Faria Lima, PCC e combustíveis: veja alvos da nova fase da Carbono Oculto

Segunda fase da Operação Carbono Oculto mira lavagem de dinheiro em fintechs e fundos de investimento que movimentaram R$ 26 bilhões

Beto Souza e Carolina Figueiredo, da CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

O MPSP (Ministério Público de São Paulo), por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), e a Receita Federal deflagraram nesta quinta-feira (28) a Operação Fluxo Oculto. A ação é um desdobramento da Operação Carbono Oculto e busca desarticular uma estrutura de lavagem de dinheiro, fraudes e sonegação fiscal que interliga o setor de combustíveis ao mercado financeiro.

Ao todo, estão sendo cumpridos 59 mandados de busca e apreensão em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul. Entre os alvos, estão instituições financeiras sediadas na Faria Lima, centro financeiro do país.

Bancos paralelos e movimentações bilionárias

As investigações identificaram seis novas fintechs que atuavam como "bancos paralelos" para o crime organizado.

Essas instituições financeiras foram utilizadas para realizar compensações entre distribuidoras e postos, além de ocultar o pagamento de colaboradores e investimentos pessoais dos operadores do esquema.

Entre 2022 e 2025, o grupo de fintechs investigado movimentou mais de R$ 26 bilhões.

O mecanismo utilizava as chamadas "contas bolsão", que centralizavam e dispersavam recursos ilícitos para dificultar o rastreamento pelas autoridades e ocultar os beneficiários finais.

De acordo com a Receita Federal, houve registro de depósitos em espécie superiores a R$ 1 bilhão em uma única instituição, prática incomum para a natureza dessas empresas.

Leia também: Veja como funcionava esquema bilionário do PCC no setor de combustíveis

Empresas alvos

  • Ceopag Instituição de Pagamento, Ceopar, Fundopay S.A. e XBR Participações
  • America Payment S.A
  • Sispay Instituição de Pagamento, Vpay Instituição de Pagamento e May Servex Negócios Imobiliários
  • Smart Solutions Instituição de Pagamento e Smart Safe Locação e Processamento de Dados
  • YAW Instituição de Pagamento S.A
  • Ello Gestora de Recursos Ltda

Em nota, o Grupo YAW afirmou que não tem registros de processos criminais ou envolvimento em atos ilícitos. Leia a nota na íntegra:

“A YAW Instituição de Pagamento S.A. é uma instituição de pagamento com sede em Barueri (SP), em processo de autorização definitiva junto ao Banco Central do Brasil. A empresa possui seis anos de atuação e habilitação para operar Pix e outros meios eletrônicos de pagamento. Atualmente, atende mais de 3.000 clientes em diversos setores da economia e também fornece infraestrutura tecnológica de pagamentos, em modelo de serviço, para companhias que utilizam sua plataforma em seus próprios negócios. Ao longo de sua trajetória, a YAW construiu um histórico de atuação íntegra, sem registro de processos criminais ou envolvimento em atos ilícitos por parte da empresa ou de seus sócios. Além disso, a YAW ressalta que não mantém qualquer vínculo ou ligação com organizações criminosas. A instituição mantém um programa estruturado de compliance, com políticas formais de integridade e área dedicada de controles internos. Conta ainda com processos de conhecimento e recadastramento de clientes, além do uso de ferramentas tecnológicas de monitoramento de transações, em linha com as melhores práticas de prevenção à lavagem de dinheiro e a ilegalidades. Com base nos valores que orientam sua atuação, a YAW reafirma seu compromisso com a integridade, a transparência e a colaboração com as autoridades públicas, mantendo-se à disposição para quaisquer esclarecimentos necessários. Com seis anos de operação e uma base diversificada de clientes, a companhia segue focada em garantir a segurança de suas operações, a confiabilidade dos serviços prestados e a confiança de clientes, parceiros e do mercado.” 

A empresa Ceopag também destaca que está colaborando de forma transparente e integral com as autoridades e com a Justiça. Veja a nota completa: 

“A Ceopag vem por meio desta nota se retratar e prestar os devidos esclarecimentos à imprensa. A Ceopag atua no segmento de meios de pagamento como subadquirente, sendo responsável por viabilizar transações realizadas por estabelecimentos comerciais por meio de maquininhas de cartão de crédito e débito, sempre em conformidade com as normas das bandeiras, como Visa e Mastercard, além das diretrizes estabelecidas pelo Banco Central do Brasil. Nesse modelo operacional, a empresa funciona exclusivamente como intermediadora das transações financeiras, processando e repassando os valores aos lojistas credenciados, sem qualquer propriedade, posse ou benefício sobre os recursos movimentados. A empresa ressalta que os valores transacionados pertencem integralmente aos estabelecimentos comerciais que utilizam suas soluções de pagamento. Por essa razão, eventual utilização indevida das maquininhas por terceiros não pode ser automaticamente atribuída à Ceopag, que atua como intermediadora tecnológica e financeira dentro dos parâmetros legais e regulatórios do setor. A companhia mantém rígidos processos de compliance, incluindo procedimentos de KYC (“Know Your Customer”), análises cadastrais e monitoramento contínuo das operações, justamente para identificar e comunicar eventuais movimentações atípicas às autoridades competentes, cumprindo integralmente seu dever de diligência. A Ceopag também destaca que está colaborando de forma transparente e integral com as autoridades e com a Justiça, prestando todos os esclarecimentos necessários e contribuindo ativamente para o andamento das investigações. A Ceopag reforça que cumpre integralmente com todas as obrigações legais e normativas do segmento, que não há qualquer desdobramento que comprove irregularidades praticadas pela companhia. A empresa segue operando normalmente e mantendo suas atividades dentro dos mais rigorosos padrões de conformidade, governança corporativa e compliance. A Ceopag reafirma seu compromisso inegociável com a ética, a transparência e a segurança de seus clientes, pautando todas as suas operações no respeito às normas regulatórias e na construção de relações sólidas, responsáveis e de confiança com o mercado."

A CNN Brasil tenta contato com os outros citados.

Adulteração de combustível com nafta

Além do núcleo financeiro, a operação atinge um esquema de adulteração de combustíveis. A organização utilizava empresas de fachada para simular a compra de nafta petroquímica (solvente) com fins industriais.

Na prática, o produto era desviado para terminais de armazenamento e misturado à gasolina vendida em postos controlados pelo grupo.

Estima-se que apenas essa fraude tenha causado um prejuízo de R$ 200 milhões aos cofres públicos em impostos sonegados nos últimos dois anos.

O lucro obtido com a venda do combustível adulterado era remetido a fundos de investimento para dissimular a origem dos valores.

Bloqueio de ativos e fundos de investimento

A Justiça mira quatro fundos de investimento, duas administradoras e duas gestoras de recursos envolvidas na ocultação patrimonial.

Atualmente, os fundos investigados possuem um patrimônio estimado em R$ 205 milhões, apresentando um crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano.

A Operação Fluxo Oculto conta com o apoio da ANP, Secretaria da Fazenda, Procuradoria-Geral do Estado e das polícias Civil e Militar, visando asfixiar financeiramente as organizações que controlam o ecossistema de fraudes no setor.