Saída de Teich mostra que Bolsonaro não queria 'obstáculo', diz Padilha

Para o ex-ministro da Saúde, o Brasil está "perdendo tempo" ao discutir o uso da cloroquina, enquanto os números de mortes pela Covid-19 "explode"

Da CNN, em São Paulo
15 de maio de 2020 às 15:26

Em entrevista à CNN, o deputado federal e ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP) avaliou a saída do ministro Nelson Teich da pasta da Saúde nesta sexta-feira (15) após 27 dias no cargo. De acordo com Padilha, as divergências entre Teich e Bolsonaro sobre a cloroquina no tratamento para o novo coronavírus determinaram a saída.

"Não é à toa que o Brasil está sendo considerado uma aberração e é o epicentro da pandemia. É a mesma coisa que você entrar para uma cirurgia e, no meio dela, descobrir que trocou a equipe médica. O ministro mal tinha apresentado um plano para a população sobre atendimentos, testes, leitos, proteção e já foi trocado. Essa mudança é uma resposta a uma exigência de Bolsonaro sobre a medicação de um medicamento. Como se o presidente tivesse estudado para ser médico, defesa que nem mesmo Trump faz mais", disse. 

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Para Padilha, o Brasil está "perdendo tempo" ao discutir a questão do medicamento, enquanto o número de mortes pelo novo coronavírus "explode".

"Diariamente Bolsonaro faz questão de desqualificar o Ministério da Saúde, evidenciando que não quer alguém como obstáculo, e isso é ainda mais grave durante a pandemia. Nós perdemos 30 dias, pois Teich não conseguiu colocar nada em prática e corremos o risco de perder mais dias, quando diariamente milhares de pessoas vão morrendo pela Covid-19. Nós ainda não temos nenhum estudo sobre a real eficácia [da cloroquina]". 

O ex-ministro defende a ampliação dos estudos sobre outros tipos de tratamentos e a existência de um plano bem estruturado de atendimento precoce aos pacientes com suspeita da doença.

"Devíamos estar dedicando mais tempo a montar um protocolo de atendimento antes do paciente chegar ao hospital. Isso, para mim, é o mais grave. Precisamos orientar as pessoas em um tratamento pré-hospitalar, isso que precisamos focar, não é no debate da cloroquina". 

Demissão

Nelson Teich se reuniu na manhã desta sexta-feira (15) com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O compromisso não constava na agenda oficial de Bolsonaro. O encontro durou cerca de 15 minutos.

O presidente defende mudanças no protocolo do uso da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus, mas Teich foi contra, o que vinha gerando críticas de bolsonaristas.

Pela manhã, o presidente afirmou que mudaria ainda nesta sexta o protocolo de uso da cloroquina adotado no sistema de saúde. Nos últimos dias, o presidente já havia citado a mudança. A declaração foi dada após apoiadores questionarem o presidente sobre o assunto no Palácio da Alvorada.

Atualmente, a recomendação é de que o medicamento seja usado no tratamento de pacientes em casos graves da Covid-19. A indicação está prevista em protocolo do Ministério da Saúde publicado ainda na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que deixou o cargo em 16 de abril.