Vídeo: Polícia Militar usa bombas e gás para desocupar reitoria da USP

Segundo registros dos estudantes no local, a atuação policial teria acontecido por volta das 4h15 e deixado pessoas feridas após uso de 'corredor polônes'

Yasmin Silvestre, da CNN Brasil*, em São Paulo
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A Polícia Militar retirou, na madrugada deste domingo (10), estudantes que ocupavam o prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no campus do Butantã, Zona Oeste da capital paulista.

Segundo os ocupantes, a PM utilizou bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e criou um 'corredor polonês' para agredir e realizar a desocupação da universidade. O episódio aconteceu por volta de 4h15 e contou 50 policiais. Ao todo, quatro estudantes foram levados para a delegacia.

A ocupação havia começado na última quinta-feira (7), em protesto por reivindicações ligadas à vida estudantil e aos salários dos servidores. Segundo os alunos, o movimento aconteceu por cerca de 60 horas e não havia qualquer sinal de violência ou ameaça, o que não justificaria a ação dos policiais.

Nas gravações obtidas pela CNN Brasil, é possível ver que, em meio a gritos, agentes obrigam os alunos a deixarem o local e os agridem com cassetetes, enquanto outros cobrem o rosto com blusas, possivelmente por causa do uso de gás.

Veja: 

 

Em nota publicada nas redes sociais, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP afirmou que alunos foram espancados e ficaram feridos durante a operação. Os estudantes criticaram a falta de diálogo por parte do reitor da universidade, Aluísio Segurado, e do chefe de gabinete, Edmilson Dias de Freitas, e disseram que as negociações apresentadas pelos estudantes ao longo da mobilização foram ignoradas.

"A ação, de responsabilidade do reitor Aluísio Segurado e de seu chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas, deve ser profundamente repudiada por toda a comunidade universitária. Aluísio, Edmilson e o conjunto da Reitoria escolheram ignorar as reivindicações por melhores políticas de permanência de dezenas de milhares de estudantes e reprimir alunos e alunas que sustentam cotidianamente o ensino, a pesquisa e a extensão dentro da universidade, tudo isso em pleno Dia das Mães", diz o pronunciamento do DCE.

"Foi um processo absurdamente violento": diz estudante sobre episódio de desocupação

O estudante Rael Brito de Paula, relatou que o processo de desocupação foi "absurdamente violento". Segundo ele, a Tropa de Choque cercou o prédio pela madrugada, enquanto os estudantes dormiam. Logo depois, eles o empurraram para dentro do saguão fechado e iniciaram as agressões.

Foi um processo absurdamente violento. Além de usar cassetetes e bombas de efeito moral, os policiais fizeram um corredor polonês na saída do prédio pra agredir todos os estudantes que passavam. Houve estudantes com fraturas, sangramentos, uma estudante desmaiou, fora o trauma psicológico de acordar no meio da noite com uma violência completamente descabida
Rael Brito de Paula, estudante da USP

Rael pede ainda para que a reitoria seja responsabilizada e que abra a mesa de negociação com os estudantes. Ele diz que a ocupação ocorreu de forma pacífica e que não seria necessário o uso de violência.

"A ocupação se desenvolveu de forma pacífica, com programação cultural, política, assembleias democráticas. Essa ação comandada pelo governo do Estado mostra que essa reitoria não defende o diálogo e a democracia, mas manutenção de um quadro de precarização da educação e de descaso com os estudantes mais pobres", conclui.

Outro lado

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que toda a ação foi registrada pelas câmeras operacionais portáteis dos policiais, e que as imagens serão anexadas ao boletim de ocorrência.

A pasta diz ainda que foi uma operação concluída "sem registro de feridos" e que houve danos ao patrimônio público, visto que tiveram derrubada de portas, mesas e danos à catraca da universidade.

Veja nota completa:

"A Polícia Militar realizou, neste domingo (10), a desocupação do saguão da Reitoria da USP, ocupado por aproximadamente 150 pessoas desde a última quinta-feira (7). Cerca de 50 policiais participaram da ação, que foi concluída sem registro de feridos. Toda a ação foi registrada pelas câmeras operacionais portáteis dos policiais, e as imagens serão anexadas aos autos da ocorrência.

