Doria elogia Mandetta e diz que Bolsonaro dá 'péssimo exemplo'


Da CNN Brasil, em São Paulo
16 de março de 2020 às 20:05 | Atualizado 16 de março de 2020 às 21:54

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), elogiou o trabalho do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, à frente da crise do novo coronavírus, e criticou a maneira como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) lida com o tema.

“Péssimo exemplo dado ao país quando o presidente estimula que as pessoas vão às ruas. Erro grosseiro de alguém eleito para ser o mandatário da nação, e não candidato a mandatário da nação”, afirmou em entrevista ao vivo à CNN Brasil na noite desta segunda-feira (16). “Diferentemente do governo Bolsonaro, Mandetta tem sido extremamente correto”, acrescentou.

No domingo (15), o presidente abandonou o monitoramento a que estava submetido após o diagnóstico de Covid-19 em membros de sua comitiva que viajou aos EUA e participou das manifestações pró-governo em Brasília. Bolsonaro cumprimentou um grupo de manifestantes que se reunia em frente ao Palácio da Alvorada e pegou celulares para tirar fotos —atitudes não recomendadas pelo Ministério da Saúde.

Bolsonaro cumprimenta apoiadores em ato pró-governo em Brasília

Bolsonaro cumprimenta apoiadores em ato pró-governo em Brasília

Foto: Adriano Machado/Reuters

Horas depois, Bolsonaro justificou a decisão de cumprimentar manifestantes. Em entrevista à CNN Brasil, disse que foi "conferir o que estava acontecendo", e reiterou que a sua posição era a de evitar os protestos, por temer risco às pessoas idosas e demais grupos de risco. No entanto, fez uma ponderação de que há outras aglomerações, como transporte público e festejos de Carnaval. Ele criticou as medidas tomadas pelos governos estaduais de cancelar eventos por considerar que causam "histerismo" (sic) à população.

"Não há 'histerismo' em nenhum governo estadual, há uma dessintonia do presidente da República a uma realidade de saúde pública", disse. Para Doria, essa é a maior crise de saúde da história do país. "Isso exigiria do presidente da República que fosse líder desse processo, e não que minimizasse sua importância. Lamento que o presidente tenha esse comportamento e ainda queira ridicularizar governadores que estao tentando administrar uma questão tão séria", disse.

Ao ser perguntado se o tom do presidente poderia comprometer providências para frear o contágio da COVID-19, Doria disse que Bolsonaro deveria se questionar. "Ele deveria se perguntar se o que ele fez nas ruas em Brasília ontem é correto, se a linguagem para falar com os governadores é correta, com o Camilo Santana [PT-CE], com o Rui Costa [PT-BA], com o Witzel [PSC-RJ], como faz comigo. Se essa é a forma de tratar os eleitores".

O presidente não comentou as críticas de Doria até a publicação desta reportagem.

Arrependimento

Questionado sobre o apoio dado à candidatura de Bolsonaro durante a campanha de 2018, o governador respondeu: “Me arrependo, sim. Votei no Bolsonaro”.

"Não tenho compromisso com o erro. Se erros foram cometidos, inclusive por mim, o meu compromisso é corrigi-los. O caminho que sigo é do equilíbrio, não vou seguir endossando posição de um presidente da República que atenta contra a democracia, afronta o Judiciário, o Legislativo, a liberdade de imprensa que não administra o que deveria administrar. Não tenho nenhum compromisso com o erro. Lamento que o presidente tenha esse tipo de comportamento”, disse.

Eleito em 2018 com o mote 'Bolsodoria', o governador de São Paulo minimizou a influência que a associação ao presidente possa ter tido em sua vitória. "Não fui eleito no rastro de nenhuma família, fui eleito em São Paulo pelos eleitores de São Paulo".

Coronavírus

O governador comentou as medidas que serão tomadas pelo estado para conter a transmissão do novo coronavírus. Entre elas, a suspensão de aulas no sistema público de ensino e a permissão para que funcionários públicos com mais de 60 anos trabalhem remotamente.

Para o transporte público, Doria disse que há vários planos de contingência previstos para cenários distintos, e que sua equipe acompanhará o movimento —que deve ser reduzido pelas medidas— para saber que caminho seguir.

"O que nunca faremos são medidas precipitadas", declarou.

O governador elogiou a postura da imprensa nacional na publicação de informações relevantes sobre o vírus. "Com essa pandemia, há dois riscos: o vírus e a má informação. Os meios de comunicação do Brasil estão fazendo um trabalho competente e sério de informar a população".