Quem são os alvos de operação contra infiltração do PCC no transporte de SP
Entre os alvos estão o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), o candidato à deputado estadual Danilo Morgado (PL), o ex-presidente da SPTrans Levi Oliveira e três advogados
O MPSP (Ministério Público de São Paulo) e a Polícia Civil do estado deflagraram, na manhã desta quinta-feira (17), uma operação que mira a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema de transporte público da capital. A operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão.
Entre os alvos estão o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), o candidato à deputado estadual Danilo Morgado (PL), o ex-presidente da SPTrans Levi Oliveira e três advogados.
De acordo com a investigação, ao menos 12 empresas de transporte coletivo de passageiros que operam na cidade de São Paulo foram identificadas como possíveis alvos de controle direto ou indireto do PCC.
Até a última atualização, nove dos 16 alvos tinham sido presos: Júlio Salvador Filho; Claudionor Aparecido Sabino Tomaz; Levi dos Santos Oliveira; Carla de Paula Muller; Edivania Arruda Botelho Alves; André Cassali; José Ronaldo Alves de Sales; Edson Antonio de Souza; e Danilo Marco Morgado Silva.
O vereador Milton Leite afirmou estar em viagem e disse que vai se entregar às autoridades em até 24 horas.
Veja quem são os alvos
Milton Leite
Um dos principais alvos da operação é o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite, que é citado nominalmente pelo MP como o "responsável direito" pelas operações de empresas que eram controladas pelo PCC. Há relatos de policiais militares ao TJM (Tribunal de Justiça Militar) de que Leite era o verdadeiro dono da empresa Transwolff.
Segundo as investigações feitas durante a Operação Fim da Linha, a Transwolf e a UPBUS eram utilizadas para mascarar recursos ilícitos do PCC advindos de tráfico de drogas, roubos e outros delitos.
Ambas as companhias teriam recebido mais de R$ 800 milhões dos cofres públicos somente em 2023. À época foram denunciados Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como “Pandora”, Cícero de Oliveira, o “Té”, e Robson Flares Lopes Pontes, apontados como ligados a Transwolff.
Milton Leite é presidente do União Brasil em São Paulo. Ele iniciou a vida política em 1997 como vereador de São Paulo, cargo que manteve durante sete mandatos, e foi seis vezes presidente da Câmara.
Em resposta à acusação, o ex-vereador, que é considerado procurado pela polícia, informou que está em viagem, mas que se apresentará às autoridades em até 24 horas. "Vou provar minha inocência", disse.
O político também negou com veemência qualquer ligação com a facção e afirmou que sua relação com o setor de transporte foi "institucional".
Levi dos Santos Oliveira
Outro alvo citado é o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, que foi apontado com um dos atores responsáveis por tratar de interesses do PCC com empresas de ônibus.
De acordo com o MP, ele teve encontros periódicos com José Daniel Satilite, um dos nomes vinculados ao PCC de onde foram extraídas mensagens que apontaram o envolvimento dos outros investigados.
Levi entrou na presidência da SPTrans em 2020, mas ingressou na empresa em 1991 e passou por diferentes setores, como Seleção Pública, e chegou a ser diretor de Planejamento e Transporte em 2017.
Danilo Marco Morgado Silva
Candidato à deputado estadual em São Paulo pelo PL (Partido Liberal), Danilo Marco Morgado Silva teria utilizado de recursos advindos do PCC para financiar a sua campanha à prefeitura de Praia Grande em 2024, conforme as investigações. À época, ele não conseguiu se eleger.
O político também foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Decúrio, deflagrada em 2024 pelo MP para investigar lavagem de dinheiro do PCC por meio da empresa de ônibus UPBus.
Na atual fase, identificou-se um "forte vínculo" com organização criminosa que levaram aos indiciamentos de financiamento para a campanha municipal.
Nas redes, o candidato se pronunciou sobre a acusação e disse estar sendo perseguido. "Esperamos que os fatos sejam apurados a fundo e tudo seja esclarecido em breve. O que não dá pra engolir é a forma que aconteceu: às vésperas da eleição, numa prisão que temos motivo para considerar irregular", afirmou.
Carla De Paula Muller
Carla é esposa de Antônio Jose Muller Junior, conhecido como Granada, um dos líderes do PCC que está preso na Penitenciária Federal Brasília, uma unidade de segurança máxima. Ela seria uma interlocutora direta de José Daniel e atuava no envio de recados da facção ao marido.
