecidas.

“Ninguém discorda da importância da reabertura gradual da economia, apesar de 74% da atividade econômica do estado estar funcionando. Porém, não escutei uma vez, em quase dois meses de pandemia, um plano concreto do governo federal de como poderia ser o início de uma reabertura, coisa que outros países e até estados do Brasil estão fazendo. A população precisa de um norte”.

Caio citou a decisão do STF no sentido de que as decisões de coordenação contra a pandemia são competência de estados e municípios, tornando o presidente como um “comentarista” da crise no momento. Disse também que, independentemente da atividade industrial em São Paulo, o problema do Brasil reside na demanda.

“Pouco importa se a indústria está funcionando. Se não há consumo, pouco adianta as fábricas estarem abertas, já que não há ninguém para comprar. Se 74% da economia está funcionando, você tem outros 26% paralisados, e essas pessoas estão pauperizadas. Novamente, o presidente quis sensibilizar o STF e as elites do país em sua visita”.

Para Augusto, “o fato de que estados municípios podem decidir não impede o governo de decidir diretrizes”. Ele questionou a narrativa de que o governo federal está com as mãos atadas. “Sinto falta de uma organização, um posicionamento. Não há nenhuma diretriz, o que dificulta cidades a entender o que eles devem fazer. Falo do ponto de vista de criar um plano macro com diretrizes para auxiliar os estados e municípios”.

Caio então trouxe dados de indústrias que, mesmo permitidas a funcionar por serem consideradas atividades especiais, estão com ociosidade pela falta de demanda.

“Setor automotivo: 26 fábricas paradas, 5.200 concessionários fechados. Você já viu uma concessionária com aglomeração? Setor de máquinas e equipamentos tem 47 empresas fechadas. Na siderurgia, 12 altos fornos estão paralisados. Estes setores estão autorizados a trabalhar, mas a crise de demanda está afetando-os de qualquer maneira. Quando morrem CNPJ, perdem-se empregos. Quando isso acontece, pessoas morrem”.

Rodízio em São Paulo

O segundo tema do debate foi a decisão do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), de estabelecer um tipo de rodízio especial durante a pandemia, em que carros com placa de final par poderão circular em dias pares do mês, e carros de final ímpar poderão circular em dias ímpares. O questionamento foi se a decisão será efetiva ou apenas irá aumentar a aglomeração em transportes públicos.

“A pergunta é clara: o rodizio melhora o isolamento ou aumenta o número de pessoas no transporte público? Não sei”, disse Augusto, que acredita que nem mesmo a prefeitura tem a resposta, mas que o problema é não tentar. “Natural que medidas administrativas sejam revistas quando não dão certo. A pandemia é um evento totalmente fora da curva, então erros e acertos são esperados, porém prefiro ver governantes tentando solucionar o problema do que governantes inertes diante uma tragédia que já era anunciada”.

Caio concordou com Augusto e disse que também não sabe avaliar os efeitos da medida, porém criticou os técnicos da prefeitura de falta de metodologia. “É mais uma decisão da prefeitura baseada no achismo. Acho difícil que os técnicos da prefeitura tenham se debruçado nisso antes de tomar a decisão”.

Apesar de não saber prever os efeitos do novo rodízio, Augusto disse ter conversado com pessoas da prefeitura que explicaram algumas linhas de raciocínio que levaram a tomar a decisão.

“Ficou claro que muitas pessoas saem de carro para atividades não essenciais. A sensação é de que as pessoas estavam saindo de casa para passear. Então, a medida foi racional em tentar coibir este tipo de atitude que atrapalha o isolamento social. A expectativa da prefeitura é tirar 3,5 milhões de carros por dia”.

Caio então disse que a questão do rodízio é lateral, “porque é provável que teremos o aumento de aglomerações no transporte público”. E disse que neste momento sua maior preocupação é com compras sem licitação que estão sendo feitas por governadores e prefeitos.

“Já questionei os valores pagos pelo governo de São Paulo por respiradores. Tomei conhecimento também de a aquisição de mais de 1 milhão de aventais de uma empresa inapta a prestar este serviço. Quantas dessas contratações estão sendo feitas?”

Argumentos finais

Em sua fala final, Caio voltou a falar sobre a visita surpresa de Bolsonaro, dizendo que foi um momento simbólico visando a retomada econômica. “A visita foi simbólica para sensibilizar Brasília de que morte de CNPJ vai refletir na morte de CPFs”.

Já Augusto entendeu o movimento de maneira oposta, e viu no gesto uma ameaça de Bolsonaro ao STF. “O simbolismo que a visita me passou é de intimidação. O tom está subindo e nós, como sociedade, temos que ficar atentos, porque às vezes esses avisos chegam tarde demais. Não vamos fechar os olhos para estes atos ‘simbólicos’”.

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