De pelúcia a motel: veja onde PCC se infiltrou para lavar dinheiro do crime
Facção é investigada por atuação em diversos segmentos da economia brasileira
O MPSP (Ministério Público de São Paulo), a Polícia Civil e a Receita Federal deflagram uma operação, nesta quarta-feira (2), contra um esquema do PCC (Primeiro Comando da Capital) que utilizava lojas de brinquedo, com a venda de ursinhos de pelúcia, para lavar dinheiro do crime.
A operação é mais uma na lista que expõe a profunda infiltração da facção no setor formal da economia. Nos últimos anos, investigações já apontaram que o PCC utiliza diversos negócios formais para dar aparência legal ao dinheiro do crime: postos de combustíveis, padarias, móteis, empresas de ônibus, mercado imobiliário, contratos de futebol, bets e fintechs.
Operação mira lavagem de dinheiro do PCC com pelúcias em lojas de brinquedo
O PCC cresceu e se fortaleceu com o domínio do comércio de drogas em larga escala, desde sua "fundação" em meados dos anos 90. Nascida dentro de uma penitenciária paulista após episódios de violência nas prisões, a facção se profissionalizou e hoje já é apontada por especialistas como tendo confornos de uma verdadeira máfia.
Uma outra operação, nesta terça-feira (21), descobriu que a facção passou a utilizar "auditores" para monitorar a contabilidade de mais de 80 pontos de tráfico, garantindo o alto faturamento. Para se ter ideia, em um único ponto foi contabilizado um lucro de mais de R$ 700 mil em apenas uma semana.
“Lojas” do PCC têm câmeras, RH, direito a atestado médico e faturam milhões
As investigações apontam que os valores bilionários movimentados pelo PCC com o tráfico de drogas são usados no investimento em setores legais da economia, que ajudam a facção a lavar o dinheiro do tráfico e ainda obter mais lucros.
Locais usados para lavar dinheiro pelo PCC
O esquema de lavagem de dinheiro utilizado pela facção é vasto e diversificado, utilizando diversos ramos empresariais para injetar e "limpar" os recursos na economia formal:
- Setor Hoteleiro (motéis): Mais de 60 motéis registrados em nome de “laranjas” e que movimentaram R$ 450 milhões entre 2020 e 2024 foram identificados como ligados à facção. Um único estabelecimento chegou a distribuir 64% de sua receita bruta declarada em lucros. Restaurantes localizados nos motéis, com CNPJs próprios, também integravam o esquema.
- Setor de combustíveis: Centenas de postos, sendo pelo menos 267 ativos, foram usados pela facção para movimentar mais de R$ 4,5 bilhões entre 2020 e 2024. Esse setor é associado a grandes fraudes fiscais e contábeis, e foi indentificado na Operação Carbono Oculto, que descobriu ainda o uso de metanol para adulterar o combustível comercializado nos postos.
- Padarias e lojas de conveniência: Ainda no âmbito da Operação Carbono Oculto, as investigações encontram indícios de que as lojas de conveniência dos postos, além de padarias em alguns bairros da capital, também participavam do esquema para a lavagem do dinheiro.
- Setor imobiliário e construção civil: O dinheiro era lavado por meio de operações imobiliárias, como a aquisição de imóveis caros usando CNPJs de estabelecimentos "limpos". Além disso, SCPs (Sociedades em Conta de Participação) eram utilizadas para a construção de empreendimentos imobiliários, movimentando cerca de R$ 260 milhões.
- Empresas de ônibus: Uma operação deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), em abril desse ano, teve como alvo as empresas Transwolff e UPBus, que operam linhas municipais de São Paulo.De acordo com a investigação, as empresas, que transportam diariamente mais de 700 mil passageiros na capital paulista, são ligadas ao PCC e utilizadas para lavar dinheiro obtido com diversos crimes, como tráfico de drogas e roubos.
Postos e motéis: entenda esquema de lavagem de dinheiro do PCC
- Futebol e bets: A parceria entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet, inicialmente celebrada como o maior contrato de patrocínio máster do futebol brasileiro, desdobrou-se em uma complexa investigação policial que levanta suspeitas de lavagem de dinheiro e associação criminosa, além de identificar ligações com o crime organizado. Uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro também identificou uma rede milionária de apostas online, lavagem de dinheiro e contrabando de cigarros, com conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital).
- Lojas de brinquedos: A Operação Push mira lojas de brinquedos infantis, especificamente o comércio de pelúcias, localizadas em shoppings de São Paulo e região. Quatro dessas lojas foram constituídas por vultosos investimentos da ex-companheira e irmã de Claudio Marcos de Almeida, conhecido como “Django”, um traficante de destaque na facção morto em 2022.
Atuação no mercado financeiro
Para quebrar o rastreamento contábil, o dinheiro ilícito era canalizado para instituições de pagamento. O MPSP aponta que fintechs utilizada pelo PCC atuavam como um "buraco negro" para as operações financeiras.
Ao receber as transferências, o dinheiro era misturado em uma "conta-bolsão" com valores de outros "clientes". Isso permitia que o dinheiro fosse enviado a terceiros sem identificação contábil ou rastros da transação, garantindo o livre trânsito de valores ilícitos.
Faria Lima, centro financeiro do país, tem 42 alvos de operação contra PCC
O resultado final desse esquema era a conversão dos recursos lavados na aquisição de bens de alto valor, como um iate de 23 metros, helicópteros, um Lamborghini Urus e terrenos avaliados em mais de R$ 20 milhões. Estima-se que os bens identificados representem apenas 10% do patrimônio real dos envolvidos.