Segundo o MP, ela também explorava as empresas de transporte público intermediando os interesses da facção.
Cicero Jose dos Santos Filho
Cicero é um dos advogados não só atuantes nos interesses do PCC, como integrante da própria organização. Segundo a denúncia, extrapolava os limites do exercício profissional e fazia contato direto com José Daniel.
O seu escritório inclusive foi utilizado como "sede" de reunião dos faccionados e também utilizava a conta bancária da própria empresa para receber os valores das empresas investigadas.
"Lalinha"
Edivania Arruda Botelho Alves, vulgo "Lalinha", foi apresentada pelas investigações como uma "ponte" para troca de recados entre integrantes do PCC presos em Presidente Bernardes, no interior paulista.
O marido de Lalinha também fazia parte da facção e estava preso na mesma cidade.
"Peru"
Intermediador dos interesses do PCC em procedimentos licitatórios em diferentes cidades, Edson Antônio de Sousa, vulgo "Peru", também é investigado na operação que mira a infiltração da facção criminosa nas empresas de ônibus na capital.
"Galo"
Além de faccionado, Eduardo Medeiros, vulgo "Galo", é advogado pessoal de José Daniel Satilite. Ele também é dono de empresas de transportes e conectou o PCC ao setor de transportes e às licitações.
José Ronaldo Alves de Sales
José Ronaldo atuava no ramo de transportes e possuía bastante interação no mundo da política, ainda conforme a investigação. Ele conectava os integrantes do PCC a políticos e auxiliava em trâmites licitatórios corrompendo agentes públicos que ainda não foram identificados. Ele trabalhava com José Daniel e "Galo".
Julio Salvador Filho
Outro interlocutor de José Daniel, Julio Salvador é diretor da A2 Transportes, uma das 12 empresas suspeitas de ligação com a organização criminosa. Ele decidia junto com outro investigado, Paulo Korek, se liberava o pagamento ou não aos laranjas José Daniel e Claudionor.
Paulo Sirqueira Korek Farias
Paulo Korek é empresário e gestor de empresas de transportes, como Tanslider e A2 Transportes, e atuava como "testa de ferro" da facção, uma espécie de "laranja" na empresa. Ele também é presidente do Esporte Clube Água Santa.
Milton Mello Milreu
Milton Milreu era advogado e, assim como "Galo", também fazia parte da facção utilizando da sua profissão para angariar elementos de interesse ao PCC.
Ele era responsável por captar empresas para a facção e assumia o controle, como na negociação da Usina Campo Limpo e na refinaria Fanal. Há suspeitas de envolvimento do advogado em outras operações.
Sérgio Luiz Gevard de Oliveira
Sérgio era empresário e braço direito de Milton Milreu. Ele atuava como intermediador entre a organização criminosa e o advogado, assim como há registro de participação ativa no PCC.
Além dos 13, outros três homens, identificados como André Cassali, Claudionor Aparecido Sabino Tomaz e José Daniel Satilite são alvos dos mandados de prisão. As funções deles não foram detalhadas.
Outros lados
Nota da Prefeitura de São Paulo:
"A intervenção determinada pela Prefeitura de São Paulo na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou, por iniciativa própria, a intervenção na UPBus, mesmo sem qualquer solicitação da Justiça.
Desde o início das investigações, a Prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.
A Prefeitura reforça que, na ocasião, também foi aberto um processo pela Controladoria Geral do Município contra a Transwolff e a UPBus e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.
A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários."
Além disso, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) determinou a criação de um grupo formado por representantes da Procuradoria-Geral do Município, da Controladoria-Geral do Município, da SPTrans e da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte para analisar os elementos e apurar uma possível intervenção no contrato com a empresa A2.
"A Prefeitura fará um levantamento rigoroso de contratos, documentos e eventuais vínculos da empresa com o sistema municipal de transporte, adotando imediatamente todas as medidas administrativas e judiciais que forem necessárias para proteger o interesse público e assegurar a continuidade dos serviços à população. A Prefeitura de São Paulo reafirma que não compactua com qualquer irregularidade e continuará colaborando integralmente com as autoridades responsáveis pelas investigações", afirmou Nunes.
Nota de Milton Leite:
"Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas.
Nego veementemente todas as acusações e vou provar minha inocência.
