Polícia revela estatuto do CV com Marcinho VP presidente do conselho
Investigação da Operação Contenção Red Legacy aponta estrutura formal do Comando Vermelho, com conselho, cargos internos e liderança atribuída a Marcinho VP mesmo preso em presídio federal

A investigação da Operação Contenção Red Legacy, que levou à prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD) nesta quarta-feira (11), também revelou a existência de um estatuto interno do Comando Vermelho (CV), documento que detalha regras, cargos e a estrutura de comando da organização criminosa.
Segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o material confirma que Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, segue como presidente da facção, mesmo preso há mais de três décadas em presídio federal.
Durante coletiva de imprensa, o diretor do Departamento-Geral de Polícia Especializada, delegado Henrique Damasceno, afirmou que as provas reunidas pela investigação demonstram que o líder continua exercendo influência direta sobre as atividades do grupo.
“Conseguimos provas contundentes sobre vários líderes da facção criminosa, inclusive sobre o chefe dela, que é o Marcinho VP, que, embora preso há tantos anos, ainda consegue exercer a chefia de forma absolutely contundente na rua”, afirmou.
A investigação, que ocorre no âmbito da Operação Contenção Red Legacy, analisou comunicações de centenas de interlocutores ligados à facção e revelou uma estrutura hierárquica considerada sofisticada pelos investigadores.
Segundo a polícia, um dos principais achados da investigação foi a identificação de um estatuto formal da facção, com regras internas, cargos definidos e até um conselho deliberativo.
Além de Marcinho VP, os investigadores também apontaram outros integrantes que ocupariam funções dentro da hierarquia da organização.
Entre eles está Luiz Fernando da Costa, conhecido como Fernandinho Beira-Mar, citado como conselheiro da facção.
Já Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, seria responsável pela tesouraria da organização, função descrita pelos investigadores como o “caixinha” do grupo.
Outro nome mencionado é Marco Antônio Pereira Firmino da Silva, conhecido como My Thor, apontado como responsável pela coordenação das cadeias.
Segundo a polícia, Edgar Alves de Andrade, o Doca, ocupa a função descrita como “1ª Voz das Ruas”, considerada equivalente à de porta-voz da facção.
De acordo com o delegado Pedro Cassundé, responsável pela investigação, o documento mostra que o grupo funciona com uma estrutura semelhante à de uma organização formal.
“Existe um conselho nacional, que funciona como uma estrutura federal, e conselhos permanentes estaduais nos locais onde a facção atua. Dentro desse conselho nacional há quatro figuras principais: o presidente do conselho, o vice-presidente, o porta-voz e o chamado ‘caixinha’, que é o tesoureiro.”
Ainda segundo o delegado, o estatuto segue sendo presidido por Marcinho VP.

“Há uma função que permanece estabelecida: a presidência do conselho. Essa posição é ocupada pelo Marcinho VP, que é considerado presidente por conta do histórico dele com o surgimento do Comando Vermelho. Por isso, mesmo após tantos anos preso, ele continua inserido e reconhecido dentro dessa estrutura”, explicou.
A investigação também identificou um cargo descrito pelos policiais como “diretor de governança corporativa de conflitos regionais”, ocupado por Arnaldo da Silva Dias, conhecido como Naldinho ou Samuray.
“A gente tem trabalhado justamente para interromper essa cadeia de comunicação. Há algum tempo, como secretário de Polícia Civil, eu solicitei pessoalmente a transferência de várias lideranças do Comando Vermelho para presídios federais. Um desses presos foi justamente o Naldinho, que exercia uma influência importante aqui no estado e a gente conseguiu retirar esse marginal daqui”, disse o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi.
Operação prendeu vereador e policiais militares
A descoberta faz parte das investigações que resultaram na prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD) e de seis policiais militares durante a Operação Contenção Red Legacy, deflagrada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Segundo os investigadores, o parlamentar teria negociado diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul, área sob domínio do Comando Vermelho.
Como forma de compensação, o vereador teria articulado benefícios ao grupo criminoso, apresentados publicamente como ações voltadas à população local. A polícia aponta que uma das iniciativas seria a instalação de quiosques na região, com parte dos beneficiários sendo definida diretamente por integrantes da facção, sem processo público transparente.
De acordo com os investigadores, o objetivo das negociações seria transformar territórios dominados pelo Comando Vermelho em bases eleitorais.
O trabalho investigativo também identificou a participação de familiares de Marcinho VP na estrutura da organização.
Segundo a polícia, Márcia Gama, esposa do líder da facção e mãe do rapper Oruam, atuaria na intermediação de interesses do grupo fora do sistema prisional, participando da circulação de informações entre integrantes e de articulações envolvendo operadores da organização e agentes externos.
Outra pessoa investigada é Landerson Nepomuceno, sobrinho de Marcinho VP. De acordo com a corporação, ele teria papel de ligação entre lideranças da facção, integrantes que atuam em comunidades dominadas pelo grupo e pessoas envolvidas em atividades econômicas usadas para financiar o Comando Vermelho.
Entre essas atividades estariam serviços, imóveis e outros negócios utilizados para geração de recursos e expansão do poder do grupo.
Márcia Gama e Landerson não foram localizados em seus endereços e são considerados foragidos da Justiça.
Indícios de cooperação com o PCC
O material investigativo também aponta para indícios de cooperação entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo a polícia, foram identificados casos de criminosos que se passavam por policiais militares para obter vantagens ilícitas, como vazamento de informações e simulação de operações.
Defesas
Em comunicado, o gabinete do vereador Salvino Oliveira afirmou que não recebeu qualquer informação oficial sobre o ocorrido.
“A assessoria jurídica já foi acionada e aguardamos esclarecimentos das autoridades competentes para compreender os fatos”, diz a nota.
Na chegada à Cidade da Polícia, o advogado Flávio Fernandes, que representa Márcia Gama, afirmou à imprensa que ainda não teve acesso aos documentos da investigação, mas disse confiar na Justiça.
A defesa também destacou que recebeu a notícia com surpresa e afirmou que Márcia estava viajando “como pessoa livre” desde segunda-feira (9). O escritório informou ainda que irá orientá-la de acordo com a análise técnica do caso e acredita que ela deve se apresentar às autoridades.
Procurada pela CNN Brasil, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro informou que a Corregedoria da corporação acompanhou a Polícia Civil no cumprimento dos mandados de prisão temporária e de busca e apreensão contra seis policiais militares.
Eles foram levados para a Cidade da Polícia e, posteriormente, serão transferidos para a unidade prisional da corporação, em Niterói.
O comando da PM afirmou que “não tolera desvios de conduta ou crimes cometidos por seus integrantes” e que pune rigorosamente os responsáveis quando os fatos são comprovados.
A CNN Brasil tenta localizar a defesa dos investigados da Operação Contenção Red Legacy. O espaço segue aberto para manifestações.


