IA e trabalho: dois anos para Brasil não virar Arábia Saudita da computação

Jean Paul Prates escreve à CNN Infra que o país tem uma janela estreita para fazer reformas e surfar a maré da inteligência artificial

* Jean Paul Prates
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A capa desta semana de The Economist, ilustrada por figuras humanas despencando em um vórtice vermelho, traz uma pergunta que há pouco soaria como exagero: como se preparar para um apocalipse de empregos provocado pela inteligência artificial? A revista, sóbria por vocação, reconhece que sete em cada dez americanos acreditam que a IA dificultará a busca por trabalho. Quase um terço teme pela própria vaga. O debate deixou de ser técnico e tornou-se político.

O argumento central é racional e cuidadoso. Historicamente, nenhuma revolução tecnológica produziu desemprego em massa duradouro. Mesmo a Revolução Industrial, frequentemente citada como catástrofe operária, teve sua famosa “pausa de Engels” explicada mais por guerras, tarifas sobre cereais e explosão populacional do que pelas máquinas em si. Segundo o artigo, o problema raramente está na tecnologia; quase sempre está em quem governa a transição.

A novidade desta vez é que a história pode não ajudar. Os modelos de IA evoluem em ritmo que surpreendeu até os céticos, e a análise empírica feita pela própria revista, com dados longitudinais de universidades americanas, mostra algo inquietante: graduados em áreas mais expostas à IA (ciência da computação, engenharia de software, sistemas de informação) viram a taxa de emprego em tempo integral cair de quase 70% para 55% em três anos. Filósofos e engenheiros civis passaram quase ilesos. É a primeira evidência robusta de que a IA já mexe na base da pirâmide profissional, e que mexe justamente onde supostamente estava o futuro.

Há um segundo ponto que me parece ainda mais relevante para o nosso debate aqui no Brasil. O ensaio do Free Exchange discute como dividir o ganho da IA. Se a tecnologia desviar para o capital a renda que hoje vai ao trabalho, os Estados Nacionais verão sua base fiscal evaporar, justamente quando precisarão arrecadar mais.

Saem da mesa propostas como tributação de lucros excessivos, impostos sobre terra e recursos naturais usados em data centers, herança mais pesada, e até nacionalização parcial das empresas de IA. Não é socialismo nostálgico; é pragmatismo de quem entendeu que concentração de renda em escala inédita produz revoluções, não eleições. A revista lembra que o “China shock”, entre 1999 e 2011, custou cerca de 2 milhões de empregos americanos, número modesto, mas que ajudou a eleger Donald Trump e a produzir as maiores tarifas desde 1930. Pequenos terremotos no colarinho branco podem deslocar continentes.

E o Brasil? Existe a ilusão, sustentada por dados conjunturais favoráveis, de que estamos imunes. O mercado de trabalho fechou 2025 com 103 milhões de ocupados, desemprego ao redor de 5,5% e renda real em patamar recorde. Tudo verdadeiro, mas igualmente enganoso. A maquiagem cíclica encobre uma economia de serviços intensiva em call centers, atendimento administrativo, jurídico de base, contabilidade e redação publicitária, justamente as funções mais expostas à IA generativa. A OIT estima que 25% dos empregos globais estão na linha de tiro. Não há razão para crer que somos exceção.

Precisamos agir em três frentes, e rápido. Na educação, a LDB exige atualização urgente. Os projetos que tramitam na Câmara para incluir IA, letramento algorítmico e cidadania digital como temas transversais obrigatórios não podem continuar parados. Mais importante do que ensinar a manejar a ferramenta é ensinar a pensar com ela e, sobretudo, apesar dela. Isso significa privilegiar leitura densa, raciocínio matemático, escrita argumentativa, ética aplicada e ciências experimentais. Os dados americanos são claros: quem se salvou estudou áreas que exigem julgamento contextual humano.

Ironicamente, formar humanistas pode vir a ser a política industrial mais relevante da próxima década. SENAI, SENAC e a rede de Institutos Federais precisam ser reconfigurados para oferecer requalificação contínua, em módulos curtos. A Dinamarca já provou que políticas ativas de mercado de trabalho reduzem o tempo de desemprego e acabam se pagando.

Na legislação trabalhista, há um campo minado e uma oportunidade. A CLT, pensada para o operário de Volta Redonda dos anos 1940, não dá conta nem do entregador de aplicativo, quanto mais do redator substituído por um modelo de linguagem.

Precisamos, simultaneamente, fortalecer o seguro-renda em moldes próximos do que os escandinavos chamam de flexicurity, regular o trabalho plataformizado sem destruir a flexibilidade que muitos trabalhadores efetivamente desejam, e introduzir, com parcimônia, mecanismos de aviso prévio coletivo quando empresas implementarem IA em larga escala. Olho com simpatia crítica a tentativa do Senado, no texto do PL 2338, de reincorporar salvaguardas trabalhistas mínimas que foram suprimidas na tramitação. Sem isso, ficaremos com uma lei que protege dados pessoais e ignora a vida concreta de quem produz com seu trabalho.

Na regulação e tributação, o PL 2338, aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e adiado para fevereiro de 2026 na Câmara, é peça boa, inspirada no AI Act europeu, mas precisa andar. O que falta no debate é tributação.

Impostos sobre lucros excessivos, sobre terra e sobre recursos naturais usados em data centers podem capturar parte da renda que vazará do trabalho para o capital. E o Brasil tem aqui uma vantagem comparativa única: somos uma das poucas potências capazes de oferecer energia limpa, abundante e barata para os data centers que sustentarão a IA mundial. O Nordeste, com Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e Piauí à frente, é o coração dessa fronteira. Não podemos repetir o erro histórico de exportar apenas o insumo bruto. Precisamos exigir industrialização local, transferência de tecnologia, oferta pública combinada (energia, conectividade e talento) e tributação inteligente sobre a renda gerada. Caso contrário, seremos a Arábia Saudita da computação: ricos no balanço macro, pobres na vida concreta da população.

A IA não é uma onda. É uma maré. E o que decide se uma sociedade prospera ou se quebra diante de transições tecnológicas profundas não é a velocidade da tecnologia, é a qualidade das instituições. O Brasil tem agora uma janela estreita, talvez dois ou três anos, para fazer reformas que pareciam acessórias e que se tornaram existenciais. Esperar evidência conclusiva, como bem alerta The Economist, é garantir que já será tarde. Melhor começar agora.

* Jean Paul Prates é é sócio da Altiva Inteligência Estratégica. Foi senador da República e presidente da Petrobras.