EDP aposta em experiência europeia para disputar mercado livre no Brasil
Companhia vê abertura da baixa tensão como oportunidade para oferecer novos modelos tarifários e serviços associados à energia; objetivo é atuar nacionalmente

A portuguesa EDP pretende aproveitar a experiência acumulada na liberalização do mercado europeu, especialmente na Península Ibérica, para disputar espaço na futura abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão.
Embora ainda não detalhe sua estratégia comercial, a companhia sinaliza que a disputa pelos clientes residenciais e pequenos negócios envolverá muito mais do que a venda de energia, incluindo novos modelos tarifários e serviços associados.
Durante entrevista ao programa Alta Voltagem, da CNN, o CEO da EDP na América do Sul, João Brito Martins, afirmou que a preparação para a abertura do mercado é um dos principais desafios do setor elétrico nos próximos anos.
"Temos que preparar as bases e infraestrutura para a liberalização do mercado e é um fator determinante na forma de como o setor elétrico está organizado", disse.
A abertura do mercado permitirá que consumidores escolham livremente seu fornecedor de energia, replicando um movimento já observado em diversos países da Europa. Questionado se a EDP pretende concentrar sua atuação inicialmente nas áreas onde já possui distribuidoras — como São Paulo e Espírito Santo —, Martins evitou antecipar detalhes da estratégia comercial.
O executivo, porém, indicou que a competição não ficará restrita ao fornecimento de eletricidade. Segundo ele, a abertura criará espaço para a oferta de novos produtos e soluções energéticas.
"Será a transação de compra de um conjunto de serviços de energia que permitam ter um mercado competitivo", afirmou.
A declaração reforça uma tendência observada em mercados maduros, onde comercializadoras passaram a oferecer pacotes que combinam energia, geração distribuída, armazenamento, eficiência energética, mobilidade elétrica, serviços digitais e diferentes modalidades tarifárias.
“Queremos ter uma posição relevante, sobretudo nos beneficiando da experiência no mercado europeu, onde já participamos e na Ibéria, em particular conseguimos ter uma posição de liderança”, disse.
Apesar da ambição, a companhia não estabeleceu metas públicas de participação de mercado. Segundo o executivo, o objetivo é atuar nacionalmente, e não apenas nas regiões onde já possui presença por meio das distribuidoras.
A estratégia remete à própria trajetória da EDP em Portugal. A companhia enfrentou um processo semelhante quando o mercado português foi gradualmente aberto à concorrência. Na ocasião, deixou de ser fornecedora exclusiva de energia e passou a disputar clientes com novos entrantes, adaptando seu modelo de negócios para oferecer produtos e serviços além da eletricidade.
No Brasil, a abertura do mercado de baixa tensão é vista como uma das transformações mais profundas do setor elétrico desde a privatização das distribuidoras. Especialistas avaliam que empresas com marcas consolidadas, conhecimento do consumidor e presença operacional relevante tendem a largar em vantagem na disputa pelos clientes.
Nesse contexto, a EDP já sinaliza que pretende usar a experiência adquirida na Europa para ocupar espaço em um mercado que poderá movimentar milhões de consumidores e redefinir o papel das distribuidoras tradicionais nos próximos anos.