Para Teich, recontagem de casos de Covid-19 vai indicar mais mortes

Teich deixou a pasta em 15 de maio em meio a uma disputa sobre a atualização de protocolos para uso da cloroquina contra Covid-19

Da CNN

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Ex-ministro da Saúde, Nelson Teich afirmou à CNN, nesta segunda-feira (8), que a pasta teve enfraquecida a sua posição de liderança com a revisão do método de divulgação de casos e mortes de Covid-19. Em entrevista exclusiva, ele defendeu a revisão da nova metodologia e avaliou que a recontagem indicará um maior número de mortes. 

“Não acredito que vá haver redução do número de casos. Você tem que mapear as mortes todas. É mais provável que tenham mais mortes do que menos mortes”, afirmou — ponderando, entretanto, que uma recontagem pode melhorar a qualidade da informação.

O ex-ministro disse acreditar que a pasta “vai rever a posição”, mas que “a única consequência prática” é que o ministério pode ter “enfraquecido sua posição como liderança”. “Isso é uma coisa que [o ministério] tem que resgatar”, defendeu.

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“A informação não vai deixar de existir. Essa mudança que aconteceu vai ter que ser revista, acredito que vai rever, porque não consigo imaginar a ideia de ocultar a informação. Isso vem dos estados e, se o ministério não consolidar, alguém vai. Não consigo ver essa situação da desinformação, porque ela [a informação] vai chegar”, afirmou.

O ex-ministro avaliou que a situação atual é uma “guerra de números” que causa polêmica e gera polarização. “E isso é muito ruim. O que penso hoje é que a saúde, a sociedade e o país precisam de uma trégua”, considerou. “Acredito que vai haver um reposicionamento e não vamos ter dificuldade de informação”.

Teich ainda assegurou que nunca sofreu qualquer pressão por parte do governo federal sobre a divulgação dos dados da Covid-19. “Nunca teve qualquer pressão do governo. Isso nunca aconteceu. A decisão de atrasar de 17h para às 19h foi porque naquele momento existia a informação de que a gente poderia ter uma revisão às 19h, então justamente para não gerar problema”, esclareceu.

Na última quarta-feira (3), o general Eduardo Pazuello foi oficializado como ministro interino na semana passada – depois de quase um mês no cargo de forma temporária. Esse cenário sem liderança oficial é negativo, na avaliação de Teich.

“Isso, para mim, é uma coisa ruim. Isso enfraquece a posição do ministro. Ter uma pessoa na posição oficial de ministro seria melhor. É óbvio que o presidente tem que fazer as escolhas dele e avaliar qual a melhor opção que ele tem. Quanto mais tempo você fica sem um ministro definitivo é ruim. Ter um ministro definitivo ajudaria nesse momento”, declarou.

‘Isolamento é privilégio’

O ex-titular da Saúde ainda afirmou que o isolamento social irá funcionar para conter a doença, mas que “não é uma política, mas um privilégio” em lugares como o Rio de Janeiro, por exemplo. “Se não trabalha a realidade que você tem, vai começar a traçar políticas e soluções que são ideais no mundo real, mas que não vão dar certo no mundo verdadeiro”, disse.

“É uma estratégia que vai funcionar, mas que, dependendo da intensidade e do tempo que passar, ficará mais difícil da sociedade conviver com ela. E é por isso que digo que tem que monitorar os índices da saúde, da economia e do social”, explicou.

Demissão e cloroquina

Teich deixou a pasta em 15 de maio, após 29 dias no cargo. De acordo com apuração do analista de política Caio Junqueira, da CNN, a saída do oncologista teve relação com a assinatura dos novos protocolos para o uso da cloroquina. Cinco dias depois, o então ministro interino, Eduardo Pazuello (agora oficializado ministro interino), assinou a ampliação da recomendação do medicamento contra Covid-19.

Ele negou ter afirmado que a demissão foi o “dia mais triste” da vida dele e que assinar o protocolo sobre a cloroquina mancharia a carreira dele. “Minha história é minha história, e sempre conduzi de uma forma para que ela fosse a melhor possível. Naquele momento, a discussão estava em cima da cloroquina. O problema não era a cloroquina, podia ser qualquer remédio, mas a forma de você trabalhar a incorporação tecnológica”, explicou.

Teich ainda citou razões orçamentárias para ser contra o novo protocolo para o medicamento. “Por que eu não era a favor da incorporação e da liberação? Porque quando faz isso, você começa a criar uma política, uma forma de conduzir o sistema. Isso foi a cloroquina para a Covid-19, mas se você começa a ter esse tipo de comportamento para o câncer, doenças raras e isso não tem fim. E qual é o problema todo e a consequência disso? É como aloca recursos escassos que você tem no sistema de saúde. Quando coloca dinheiro em algum lugar, você está tirando de outro, principalmente quando tem pouco dinheiro”, analisou.

“O problema é que eu tenho que ter uma política, ter a melhor forma de alocar o recurso do país, e foi por isso que eu divergi do presidente. Então, não foi a cloroquina, mas a forma de conduzir o sistema de saúde. A forma que eu tinha imaginado não era aquela. Ele [Bolsonaro] é a liderança do país, é a pessoa eleita e quem define. Eu tinha sido escolhido por ele e a minha opção foi sair”, concluiu.

Trajetória

Em uma avaliação de sua trajetória na pasta, Teich disse que, enquanto estava à frente do ministério, preferiu “decidir quanto falava e qual era a melhor hora de falar” e que acreditava que  “aparecer demais poderia não ser a melhor opção” no momento.

O ex-ministro negou qualquer frustração e afirmou ter orgulho da experiência, que, segundo ele, mesmo curta, foi algo único na vida dele. “Eu jamais me sentiria frustrado. Foi uma experiência única na minha vida. Não importa o tempo que você fique nessa posição, você nunca mais é a mesma pessoa e,quando você sai de lá, não tem como não querer continuar ajudando de alguma forma”, disse.

(Edição: Leonardo Lellis)

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