'Não seria burra de divulgar informação privilegiada', diz Carla Zambelli

Em entrevista à CNN, deputada nega que tenha recebido alerta sobre operações da PF e diz que só estava defendendo o governo de acusações de Sergio Moro

Da CNN, em São Paulo
26 de maio de 2020 às 11:10 | Atualizado 26 de maio de 2020 às 21:18

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) negou que tenha recebido informações privilegiadas sobre operações da Polícia Federal (PF) e disse que não divulgaria nada que pudesse prejudicar o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“Foi uma coincidência? Não só isso. Se eu soubesse e tivesse informação privilegiada... eu não pareço ser uma pessoa burra, poderia até ser, mas não sou. Eu falaria isso publicamente se tivesse informação privilegiada?”, disse em entrevista à CNN.

“Principalmente eu, uma pessoa que tenta proteger as informações e o governo. Eu não faria isso. Só se quisesse prejudicar. E eu estava defendendo o governo ontem a respeito das infames coisas que o ex-ministro [Sergio Moro] afirmou do meu governo, do governo do presidente Bolsonaro”, completou.

Ela disse ter ficado muito feliz com a operação e disse esperar que muitas outras similares aconteçam também em outros estados.

Assista e leia também:

'Parabéns para a Polícia Federal', diz Bolsonaro sobre operação contra Witzel

PF nega relação da troca de comando no RJ com operação contra Witzel

A deputada afirmou que com as evidências de superfaturamento na compra de respiradores e outros equipamentos de forma emergencial para enfrenar a pandemia do novo coronavírus, "era só seguir uma linha de raciocínio".

"O governador Witzel soltou uma nota preocupado com meu possível envolvimento ou se tenho informações privilegiadas, mas qualquer pessoa que veja as informações no decorrer do curso sabe que vão acontecer operações", disse Zambelli.

Sobre a acusação feita por Witzel, em nota, de que o presidente Bolsonaro teria oficializado a interferência na PF, Zambelli ironizou: "Então o presidente também está agindo em cima do STJ [Superior Tribunal de Justiça, que emitiu os mandados de busca e apreensão]?"

"Então, antes de se preocupar com a denúncia de uma deputada de baixo clero, que sequer é líder de governo, que não é líder de partido, que não consegue aprovar nada na Câmara porque nenhuma lei passa, [Witzel] deveria estar preocupado com o processo. A água está chegando nele...está batendo e deveria ficar muito preocupado sim", completou.

Entrevista à emissora

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) afirmou, durante em entrevista à Rádio Gaúcha na segunda-feira (25), que a Polícia Federal (PF) deflagaria nos próximos meses operações contra governadores.

A declaração foi feita na véspera da Operação Placebo, que cumpre mandados de prisão em São Paulo e no Rio de Janeiro, incluindo na residência oficial do governador fluminense, Wilson Witzel (PSC), na casa onde ele morava antes de ser eleito e no escritório da esposa, Helena.

“A gente já teve algumas operações da Polícia Federal que estavam ali, na agulha para sair, mas não saíam. A gente deve ter, nos próximos meses, o que vamos chamar de ‘Covidão’ ou de... Não sei qual vai ser o nome que eles vão dar, mas já tem alguns governadores sendo investigados pela Polícia Federal”, disse a parlamentar na entrevista.

Sobre essa afirmação, de que as operações estavam na agulha para sair, mas não aconteciam, que poderia demonstrar que a deputada tinha informações sobre as decisões internas da PF, Zambelli voltou a negar qualquer tipo de informação privilegida e disse que usou a frase como uma "força de expressão". 

"[Falei] por conta de saber que a PGR [Procurador-Geral da República] tinha pedido investigação dos governadores para a PF sete dias atrás, como foi noticiado. A gente quer que saia [as operações], mas como eu afirmei, não há vazamento na PF", disse.

