Temer confirma 'palpites' a Bolsonaro e diz que fase moderada faz bem ao país

Ex-presidente disse ter sugerido ao atual ocupante do Planalto que evitasse protestos com temas antidemocráticos e fala diária a apoiadores logo pela manhã

Da CNN
24 de julho de 2020 às 19:20

O ex-presidente Michel Temer (MDB) confirmou nesta sexta-feira (24), em entrevista exclusiva à CNN, que foi procurado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para "trocar ideias" e conceder alguns "palpites". O emedebista disse ter aconselhado Bolsonaro a evitar protestos com bandeiras antidemocráticas e a parar de falar diariamente com a imprensa e apoiadores no Palácio da Alvorada.

"Há 30 e poucos dias atrás, ele me telefonou, até disse que viria uma pessoa a São Paulo para conversar comigo. Trocar ideias, que é uma coisa mais do que natural. Nos Estados Unidos, o presidente muitas vezes ouve a experiência de presidentes anteriores. E eu dei alguns palpites", contou.

"Manifestações que pregam o fechamento do Congresso e o fechamento do Supremo não colaboram com a democracia e, portanto, não colaboram com ele, nem com o governo dele. Segundo ponto, é aquele que ele falava toda manhã na saída do Alvorada", defendeu.

Para Temer, "a palavra do presidente tem muita força institucional".

"Com a palavra, ele faz a agenda do país. E, ora, fazer a agenda do país 8h30, 9h, quando o dia está começando, é muito sério. Às vezes, uma contradição qualquer, uma palavra mais forte ou agressiva acaba pautando o dia todo".

O ex-presidente disse não acreditar que tenha impactado a decisão de Bolsonaro, mas que ela "fez bem para o governo, e, em simples, para o bem do país".

Militares

Questionado a respeito da alta do número de militares em cargos federais no governo Bolsonaro, que passa de 6 mil, Temer julgou a cifra como elevada, mas disse "não fazer distinção entre militar e civil".

"O militar quando foi para o ministério ou para uma função administrativa, ele está exercendo uma função civil", ponderou o ex-presidente.

O emedebista, no entanto, levantou uma preocupação: "É preciso tomar muito cuidado é evitar que a política entre nos quartéis".

"[As Forças Armadas] Não podem sofrer impacto de uma atuação política, são forças que se destinam à preservação da legitimidade institucional, da segurança pública e da lei e da ordem", argumentou.

Reformas

Temer afirmou que a promoção de uma reforma tributária é um plano antigo da sua carreira política, que tentou aprovar durante suas passagens pela presidência da Câmara dos Deputados. Sempre travou, disse, na dificuldade de conciliar interesses de estados, municípios e contribuintes.

Para Temer, a pauta "amadureceu", e é possível aprovar ainda este ano um projeto de reforma caso haja boa vontade de autoridades em construir um texto de consenso.

"Se eles se sentarem e juntar um trecho daqui, um trecho dali e vamos fazer uma reforma de simplificação tributária, é o momento. O Congresso, quando quer, vota", completou.

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Michel Temer ainda afirmou que o Brasil só poderá retomar o crescimento com atração de investimentos externos e que, para tal, precisará de reformas que promovam segurança jurídica e de estabilidade política.

"Nós vamos precisar de investimentos externos, há muitos fundos querendo investir em países, mas querem investir onde tiver segurança, estabilidade jurídica e enaltecimento da democracia", declarou.

MDB

O ex-presidente elogiou o nome do deputado Baleia Rossi (MDB-SP) como possível candidato a presidente da Câmara. Baleia Rossi é o presidente nacional do MDB, partido ao qual ambos pertencem.

"Sem fazer campanha de ninguém, mas respondendo objetivamente, ele tem condição para qualquer cargo", disse o ex-presidente.

Sem citar nomes, Temer afirmou que os outros que estão entre os mais cotados também foram articuladores importantes do seu governo, incluindo um ex-líder seu na Câmara -- referência a Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).

O emedebista elogiou a forma como Baleia Rossi tem conduzido o partido desde que assumiu a direção nacional da legenda. "O MDB continua com uma posição de independência em relação ao governo, mas nessa independência tem aprovado matérias que venham do governo e sejam do interesse do país", afirmou.

(Edição: Bernardo Barbosa)