Em mensagens a Moro, Bolsonaro cita investigação contra deputados, diz TV

Mensagens foram apresentadas pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública ao Jornal Nacional

Da CNN, em São Paulo
24 de abril de 2020 às 22:03 | Atualizado 25 de abril de 2020 às 11:18

O presidente Jair Bolsonaro teria dito ao ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que uma investigação contra deputados federais aliados a ele seria "mais um motivo para a troca" do diretor-geral da Polícia Federal.

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A fala está em captura de tela de conversa com o presidente que o ex-ministro enviou ao "Jornal Nacional", da TV Globo. No diálogo, segundo a emissora, Bolsonaro compartilha uma reportagem do site O Antagonista com o título "PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas". Na sequência, reforçaria a intenção de demitir Mauricio Valeixo.

Na réplica ao presidente, o então ministro da Justiça e Segurança Pública afirma que o responsável pelo inquérito citado por Bolsonaro é o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e que a Polícia Federal apenas executa as diligências determinadas pelo magistrado.

Moro ainda disse que a conversa seria retomada em reunião na manhã de quinta-feira (23), quando o ministro informou a Bolsonaro, segundo apuração da CNN, que deixaria o cargo caso Maurício Valeixo fosse demitido.

O delegado foi exonerado da direção da PF na manhã desta sexta-feira (24), e, na sequência, o ex-juiz fez pronunciamento anunciando a sua demissão e acusando o presidente de querer fazer "interferência política" na condução do órgão policial.

A nota de O Antagonista encaminhada pelo presidente ao então ministro cita dois inquéritos. Um aberto pelo presidente do STF, ministro Dias Toffoli, para investigar ataques e ameaças aos ministros da Corte, e outro trata dos atos antidemocráticos realizados no último domingo, com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

Creditando a informação ao jornalista Merval Pereira, a reportagem do Antagonista diz que entre 10 e 12 deputados federais e empresários, todos ligados a Bolsonaro, teriam tido o sigilo quebrado e estariam prestes a ser alvos de mandados de busca e apreensão quando a quarentena foi decretada em várias partes do país.

A nova informação seria a possibilidade de um grupo instalado no Palácio do Planalto e coordenado pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente da República, que estaria envolvido no compartilhamento de notícias falsas e na organização destes protestos, que pediam o fechamento dos poderes Legislativo e Judiciário e a instalação de um regime autoritário.

Vaga no STF

A outra conversa apresentada pelo ex-juiz ao jornal da TV Globo é um diálogo com a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). Nas mensagens, Zambelli pede que Moro "aceite" a escolha de Alexandre Ramagem para ser diretor-geral da Polícia Federal e que aguarde ser indicado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

Na conversa, a deputada se oferece para convencer o presidente a indicá-lo para a Corte, ao que Moro responde que "não está à venda". Zambelli diz que brasileiros lamentariam a sua demissão e o então ministro contemporiza, dizendo que aliados estavam tentando demover Bolsonaro da troca.

Após a reportagem do "Jornal Nacional", a deputada fez uma live no Facebook para comentar a troca de mensagens. "Ontem, o Planalto não queria que o ministro saísse. Assim como diversos brasileiros no meio de uma crise, a gente não quer que o ministro, que todos têm admiração, saia. Como tenho amizade com ele [Moro], me dispus a entrar em contato e chegar a um entendimento, já que ele e Bolsonaro não tinham chegado a entendimento, me propus a ajudar”, afirmou.

Zambelli disse estar decepcionada, surpresa e traída com o fato de Moro divulgar suas conversas pessoais para a imprensa. Ela afirmou que sempre teve grande admiração e amizade por Moro -- que inclusive foi seu padrinho de casamento. 

Em seu pronunciamento de mais cedo, o presidente Jair Bolsonaro acusou Sergio Moro de ter condicionado a sua permanência no cargo a uma indicação para o STF. Atual chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ramagem foi escolhido, segundo apuração da CNN, para assumir o lugar que era de Maurício Valeixo.