Mulheres denunciam grupo que compartilha imagens íntimas sem consentimento
Homens divulgam informações sensíveis de mulheres que conheceram em festas de Forró, em São Paulo, para fins sexuais; grupo no Telegram reúne mais de 150 participantes, de acordo com denúncia

Mulheres denunciaram ao Ministério Público Federal (MPF) homens que conheceram em casas de forró, em São Paulo, pela venda e divulgação de imagens intimas sem autorização. A prática ocorre em grupos no aplicativo de mensagens Telegram.
Foram recebidas 12 denúncias que relatam que os grupos atuam como redes de predação sexual, comercializam e trocam, sem consentimento, imagens íntimas e informações sensíveis de mulheres. O Ministério Público Federal solicitou à Polícia Federal (PF) uma apuração sobre o caso.
O caso chegou ao MPF após mulheres procurarem representantes da Bancada Feminista do PSOL, que formalizou a ação. Segundo a denúncia, os grupos funcionam da seguinte maneira: homens vão a uma casa especializada de forró, flertam com as vítimas em potencial, que presumem ser apenas um encontro casual – e as convencem de manter relações sexuais.
Contudo, apesar dos atos serem consensuais, os homens fazem fotos e vídeos sem o consentimento das vítimas. Após o registro, eles compartilham os arquivos com os demais membros do grupo de Telegram.
Além disso, o grupo também serve para a troca de informações pessoais das vítimas, como uma espécie de “facilitador” para ação de outros homens. Os membros obrigatoriamente têm que compartilhar as "fragilidades" das mulheres, se elas "têm filhos", se “transam na saída do forró”, "quais lugares frequentam", além do endereço da vítima.
O documento relata que o esquema veio ao conhecimento de uma das vítimas após um homem procurá-la nas redes sociais. Ele contou que imagens intimas e prints de conversas dela estavam circulando em um grupo chamado "Cremosinhas da Putaria". A mulher vinha sendo abordada agressivamente por homens nas redes sociais e desconfia que tenha sido exposta em um grupo por um ex-namorado.
Na conversa, o homem contou que um rapaz da produção de um evento do bar Remelexo, em São Paulo, mostrou conversas do grupo a ele. Nas conversas, estavam as imagens da mulher. Ele afirma que não entrou no grupo por não concordar prática e também revelou que cada participante precisa pagar uma taxa de R$ 50,00 e expor uma mulher para poder participar do grupo, que teria ao menos 150 membros e estaria em atividade há mais de oito anos.
"Eu não tenho mais nada sobre, pois é necessário que eu exponha uma mulher para entrar, com meu rosto e fotos dela nua, e é pago 50 reais mensais para ter acesso à essas informações, sei que tem mais de 150 homens nesse grupo e todos eles são do forró, dentre eles bandas de forro, professores, frequentadores. Esse grupo existe a mais de 8 anos. Tem relatos de que eles fazem rodízio entre as mulheres, sabendo exatamente", afirmou o homem.
As diretrizes para os participantes estão na própria descrição do grupo, que deixa expresso que é um local para compartilhamento de imagens e vídeos "caseiros das mais gostosas do Forró para sexo fácil". Além disso, o texto também lista os locais de atuação do grupo em São Paulo, como Remelexo, Canto da Ema, Baile dos Ratos e Forró dos Ratos, Milliduck e Jai Club.
Há também locais na Grande São Paulo como To The Sea, em Santo André, e Gira Mundo, em São Bernardo do Campo. Festivais de Forró em geral também fazem parte da lista.
As representantes da ação também relataram que uma das vítimas que denunciou a existência de um grupo idêntico, chamado "Vazadinhas Inéditas". O grupo teria operação internacional, com base na Europa. A descrição desse grupo é idêntica à do grupo brasileiro, o que levanta a suspeita de que eles atuam de forma coordenada.
Por meio de nota, a Bancada Feminista do PSOL afirma que "o forró é uma manifestação cultural popular que deve ser vivida com alegria e respeito". "Nossa ação visa garantir que as mulheres possam ocupar esses espaços com liberdade e dignidade”, afirma a nota.
O coletivo também anunciou que lançará uma campanha em parceria com casas de forró para criação de protocolos de segurança e acolhimento de vítimas de assédio e violência sexual. O Telegram ainda não se manifestou sobre os questionamentos da reportagem.
A CNN tenta contato com todos os bares citados para um posicionamento. O espaço segue aberto.


