Após depoimento de Moro, oposição questiona interesse de Bolsonaro pela PF do RJ

Aliados do presidente enfatizam que ex-juiz disse não ter atribuído crimes a Bolsonaro durante pronunciamento que deu origem à inquérito

Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
05 de maio de 2020 às 18:03 | Atualizado 06 de maio de 2020 às 02:33
Presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio do Alvorada
Presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio do Alvorada
Foto: Reprodução - 05.mai.2020/CNN Brasil

Diante da revelação do conteúdo do depoimento do ex-ministro Sergio Moro, noticiado em primeira mão pela CNN, lideranças da oposição no Congresso Nacional questionam quais os interesses do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em indicar o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Segundo Moro disse à Polícia Federal, na investigação que apura se Bolsonaro tentou realizar uma interferência política na corporação, o presidente disse que o então ministro "tinha 27 superintendências" e que ele, Bolsonaro, "queria apenas uma, a do Rio de Janeiro".

O próprio presidente Jair Bolsonaro falou sobre o assunto. Em declaração à imprensa, Bolsonaro chamou de "mentira deslavada" o depoimento do ex-ministro da Justiça. Ele apresentou um trecho de conversa no qual o ministro supostamente diria a ele que se tratava de "fofoca" a notícia de que a Polícia Federal estaria investigando deputados ligados ao governo.

Aliados do presidente, por outro lado, enfatizaram trecho em que o ex-ministro diz que não atribuiu crimes a Bolsonaro. No depoimento, Moro diz à PF que "em nenhum momento, afirmou que o presidente da República teria praticado um crime e que essa avaliação cabe às instituições competentes".

O ex-ministro da Justiça depôs por oito horas, no sábado (2), em um inquérito aberto pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, para apurar se há crimes no relato feito por Moro ao pedir demissão do cargo, quando disse que o presidente demitiu Maurício Valeixo da direção-geral da PF a fim de ter ingerência sobre o órgão.

"Bolsonaro deixou claro para o o ex-ministro da Justiça o que queria: interferir na superintendência da Polícia Federal do Rio. Assim, poderia barrar investigações que avançam sobre seus filhos. Em vez de combater o crime organizado, como prometeu a seus eleitores, Bolsonaro comete crime de responsabilidade por obstruir investigações, motivo pelo qual pressionamos por seu impeachment", afirmou o líder da oposição no Congresso Nacional, deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), em manifestação por escrito à imprensa.

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), que enfrentou Bolsonaro no segundo turno de 2018, relacionou a fala de Moro com a decisão do novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre, de alterar o comando da Superintendência da PF no Rio, noticiada ontem

Para o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, o ex-juiz "praticamente inocenta Bolsonaro". "A íntegra do depoimento de Sérgio Moro à Polícia Federal revela que o ex-ministro tem muitas convicções, mas nenhuma prova".

Filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) compartilhou o trecho em que a fala de Moro a respeito de não estar atribuindo crimes específicos ao presidente foi noticiada pela CNN, seguido de uma ironia, com a exibição de créditos de encerramento de um filme.

Oposição


Mesmo entre a oposição, houve quem apontasse que o depoimento do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública foi falho em apontar provas contra o presidente. Parte dos comentários também ironizou Moro, relacionando o depoimento com o processo em que ele, então juiz, condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

"É vergonhoso, no entanto, que o ex-juiz, mestre em condenar sem provas, tenha evitado classificar como criminosa a postura do ex-chefe diante de tantas barbaridades relatadas", disse o senador Humberto Costa (PT-PE). Para a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), o importante é esclarecer quais casos estão de relevância estão sob os cuidados da PF do Rio de Janeiro.

A escritora Anielle Franco, irmã da vereadora Marielle Franco (PSOL), que foi assassinada em 2019, relacionou a frase no depoimento de Moro à apuração sobre o crime, que cobrou que seja solucionado.

Outras cobranças também foram feitas pelos deputados federais José Guimarães (PT-CE) e Paulo Teixeira (PT-SP). Guimarães, líder da oposição na Câmara, defendeu que as críticas trocadas entre o presidente e o ex-ministro sejam colocadas em segundo plano, em virtude da pandemia do novo coronavírus.

"O rei está nu. O Brasil em tempos de pandemia não pode ficar discutindo essa briga em Moro e Bolsonaro. Apuração já! E que Bolsonaro tenha vergonha e cuide da saúde do povo brasileiro", disse o parlamentar, em manifestação à imprensa.

Já o deputado Paulo Teixeira defendeu que o procurador-geral Augusto Aras peça a apreensão do celular do ex-ministro da Justiça, afirmando ser insuficiente a já feita entrega das mensagens que Moro travou com o presidente Jair Bolsonaro e com a deputada Carla Zambelli (PSL-SP).