No Alvorada, ex-apoiadora critica Bolsonaro e diz que presidente traiu eleitores

Mulher identificada como assessora do vereador Fernando Holiday (Patriota-SP) reclamou da gestão da crise das Covid-19 e da entrega de cargos para o centrão

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
10 de junho de 2020 às 10:31 | Atualizado 10 de junho de 2020 às 16:44

Uma assessora do vereador Fernando Holiday (Patriota-SP) criticou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na manhã desta quarta-feira (10), durante uma conversa na saída do Palácio da Alvorada. A ex-apoiadora lamentava a conduta do chefe do executivo durante a pandemia do novo coronavírus e a entrega de cargos para o centrão.

Assim que Bolsonaro desceu do carro oficial e se dirigiu ao grupo que o recebe diariamente na saída do Palácio, a mulher, identificada como Cristiane Bernart, afirmou: “Nós temos hoje aqui 38.406 mortos por causa de Covid. Eu trouxe esse cartaz só com o número para o senhor ver porque, realmente, não são 38 mil só de estatística. São 38 mil famílias que estão morrendo nesse momento. 30 mil pessoas que estão chorando”.

Bernart afirmou que apoiou Bolsonaro na campanha presidencial de 2018, mas que se sente traída pelas decisões recentes do governo de ceder cargos do segundo e terceiro escalão para nomes indicados pelo centrão.

“Eu fiz campanha para o senhor, acho até que o senhor me conhece, o senhor viu meus vídeos, tenho um canal no YouTube, Cris Bernart, fiz com todo meu coração. E eu sinto que o senhor traiu a nossa população, o senhor falou que não ia fazer conchavo, está entregando [inaudível] pro centrão”, afirmou a crítica.

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Sem que pudesse terminar sua fala, ela foi vaiada por outros apoiadores. Então, Bolsonaro respondeu: “Sai daqui, você já foi ouvida. Cobre seu governador”. 

Em outro momento, Bolsonaro voltou a citar a crítica quando falava do impacto econômico da pandemia da Covid-19.

“Agora vocês podem ver, está ali aquela figura falando abobrinha ali [se referindo a mulher que o criticou]. Quem decidiu fechar comércio, lockdown, tudo que competia exclusivamente aos governadores, foi o STF [Supremo Tribunal Federal]”, disse o presidente.

No fim do encontro com os apoiadores, ele criticou jornalistas e disse que esse episódio seria assunto na imprensa o dia todo. “Essa figura que estava aqui vai ser matéria agora na imprensa o dia todo. Agora, quem acreditar nessa imprensa aí, tem que sofrer mesmo", concluiu.

Apoio do vereador

Em mensagem publicada em sua conta no Twitter, Holiday confirmou que Bernart é sua assessora parlamentar, chamou de corajosa sua fala contra Bolsonaro e disse que ela não usou dinheiro público durante o protesto.

“A @CrisBernart, que protestou de forma corajosa contra o presidente hoje, é sim minha assessora. Mas, ao contrário do que o gado diz, ela não recebeu para isso. Não pertenço a mesma laia de quem usa dinheiro público para fazer manifestação”, escreveu Holiday.

Ele anexou uma cópia de documento enviado ao Departamento de Recursos Humanos da Câmara de São Paulo, datado de 9 de junho, no qual informa sobre a falta da servidora nesta quarta-feira por “manifestação pública de caráter político” e, por esse motivo, solicita o desconto de um dia do do salário dela.

A mensagem foi compartilhada para própria assessora, minutos depois, ressaltando que pediu licença não remunerada para viajar a Brasília para criticar Bolsonaro. Ela disse ainda apoiar a iniciativa do Movimento Brasil Livre (MBL) de apoiar um pedido de impeachment do presidente.

“A gadaiada tem dificuldade de aceitar q algumas pessoas não usam dinheiro público pra suas ações. Pedi licença não remunerada do gabinete (vide doc abaixo) e paguei meus custos. Todo cidadão deveria ter a coragem de cobrar os políticos como eu fiz. Apoio o @MBLivre no impeachment”, escreveu a assessora.