A minha atuação em relação ao setor de transportes se deu a pedido do então prefeito Bruno Covas, em 2019, já que naquela ocasião, como presidente da Câmara, eu ocupava também a função de vice-prefeito na linha sucessória. É público, inclusive, que eu atuei em negociações envolvendo greves no setor."
Nota da Câmara Municipal de São Paulo:
"A Câmara Municipal de São Paulo acompanha os desdobramentos das investigações promovidas pelo Ministério Público, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, aguardando as conclusões."
Nota de Danilo Morgado:
"Meses atrás Danilo foi alvo de um processo onde se pedia sua prisão, movido pelo prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão. Na época, o motivo do pedido de prisão foram vídeos publicados por Danilo, denunciando supostas licitações ligadas ao PCC dentro da prefeitura de Praia Grande, ou seja, Danilo trouxe a tona a mesma denuncia feita pelo delegado Dr. Ruy Ferraz Fontes.
Agora, em plena campanha eleitoral, e um dia antes da data que proíbe prisão de candidatos, Danilo é preso. A sequência dos fatos fala por si.
O coronel nunca muda seu modo de agir: intimida e tenta calar quem não se curva. Prenderam Danilo, mas despertaram milhares.
Esperamos que os fatos sejam apurados a fundo e tudo seja esclarecido em breve. O que não dá pra engolir é a forma que aconteceu: às vésperas da eleição, numa prisão que temos motivo para considerar irregular.
Isso não é investigação, é perseguição."
Nota de Levi dos Santos Oliveira:
“O escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa o Dr. Levi dos Santos Oliveira, foi surpreendido, na manhã desta quinta-feira, com a notícia de sua prisão. Levi dos Santos Oliveira, primário e sem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área. A defesa ainda não teve acesso aos autos, nem às circunstâncias que fundamentaram a medida. Tão logo tenha acesso ao conteúdo da decisão e aos elementos que a embasaram, adotará as medidas jurídicas cabíveis, com confiança nos meios legais para o pronto esclarecimento dos fatos e a revogação de sua segregação.”
Nota da A2 Transportes representando Paulo Siqueira Korek e Júlio Salvador Filho:
"A A2 Transportes, por meio de seu presidente, Paulo Siqueira Korek, reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a ética e a seriedade na condução de suas atividades.
A empresa nega de forma categórica qualquer envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), bem como qualquer prática de lavagem de dinheiro ou participação em atividades ilícitas.
A A2 Transportes esclarece, ainda, que todos os recursos financeiros que ingressam na empresa são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços regularmente prestados. Não existem outras fontes de entrada de recursos financeiros na empresa.
Diante das informações que vêm sendo divulgadas, a empresa está à disposição das autoridades competentes para apresentar documentos e prestar todos os esclarecimentos necessários, contribuindo para que os fatos sejam devidamente apurados.
Para o presidente Paulo Siqueira Korek, o movimento que vem ocorrendo em torno da empresa apresenta, em sua percepção, forte componente político. A A2 Transportes, entretanto, reafirma que seguirá colaborando com as instituições responsáveis pela apuração e respeitando rigorosamente o devido processo legal.
"A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos. Não temos outras fontes de entrada de recursos. Nossa história é construída com trabalho, seriedade e ética. Estamos à disposição para todos os esclarecimentos necessários e confiamos na apuração dos fatos e na Justiça."
A CNN Brasil tenta contato com os outros citados. O espaço segue aberto.
Entenda a operação
A investigação é um desdobramento da Operação Decúrio, realizada em agosto de 2024.
Na ocasião, foi identificada uma complexa rede de comunicação usada pelo PCC para manter contato entre integrantes presos e aqueles que estavam em liberdade, inclusive por meio da atuação de advogados.
As investigações também identificaram lideranças da organização criminosa vinculadas às chamadas “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”. Além disso, foi apontado um projeto de infiltração de integrantes do crime organizado nas eleições municipais de 2024, com o lançamento de candidatos aos cargos em disputa.
A operação anterior também apontou o possível envolvimento de uma servidora municipal comissionada com um integrante do alto escalão do Primeiro Comando da Capital.
Nesta nova fase, as investigações identificaram novamente a atuação de advogados em suposto conluio com o crime organizado. Também foi detectada a presença do PCC em empresas de transporte coletivo de passageiros na capital e no interior, com participação ativa de parte dos investigados identificados até o momento.
Segundo as investigações, a análise do material apreendido permitiu identificar uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo


