'Bolsonaro coloca em risco a democracia todo santo dia', diz Marco Antônio Villa

Historiador analisa comportamento do presidente e ataques às instituições

Da CNN, em São Paulo
16 de maio de 2020 às 19:34 | Atualizado 17 de maio de 2020 às 08:38

O historiador Marco Antonio Villa analisa o comportamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em entrevista exclusiva à CNN, ele comenta o 'desrespeito' do chefe do executivo à democracia e traça um panorama sobre a situação atual do país e do governo.

"Ele tem uma enorme dificuldade de conviver com as instituições, de dialogar com os partidos, entender a democracia, o Estado democrático de direito, a Constituição. Tenho certeza que ele a desconhece, sequer a leu", dispara, explicando seu ponto de vista.

"Sua visão de mundo não faz parte do sistema democrático. Ele não é liberal, nem conservador. Bolsonaro não está na direita, ele está fora do espectro democrático. Ele é um perigo para as nossas instituições, coloca em risco a democracia brasileira todo santo dia. Exemplos não faltam".

Villa aponta que Bolsonaro dedica seu tempo a atacar outros poderes. "Se olharmos o conjunto de suas ações, sistematicamente ele ataca Supremo Tribunal Federal (STF), a representação máxima do Judiciário. Por outro lado, ataca sistematicamente o Poder Legislativo, o Congresso Nacional, desqualificando sua ação. Os crimes com relação à Constituição são inúmeros. Choques com as instituições, vários crimes constitucionais e ações lesivas ao interesse nacional".

"Ele já compareceu a várias manifestações que defendiam o fechamento do Congresso, do STF e imposição da ditadura. Quando você vai a uma manifestação como essa, concorda com o que eles estão defendendo. E ele concorda com isso, pois não consegue conviver com a alternância, com a democracia e o estado democrático de direito", continua.

O historiador acha que a reação foi abaixo do esperado, tanto do poder Legislativo quanto do Judiciário. "A resposta do Congresso foi tímida frente à maior agressão sofrida desde a vigência da Constituição de 1988. O STF também, manifestações tímidas. Creio que isso deva mudar com a revelação da gravação da reunião ministerial", diz, referindo-se a reunião citada pelo ex-ministro Sergio Moro como prova de que o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal

Postura antiga

Villa recorda que o comportamento di presidente não vem de hoje. "Não é só agora com a crise sanitária junto com a crise econômica e institucional, que é a pior da história do Brasil republicano. Se retroagirmos ao ano passado, quando começou o governo, Bolsonaro já tinha claramente feito manifestações antidemocráticas. Se puxar à época de deputado federal, ele defendeu guerra civil, a morte de 30 mil brasileiros, o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso..."

"Na presidência, defendeu torturadores, o (Carlos Alberto Brilhante) Ustra, um assassino que chefiou o DOI-CODI do 2º Exército, que assassinou dezenas de brasileiros entre 1970 e 1974. A nossa Constituição deixa bem claro que rejeita a tortura, ele defende torturador e tem o livro do coronel na mesa de trabalho. Só para provocar, tenho certeza que ele não leu sequer a orelha do livro", alfineta.

 
Foto: Reprodução/CNN

Sem reação

Villa aponta que os escândalos de corrupção, as crises econômicas e vazamento de gravações que assolam o país desde 1992 deixaram a população inerte para reagir e ocupar as ruas, como antes.

"Você tem uma sociedade civil anestesiada frente ao que aconteceu e os poderes não conseguem responder, tendo em vista essa sucessão de crises e gravidade da crise sanitária, econômica e político-institucional. Também não pode ter aglomeração por causa da crise sanitária. Há uma impossibilidade. Só vai às ruas ou as carreatas da morte, que são um pequeno grupo de pessoas, ou irresponsáveis em frente ao Palácio do Planalto com a conivência do presidente. Se você contar, são 200, 300 pessoas". 

Outra questão chama a atenção, analisa. "Temos uma ausência de lideranças. O país vive, na história do Brasil republicano, o pior momento em termos de lideranças políticas. Se você olhar em 1992, na crise que levou ao impeachment de Fernando Collor, você encontrava duas dezenas de pessoas que poderiam ser presidente da República. Hoje, em 2020, sobra dedos em uma mão: 'sai esse, entra aquele'".

O Partido dos Trabalhadores (PT) poderia ter criado alternativas nesse período, acredita. "O Lula, ao longo da história, sempre foi decepando todas as cabeças de liderança que pudessem rivalizar com ele. Não tem lideranças nacionais, e o Lula não tem aquele encanto. Ele foi durante um momento da história do nosso século quem melhor leu as conjunturas, conseguiu ganhar quatro eleições presidenciais consecutivas", disse, referindo-se aos dois mandatos do ex-presidente e às duas eleições de Dilma Rousseff. 

Isolado do mundo

A relação do país com o resto do mundo também não é boa, analisa o historiador. "Em termos de relações internacionais, hoje o Brasil é um país diplomaticamente isolado, uma África do Sul na época do apartheid. Que país estabelece hoje boas relações com o Brasil? União Europeia? Não. América Latina, idem, o Brasil tem problemas com o Mercosul. Com os Estados Unidos, também não, apesar da relação de subserviência do Bolsonaro".

A tendência é piorar, aponta. "Na Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil foi humilhado. Um presidente que é censurado nas redes sociais por postar notícias mentirosas, é crime de responsabilidade. Não vai ter o acordo União Europeia-Mercosul. Com tudo o que o Bolsonaro está fazendo hoje, esse acordo, que é fundamental para nossa recuperação econômica, não será aprovado. A China, nossa maior parceira, vai retaliar o Brasil por atos constantes de xenofobia", enumera.

Impeachment?

Ele crê que Bolsonaro não resistirá até 2022. "Sempre disse que ele não terminaria o mandato, e não terminará, para o bem do Brasil. O suicídio de uma nação é o que estamos assistindo, sem qualquer exagero. É condição sine qua non para sairmos dessa crise que ele, pela Constituição, saia do governo. Ou renuncie, ou um processo de impeachment, com crime de responsabilidade, ou infração penal comum, com acusação do Procurador Geral da República. Essa é a única saída". 

Mas não dá para esperar que a oposição lidere esse movimento, diz Villa. "O PT não quer o impeachment do Bolsonaro, quer levar ele sangrando nas cordas até 2022 para tentar vencê-lo nas urnas. O PT quer criar a polaridade de 2018 em 2022. Deve-se entender que o eleitor que votou no Bolsonaro, votou contra o PT. Não só a direita liberal não conseguiu construir candidaturas viáveis, como as candidaturas de centro ou centro-esquerda também não foram viáveis. Fora outros fatores, como a facada e a ausência dele (Bolsonaro) nos debates. Essa dualidade foi nefasta para o Brasil, e estamos vendo isso em 2020".

É difícil prever o futuro, explica. "No Brasil, dois anos é uma eternidade. Quem diria em 2016 que em 2018 Bolsonaro ganharia essa eleição? Acho que nem ele acreditava. A forma de solução dessa crise vai definir o processo eleitoral de 2022. Se conseguirmos que a solução no campo constitucional seja assumir o vice-presidente da República e o general (Hamilton) Mourão fizer o governo do Itamar Franco (1993/1994), faria a transição para que tenhamos um belo processo eleitoral".