"Se eu soubesse de vazamento eu ia ficar calada, ia ficar quieta. Na verdade, isso é uma força de expressão como deputada que combate a corrupção [de dizer] 'tem que estar na agulha, tem que sair'. É uma questão de quase torcer para que haja mais operações como essa de hoje."

Ela disse ainda que se tivesse antevisto a repercussão da entrevista, não teria falado sobre possíveis operações. "A gente está aqui para falar e denunciar. Algumas vezes quem fala mais pode errar mais. Algumas vezes quem fala mais pode dar mais vazão à distorção de fatos, de coisas."

Em nota, o governo do Amazonas disse que "todas as aquisições feitas durante a pandemia de Covid-19 seguem trâmites legais e transparentes", e que as informações sobre os gastos podem ser consultadas no Portal da Transparência do estado.

O governo do Ceará afirmou, em nota, que "todo o processo de compra de ventiladores mecânicos, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e demais aquisições para a rede pública estadual de saúde nesse período de pandemia, segue os requisitos legais, observando os valores praticados frente à disponibilidade atual do mercado mundial." Ainda segundo o governo cearense, "todas as aquisições são informações públicas, disponíveis nas plataformas IntegraSUS e Ceará Transparente, estando submetidas aos órgãos de controle."

A Operação Placebo

A Polícia Federal cumpre mandados de busca e apreensão em vários endereços no Rio de Janeiro e em São Paulo, na manhã desta terça-feira (26). As equipes estão no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do estado, Wilson Witzel (PSC), e na casa onde ele morava antes de ser eleito, no bairro Grajaú.

Os agentes da PF também estão no endereço onde fica o escritório em que Helena Witzel, primeira-dama do estado atua, e na casa do ex-subsecretário de saúde, Gabriell Neves, no Leblon, zona sul da capital fluminense.

Assista e leia também:

Após operação da PF, Witzel convoca secretários para reunião

Análise: Investigações de desvios na Saúde do Rio comprometem imagem de Witzel

A Operação Placebo apura desvios na saúde pública do Rio em negociações de emergência durante a pandemia do novo coronavírus.

A investigação envolve a Polícia Civil, o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal e aponta para a existência de um esquema de corrupção envolvendo uma organização social contratada para a instalação de hospitais de campanha e servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde do estado do Rio de Janeiro.

Confiança na PF

Questionada sobre a possibilidade de haver vazamentos de informações na PF, Zambelli disse considerar que a instituição é uma das mais respeitadas do país.

"Eu não acredito que haja vazamentos na Polícia Federal, não tenho conhecimento sobre vazamentos na PF e falo isso olhando para a câmara", disse a política.

A deputada afirmou também que, dados os recursos limitados da companhia, a PF "consegue fazer maravilhas". "Pessoas que recebem alguns mil reais conseguem apreender milhões."

Outro lado

Mencionado por Zambelli no vídeo da entrevista à CNN sobre um teor político na decisão pela divulgação do vídeo da reunião ministerial de Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro Celso de Mello, do STF, afirmou que não irá se manifestar.

Quem também se manifestou sobre uma citação por Zambelli no vídeo foi o Departamento de Estradas de Rodagem (DER). "A assessoria de imprensa do DER esclarece que a deputada está desinformada. Os contratos em questão já foram suspensos, conforme publicação no DOE dos dias 18 e 23 de abril. O Departamento não utilizou, em hipótese alguma, o decreto de calamidade pública para os serviços de radares. O processo de contratação - sem nenhuma irregularidade - era anterior à pandemia do coronavírus e, justamente devido ao atual momento de crise da Covid-19, o DER decidiu suspender esses contratos, já que o Governo de São Paulo está redirecionando recursos para conter a doença. Somente depois das suspensões, o DER recebeu pedido de explicações do Ministério Público do Estado sobre estes contratos - e o Departamento já respondeu. O DER frisa ainda que o respeito às leis de trânsito, como o limite de velocidade estabelecido nas vias, é fundamental para a redução de acidentes e salvar vidas."