Após a desocupação, uma vistoria no espaço constatou os danos ao patrimônio público, entre eles a derrubada do portão de acesso, portas de vidro quebradas, carteiras escolares danificadas, mesas avariadas e danos à catraca de entrada.

No local, também foram apreendidos entorpecentes, armas brancas e objetos contundentes, como facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes. Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial, onde foi registrado boletim de ocorrência por dano ao patrimônio público e alteração de limites. Após a qualificação, elas foram liberadas.

A Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas. O policiamento segue no local para garantir a ordem pública e a integridade do patrimônio público".

Em comunicado oficial, a USP afirmou que repudia a violência cometida no ocorrido e está aberta para novas negociações a partir do diálogo.

Veja a nota completa:

"A Universidade de São Paulo (USP) lamenta os acontecimentos durante o processo de reintegração de posse do prédio da Reitoria, ocorrido na manhã deste domingo, dia 10 de maio. 

Cumprindo seu dever de ofício de proteção da integridade física dos docentes, servidores técnico-administrativos, estudantes e terceirizados, bem como dos espaços físicos, a Reitoria informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), no mesmo dia do ocorrido (7/5), com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais. 

Na manhã deste dia 10 de maio, sem comunicação prévia à Reitoria, houve a desocupação do espaço público pela Polícia Militar. Segundo nota oficial da SSP, “a Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas”. 

Importante ressaltar que, ao longo de todo esse período, a Reitoria manteve a disposição permanente para o diálogo e para o acompanhamento dos encaminhamentos acordados nas negociações com o movimento estudantil. As tratativas, no entanto, chegaram a um limite diante:

Do atendimento de diversos itens da pauta por parte da Reitoria;
Da constituição de sete grupos de trabalho para estudo de viabilidade de outros pontos da pauta;
Da insistência em reivindicações que não podem ser atendidas; e
De itens de pauta fora do âmbito de atuação da Universidade e a presença de pessoas externas à comunidade acadêmica.

A Reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com a finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil, o que pressupõe a manutenção do direito de ir e vir em todos os espaços da Universidade.

Por fim, a USP repudia que a violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias e reforça que continuará atuando com responsabilidade institucional, buscando a pacificação do ambiente universitário."

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Entenda a grave

Os estudantes aprovaram a paralisação em 14 de abril. Liderado pelo DCE, o movimento começou inicialmente em apoio a uma mobilização de servidores contra uma gratificação anunciada pela universidade exclusivamente para professores.

Entre 150 e 200 estudantes, segundo o DCE, se revezaram em diferentes turnos durante a greve, com divisão de tarefas, agenda cultural e limpeza do espaço. Eles insistem nos pontos levantados nas últimas semanas, mas a reitoria descartou novas rodadas de negociação.

Após pressão e mobilização, os servidores conseguiram avanços salariais e encerraram a paralisação. Os estudantes, porém, decidiram manter a greve e passaram a concentrar esforços em suas próprias reivindicações.

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A principal demanda é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), que atualmente oferece benefícios entre R$ 335 para estudantes residentes em moradia estudantil e R$ 885 para auxílio integral.

A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Dessa forma, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340. A proposta, no entanto, é considerada insuficiente pelos estudantes, que defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista.

Segundo eles, trata-se de uma reivindicação antiga. "Faz mais de um ano que os estudantes já estabeleceram que uma de suas pautas principais em relação às bolsas estudantis está ligada ao aumento para um salário mínimo", afirmou Dany Oliveira, estudante de Artes Cênicas.

A reitoria abriu três rodadas de negociação com os estudantes, mas, diante da rejeição da proposta apresentada, decidiu encerrar unilateralmente as conversas, gerando insatisfação entre os grevistas.

Entre outros pontos, os estudantes criticam questões estruturais da universidade, como a gestão do restaurante universitário, conhecido como "bandejão", a moradia estudantil e a situação do Hospital Universitário (HU), que, segundo manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.

*Sob supervisão de Felipe Andrade

Com informações do Estadão Conteúdo