Problema de geração energética no Brasil está virando estrutural, diz engenheiro

Em entrevista à CNN, Tasso Azevedo, coordenador técnico do Observatório do Clima chamou atenção para os impactos de mudanças climáticas e para o desmatamento

Lucas Rocha e Renata Souza*, da CNN, em São Paulo
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Na sexta-feira (4), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) alertou que os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste podem esvaziar até o mês de novembro.

Em entrevista à CNN, o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da Rede MapBiomas e coordenador técnico do Observatório do Clima, falou das perspectivas sobre a crise hídrica no Brasil.

"Estamos vivendo mais um período em que vários fatores estão confluindo para uma dificuldade na geração elétrica. O fator ambiental, a La Niña, muda os períodos de seca e chuva, assim como acontece nos anos de El Niño, e estão fortes esse ano. Isso conflui com as mudanças climáticas que estamos observando. Nos últimos 20 anos, temos observado que está reduzindo a quantidade de chuva e aumentando o período seco no Brasil", disse.

Segundo Tasso, o problema é agravado com o avanço no desmatamento no país. "A floresta no Brasil tem um papel muito importante de formação das nuvens e da chuva. Quando você reduz essas áreas de floresta, está aumentando os nossos problemas de seca a longo prazo - um problema que está se tornando estrutural", afirmou.

Para o engenheiro, a economia de energia e busca por mecanismos de alta eficiência no setor elétrico devem ser contínuas, para além dos momentos de crise.

"Cuidar dos mananciais e áreas no entorno dos rios e reservatórios é fundamental para manter a longo prazo um fluxo de água mais constante. Senão há uma situação de que quando chove temos altas cheias e quando há o período seco, ele fica mais longo e com pouca água", disse. 

Para Tasso, uma alternativa é gerenciar o uso em maior escala de outros tipos de matrizes energéticas, como as energias solar e eólica. Segundo o engenheiro, o Brasil poderá ter que acionar, no curto prazo, as termoelétricas.

"O Brasil tem um parque montado nas últimas crises, para atender a esses períodos. O problema é que elas [as termoelétricas] são muito caras. Quando você aciona as termoelétricas, elas têm um peso muito grande na tarifa para o consumidor, além de emitir gases de efeito estufa que vai na contramão daquilo que queremos fazer hoje no mundo", disse.

O pesquisador avalia que o Brasil enfrenta uma demanda grande em relação à água, que vai da agricultura à produção de energia, passando pelo consumo humano. "Em geral, os lagos das hidrelétricas funcionam como reservatório para todos esses usos, quando você chega na situação em que há uma quantidade muito pequena de água para a produção de energia, significa que a crise está chegando a todos os outros setores - certamente precisa ser priorizado o consumo humano primeiro", concluiu.

*sob supervisão de Jorge Fernando Rodrigues.

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