População de botos-cinza no Rio de Janeiro cai mais de 90% em cerca de 40 anos

Poluição na Baía de Guanabara afeta sobrevivência dos animais. Espécie é considerada vulnerável por Laboratório de Mamíferos Aquáticos da UERJ

Poluição da água por dejetos industriais é um dos principais motivos da diminuição da espécie
Poluição da água por dejetos industriais é um dos principais motivos da diminuição da espécie Maqua/Uerj

Beatriz Puenteda CNN*

No Rio de Janeiro

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A população de botos-cinza, espécie símbolo do estado do Rio de Janeiro, está ameaçada. Em 1980, a Baía de Guanabara era o lar de cerca de 400 desses animais. Agora, 42 anos depois, existem apenas 30 vivendo na região, uma redução de 92%. Os números são do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o Projeto Maqua. Para pesquisadores, a situação da espécie é vulnerabilidade.

Para o professor José Laílson, do Maqua/Uerj, a população existente na Baía de Guanabara atualmente é reflexo da dominação da humanidade sem restrições para preservação do ecossistema. Ele destacou a diferença entre o número de animais em um local com menos interferência.

“É uma população praticamente vestigial. Para se ter ideia, outras baías costeiras, que também têm o mesmo boto, como a Baía de Sepetiba e a Baía de Ilha Grande, hoje, são cerca de 1.500 animais em Sepetiba e mais de 2 mil na Baía de Ilha Grande”, destacou.

Segundo o último Boletim de Saúde Ambiental do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), dos 15 municípios banhados pela Baía de Guanabara, apenas Niterói apresenta bons índices de tratamento de esgoto e coleta de resíduos sólidos. Na média geral da área, 35% dos esgotos são tratados e quatro das cinco regiões da baía têm a qualidade da água classificada entre moderada e muito ruim.

Além da ausência de tratamento de esgoto nos municípios, o despejo industrial é a principal ameaça para a sobrevivência dos botos-cinza, segundo os pesquisadores. São componentes altamente tóxicos, como o ascarel, um isolante utilizado em transformadores e capacitores, que prejudicam a qualidade das águas e a biologia dos botos

“O que chega na Baía Guanabara não é só esgoto, não é só matéria orgânica. Chega muito mais coisa de origem industrial. Muitos desse compostos mexem com duas coisas fundamentais: o sistema imune e o sistema reprodutivo. E com o acúmulo desses poluentes, os animais morrem em decorrência de doenças, ficam mais suscetíveis a doenças das mais variadas. A gente sabe que eles estão entre os animais mais contaminados do mundo”, afirmou José Laílson.

O declínio da população de botos-cinza se deu, também, por uma série de fatores envolvendo a qualidade ambiental, ou seja, as condições essenciais para a sobrevivência desses animais. Os manguezais, por exemplo, que são um dos ambientes naturais mais produtivos do Brasil, já ocuparam quase toda a orla da Baía de Guanabara.

Ausência de tratamento nos esgotos da Baía de Guanabara atrapalha sobrevivência dos botos-cinza na região / Marcos César Santos/Instituto de Oceanografia (IO)/USP

Atualmente, o ecossistema, que funciona como um filtro biológico, concentra-se nos pontos protegidos pelo Ibama, na cidade de Guapimirim. Essa redução se deu por conta de aterros e construções de vias rápidas que ligam a região metropolitana do Rio de Janeiro a outros municípios. Além disso, outros fatores, como o aumento de embarcações na região e a poluição sonora, atrapalham a vida dos animais.

“A Baía de Guanabara perdeu o espelho d’água, perdeu áreas de manguezal, que são áreas para a reprodução de peixes, que fazem parte da dieta dos botos. Houve um aumento abusivo do trânsito de embarcações, que gera uma poluição acústica sobre a vida aquática também muito importante. Isso gera estresse nos animais, dificuldade para fugir das presas e interfere na comunicação dos botos. Eles não conseguem enxergar às vezes mais do que um palmo na sua frente porque a água é muito turva. E eles usam na navegação, para monitorar filhotes, interagir, pescar. Então é muito importante essa questão acústica”, explicou o pesquisador do Maqua/Uerj.

Universidade do Mar

Diante da preocupação com as espécies da Baía de Guanabara, a Ilha de Brocoió, no Arquipélago de Paquetá, lar dos botos-cinza e perto de manguezais protegidos, foi escolhida como sede da Universidade do Mar (UniMar). O projeto está em fase de implantação.

A proposta da UniMar nasceu em 2018 a partir de uma parceria entre a Faculdade de Oceanografia da UERJ, o Movimento Baía Viva e a Associação de Moradores da Ilha de Paquetá (Morena). Atualmente conta com o apoio de cerca de 70 instituições, além das reitorias da UERJ, UFRJ, UNIRIO, UEZO, PUC Rio, UFRRJ e UFF, Fiocruz e a Comissão Interministerial dos Recursos do Mar (CIRM), órgãos públicos federais e estaduais (como o Instituto Estadual do Ambiente – INEA) e do setor pesqueiro.

O local vai funcionar como um centro de pesquisa e terá todo o ecossistema da baía como foco.

Leilão da Cedae

Em 2021, o leilão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) arrecadou quase R$ 25 bilhões em duas sessões. A concessão estabelece que as empresas vencedoras façam investimentos e garantam a despoluição da Baía de Guanabara até 2033.

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