Em decisão, STF classifica 'gabinete do ódio' como associação criminosa

Alexandre de Moraes levou em conta o depoimento dos deputados federais Alexandre Frota e Joice Hasselman, ex-aliados do presidente Jair Bolsonaro 

Caio Junqueira
Por Caio Junqueira, CNN  
27 de maio de 2020 às 13:18 | Atualizado 27 de maio de 2020 às 16:33
Vista de plenário do STF durante sessão
Vista de plenário do STF durante sessão
Foto: Adriano Machado - 17.out.2019/Reuters

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes classifica o "gabinete do ódio" como uma possível associação criminosa. O documento foi obtido pela CNN. "Gabinete do ódio" é apontado como um local dentro do Palácio do Planalto em que servidores alinhados ao presidente Jair Bolsonaro elaboram fake news contra adversários políticos.

Para chegar a essa conclusão, o ministro levou em conta o depoimento dos deputados federais Alexandre Frota e Joice Hasselman, ex-aliados do presidente Jair Bolsonaro. 

"As provas colhidas e os laudos periciais apresentados nestes autos apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa, denominada nos depoimentos dos parlamentares como 'Gabinete do Ódio', dedicada a disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às Instituições, dentre elas o Supremo Tribunal Federal, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática."

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Moraes cita inclusive trechos dos depoimentos de Joice e Frota em sua decisão. "Some-se a esses fatos os depoimentos prestados pelos Deputados Federais Alexandre Frota e Joice Hasselmann em 17/12/2019, que narraram a existência de um grupo organizado conhecido por Gabinete do Ódio, dedicado a disseminação de notícias falsas e ataques a diversas pessoas e autoridades, dentre elas o Supremo Tribunal Federal. Todos esses investigados teriam ligação direta ou indiretamente com o aludido Gabinete do Ódio", diz a decisão, obtida pela CNN.  

Moraes também cita o depoimento do deputado Heitor Freire e a descrição que ele faz do "gabinete do ódio". 

"É do conhecimento do depoente que Matheus Sales, Mateus Matos Diniz e Tercio Arnaud Tomaz, todos assessores especiais da Presidência da República, são os integrantes principais do chamado “Gabinete do Ódio”, que se especializou em produzir e distribuir Fake News contra diversas autoridades, personalidades e até integrantes do Supremo Tribunal Federal. Esse “gabinete” coordena nacional e
regionalmente a propagação dessas mensagens falsas ou agressivas, contando para isso com a atuação interligada de uma grande quantidade de páginas nas redes sociais, que replicam quase instantaneamente as mensagens de interesse do “gabinete”. Essa organização conta com vários colaboradores nos diferentes Estados, a grande maioria sendo assessores de
parlamentares federais e estaduais."

Na decisão, Moraes coloca que cinco empresários seriam os financiadores do esquema. 

"Toda essa estrutura, aparentemente, está sendo financiada por um grupo de empresários que, conforme os indícios constantes dos autos, atuaria de maneira velada fornecendo recursos (das mais variadas formas), para os integrantes dessa organização. Os indícios apontam para EDGARD GOMES CORONA , LUCIANO HANG, OTAVIO OSCAR FAKHOURY, REYNALDO BIANCHI JUNIOR e WINSTON RODRIGUES 2, cujos endereços e qualificações também foram devidamente confirmados pela autoridade policial, tipificáveis, em tese e a um primeiro exame, nos arts. 138, 139, 140 e 288 do Código Penal, bem como nos arts. 18, 22, 23 e 26 da Lei 7.170/1983, todos na forma do art. 29, caput, do Código Penal."

A decisão também mostra os resultados de um laudo pericial feto na investigação. Ela mostrou que "analisando período determinado, ainda apontou que 'a análise deste material identificou que estes perfis começaram a publicar conteúdo negativo e ataques ao STF, ou seus membros, a partir de 07/11/2019. Inicialmente, sem utilizar hashtags, ou adotando a hashtag #STFVergonhaNacional”. "

STF
Pagina 3 da decisão de Alexandre de Moraes cita "gabinete do ódio"
Foto: Reprodução