Araújo cita erro de tradução e defende visita de Pompeo a Roraima

No Senado, chanceler negou que visita de secretário de Estado tenha relação com as eleições presidenciais americanas

Noeli Menezes, da CNN, em Brasília
24 de setembro de 2020 às 12:39
O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo
Foto: Luis Echeverria/Reuters (19.fev.2020)

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, negou nesta quinta-feira (24) que a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, aos refugiados venezuelanos em Boa Vista (RR) na sexta-feira (18) tenha relação com as eleições presidenciais americanas.

Segundo o chanceler brasileiro, existe convergência entre os democratas e republicanos sobre a situação na Venezuela e que Pompeo quis visitar a Operação Acolhida em Boa Vista como parte de um roteiro de viagens pela América do Sul.

Leia mais:
Maia critica visita de Pompeo próximo à fronteira com Venezuela
Lula diz que visita de Pompeo a Roraima é provocação à Venezuela

“A Operação Acolhida é elogiada internacionalmente. Os EUA já deram US$ 64 milhões para refugiados venezuelanos no Brasil. Mais US$ 30 milhões que os EUA anunciaram na sexta-feira em Boa Vista. Parece que faz todo sentido que o secretário visite a operação. A visita se deu em algumas horas. Teve uma reunião bilateral e depois uma coletiva de imprensa”, defendeu em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado para explicar a visita de Pompeo ao Brasil.

Araújo disse ainda que a polêmica sobre a visita foi causada por erro de tradução. “Um dos elementos mencionados pelo secretário Mike Pompeo foi objeto de polêmica por uma má tradução como já se sabe, como foi publicado na imprensa. Foi traduzido que ele haveria dito: “Nosso mundo está consistente e a gente vai tirar essa pessoa e vai colocar no lugar certo”, como se estivesse se referindo a Nicolás Maduro."

A tradução correta, continuou o ministro, seria: "Nossa vontade é consistente, coerente, nosso trabalho será incansável e chegaremos ao lugar certo”.

Em resposta à senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP), que questionou suposta mudança do posicionamento pacificador da diplomacia brasileira no governo Bolsonaro, Araújo disse considerar “equívoco achar que o Brasil está no mundo para intermediar situações entre outros países. Nós temos nossos interesses, posições e princípios. E nos articulamos com diversos países para alcançar esses objetivos”.

Telefonema

O ministro contou que a ideia da visita de Pompeo surgiu de um telefonema do secretário norte-americano, que queria viajar pela América do Sul, passando pelo Brasil, “mais especificamente pela Operação Acolhida, em Roraima”.

Afirmou ainda que “falar de terceiros países é comum em reuniões entre chanceleres de diferentes países”. “Falei no mesmo com o chanceler da China e também conversamos sobre a Venezuela.” Segundo Araújo, o ministro chinês se posicionou contra “atitudes drásticas”.

Ele disse ainda que o Brasil dá maior “importância aos direitos humanos e à democracia” e fez uma retrospectiva de eventos na Venezuela que levaram à “involução” do sistema democrático naquele país.
“Vejam que o que há na Venezuela é uma usurpação do Legislativo. Degradação e erosão das instituições venezuelanos ao longo do tempo. Um fenômeno que, se ocorresse em qualquer lugar no mundo, pelo menos qual as pessoas não tivessem essa estranha simpatia por Nicolas Maduro, seria denunciado como regime ditatorial da pior espécie.”

Araújo declarou que o atual governo é o primeiro a trabalhar “concretamente pela paz, e não retoricamente”. Para ele, “existe muita confusão, às vezes deliberada, às vezes não, quando se fala de Venezuela. Absolutamente nada do que estamos fazendo é contra o povo venezuelano, contra a Venezuela. Ofensa seria ignorar o sofrimento do povo venezuelano”. 

Bandeira


O senador Telmário Mota (PROS-RR), que articulou a ida do ministro ao Senado, questionou o montante de ajuda dos Estados Unidos aos imigrantes venezuelanos, porque falta tudo em Roraima. Para o senador, o secretário norte-americano deveria ter visitado Boa Vista no ápice da crise de imigração, e não agora, quando a fronteira está parcialmente fechada por causa a pandemia de Covid-19.

Telmário afirmou que percebeu a forte ideologia de Araújo e entregou uma bandeira do Brasil a ele, dizendo que todos os brasileiros devem ter o símbolo nacional no coração. 

Araújo agradeceu e disse que “já tem várias” bandeiras. “Não tenho a menor dúvida de que tenho a nossa bandeira no coração".