Vídeo mostraria Bolsonaro dizendo que troca na PF-RJ seria para proteger família

Gravação de reunião ministerial foi incluída em investigação sobre suposta interferência do presidente na Polícia Federal

Da CNN, em Brasília e São Paulo
12 de maio de 2020 às 15:53 | Atualizado 12 de maio de 2020 às 18:32

O vídeo da reunião ministerial ocorrida em 22 de abril mostraria o presidente Jair Bolsonaro dizendo que a troca no comando da Polícia Federal no Rio seria necessária para proteger sua família contra uma suposta perseguição, apurou o âncora da CNN Daniel Adjuto nesta terça-feira (12).

Na gravação, Bolsonaro teria falado sobre a necessidade da troca a Sergio Moro, então ministro da Justiça. 

Segundo duas fontes que tiveram acesso ao vídeo e que foram ouvidas pela CNN, o vídeo "complicaria" a situação de Bolsonaro.

A defesa do presidente reconheceu que há uma menção à família, mas considera que esta citação não seria suficiente para mudar o patamar da investigação.

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O vídeo foi assistido nesta terça-feira (12) na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Para a defesa de Sergio Moro, o conteúdo "confirma integralmente as declarações" do ex-ministro e "não possui menção a nenhum tema sensível à segurança nacional", como alegou Bolsonaro na noite desta segunda-feira (11).

"É de extrema relevância e interesse público que a íntegra desse vídeo venha à tona", disse o advogado Rodrigo Sánchez Rios, que está atuando na defesa de Sergio Moro.

Ainda na segunda-feira, Bolsonaro afirmou que não está preocupado com o vídeo da reunião ministerial. A gravação faz parte da investigação aberta com autorização do STF (Supremo Tribunal Federal) depois que Moro deixou o governo acusando Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal.

Moro pediu demissão no dia 24 de abril, após Bolsonaro exonerar Maurício Valeixo da direção geral da PF. Em depoimento dentro da investigação, o ex-ministro disse que o presidente não explicou o motivo da mudança.

No mesmo depoimento, Moro afirmou que Bolsonaro também cobrou dele a mudança no comando da superintendência da PF no Rio, também sem dar explicações.

Ramagem

O primeiro escolhido de Bolsonaro para chefiar a PF após Valeixo foi o diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Alexandre Ramagem, que também é amigo da família Bolsonaro.

Em depoimento concedido à Polícia Federal na segunda-feira (11), Ramagem negou ser próximo da família Bolsonaro.

Ramagem teve a nomeação barrada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que vetou a indicação sob a justificativa de que as circunstâncias da troca de comando na PF estão sob investigação.

À PF, Moro disse que Bolsonaro queria Ramagem no comando da corporação desde janeiro, e afirmava que a nomeação era "uma questão de confiança".

Com o veto judicial à nomeação, Bolsonaro escolheu Rolando Alexandre de Souza para o comando da PF. Antes de assumir o cargo, Rolando atuava como secretário de Planejamento da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e era considerado o braço direito de Ramagem, que o levou para o cargo em setembro de 2019.