Escrivão da PF teria alertado suspeitos antes de operação no RJ
Operação Unha e Carne prendeu, na manhã desta quinta-feira (15), seis pessoas suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro com postos de combustíveis

A PF (Polícia Federal) investiga o vazamento de informações sigilosas da Operação Unha e Carne, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis no Rio de Janeiro. O escrivão da instituição, Fábio Henrique Ferreira dos Santos, é suspeito de ter alertado os alvos na véspera da ação.
A 8ª fase da Operação Unha e Carne foi deflagrada na manhã desta quinta-feira (15) e cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
Entre os presos estão o deputado eleito Márcio Canella (União Brasil); o delegado de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Marcus Vinicius Amim Fernandes; os agentes da Polícia Civil carioca Pablo Jukia Felix Ferreira, o "Pablo Russo", Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior; e o secretário municipal de ordem pública de Belford Roxo, Christiano Gaspar Fernandes.
Conversas antes da operação
Durante as investigações, foram encontrados indícios de que Fábio e Pablo Russo, o operador financeiro do grupo, conversaram por mensagem, ligação e também pessoalmente às vésperas da deflagração da 6ª Fase da Operação Unha e Carne.
Entre 6 de abril e 6 de julho de 2026, o escrivão manteve ao menos 13 trocas de mensagens via WhatsApp com Russo. Fábio, no entanto, acionou o modo de mensagens temporárias, com exclusão automática em 24 horas, o que dificultou a reconstrução do conteúdo.
Já nos dias 3 e 4 de julho deste ano, foram registradas cinco chamadas de voz entre os dois, mas conteúdos também não puderam ser recuperados.
O encontro presencial ocorreu no dia 6 de julho — exatamente na véspera da deflagração da 6ª fase da Operação Unha e Carne. Na data, Fábio enviou uma mensagem perguntando se Pablo estava em sua residência e informou "Vou aí". Veja:

O Disque Denúncia confirmou que Russo soube previamente da ação policial. Durante a semana anterior à operação, ele utilizou veículos para retirar todos os itens e documentos que pudessem incriminá-lo de dentro de casa, o que foi registrado pelas câmeras do condomínio.
A Polícia Federal representou pedido ao STF (Superior Tribunal federal) pelo afastamento cautelar do escrivão de suas funções públicas e pela proibição de acesso às instalações e sistemas informáticos da instituição.
Vazamento de fiscalizações
Além do vazamento da ação policial, a organização criminosa comprava informações sigilosas de órgãos de fiscalização do setor de combustíveis para evitar autuações e adulterações nas bombas.
As datas das fiscalizações eram vazadas por Edvaldo Ferreira Borges ("Biscoito"), coordenador do Balcão do Consumidor do Procon-RJ e Luiz Ricardo Estevam Lima ("Tchetcheco Trindade"), ocupante de cargo comissionado na Sedecon (Secretaria de Defesa do Consumidor).
O advogado Diogo Pacheco do Couto era o intermediador do vazamento, atuando no repasse das informações sigilosas para Pablo Russo.
Um dos vazamentos ocorreu em 13 de abril de 2026, quando o advogado repassou a Pablo a planilha oficial com todo o cronograma de fiscalizações da semana. No dia 16, ele também enviou o horário exato da fiscalização.
Em outras ocasiões, foram enviadas fotos e dados do veículo oficial usado pelos fiscais para permitir o monitoramento, além de avisos sobre blitzes nos postos Raul Veiga, Barcellos e Portal da Serra.
Oitava fase da operação
Anteriormente, a operação resultou na prisão dos políticos Rodrigo Bacellar, TH Joias, Thiago Rangel e do pastor Márcio Poncio.
A ação desta quinta-feira (15) se insere no âmbito da Força-Tarefa Missão Redentor II, iniciativa coordenada pela Polícia Federal que visa desmantelar organizações criminosas atuantes no estado do Rio de Janeiro.
Nessa fase, além das prisões, Justiça ainda determinou o sequestro de bens e valores, e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro.
Segundo a PF, desse total, 96 são postos de combustíveis, utilizados para camuflar e legalizar os recursos de origem criminosa.
A CNN Brasil apurou que "Pablo Russo" teria integrado equipes comandadas por Marcus Amim em diversas delegacias e seria o verdadeiro controlador, por meio de supostos laranjas, de uma rede de postos de combustíveis com empresas ativas e inativas, utilizada para ocultar e lavar recursos ilícitos.
Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, conforme suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.
Outro lado
Em nota, a Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL) informou que participa da operação, em apoio à Polícia Federal, e não compactua com qualquer desvio de conduta. Veja:
"A Polícia Civil não compactua com qualquer desvio de conduta e adota, de forma rigorosa, as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades.
A instituição mantém atuação integrada com outras forças de segurança e órgãos de controle, respeitando as atribuições de cada instituição, para garantir a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, quando cabível."
A defesa do delegado Marcus Amim também se manifestou. "O Advogado Thiago Minagé aguarda acesso ao Dr. Marcus Amim e à decisão para prestar prestar os devidos esclarecimentos".
Já a defesa dos presos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes afirmou que não teve acesso aos autos e que os dois ficaram surpresos com a prisão.
O PROCON-RJ e a Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (SEDCON) informaram que desconhecem a existência de vazamento de informações relativas às operações de fiscalização. Veja nota:
O PROCON-RJ esclarece que os senhores Edvaldo Ferreira Borges, conhecido como “Biscoito”, e Luiz Ricardo Estevam Lima, conhecido como “Tchetcheco”, não possuem vínculo funcional com a autarquia, não sendo servidores efetivos nem ocupantes de cargos comissionados no órgão.
O PROCON-RJ e a Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (SEDCON) desconhecem a existência de vazamento de informações relativas às operações de fiscalização realizadas pela autarquia. Essas ações possuem caráter sigiloso, e as informações são restritas às equipes diretamente envolvidas, que tomam conhecimento dos alvos somente no momento do briefing operacional.
Cabe ressaltar que as fiscalizações em postos de combustíveis são, em regra, realizadas de forma integrada com outros órgãos de fiscalização e controle como Agencia Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), apoio da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e o Instituto de Pesos e Medidas do Estado do Rio de Janeiro - IPEM, seguindo a mesma dinâmica de sigilo operacional.
Além disso, nas datas mencionadas pela imprensa, não houve fiscalização de postos de combustíveis no município de São Gonçalo.
A SEDCON e o PROCON-RJ não compactuam com desvios de conduta e adotam as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades. Em razão da gravidade dos fatos noticiados pela imprensa, instauraram sindicância, por meio de suas respectivas corregedorias, com o objetivo de apurar rigorosamente os acontecimentos e eventuais irregularidades. A medida visa assegurar a transparência, a responsabilidade institucional e o esclarecimento integral dos fatos.
O PROCON-RJ e a SEDCON reafirmam seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção dos consumidores fluminenses e destacam que os fatos serão apurados com o rigor necessário, conforme os procedimentos administrativos cabíveis
A CNN Brasil tenta contato com a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.


