Como se posicionam os governadores após reunião com ministro da Saúde

Representantes executivos dos estados brasileiros se reuniram hoje com o Pazuello para definir qual será a estratégia de imunização contra o coronavírus

Will Marinho, da CNN, em São Paulo
08 de dezembro de 2020 às 23:08 | Atualizado 09 de dezembro de 2020 às 07:23

 

Após encontro com momentos de tensão entre governadores e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para falar sobre o plano de vacinação em massa no Brasil contra a Covid-19, líderes dos estados se manifestaram ao longo de toda esta terça-feira (8) sobre a possibilidade de cada unidade federativa adquirir e distribuir vacinas sem registro da Anvisa e sobre a situação da Coronavac.

Na reunião, o ministro foi cobrado a respeito da compra da Coronavac e o compromisso feito anteriormente de comprar 46 milhões de doses da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan e a chinesa Sinovac.

Pazuello disse que o governo vai negociar não especificamente com o Butantan, mas com "todas as vacinas que tiverem registro".

Reunião entre o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e os governadores de estado
Reunião entre o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e os governadores de estado que aconteceu nesta terça-feira (8)
Foto: Reprodução/CNN (08.dez.2020)


Também no encontro, João Doria (PSDB), governador de São Paulo, interveio e citou investimentos do governo em vacinas que não foram aprovadas ainda pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Doria ainda disse que havia motivação "de ordem ideológica, de ordem política, ou de falta de interesse em disponibilizar mais vacinas".

Pazuello afirmou que o governo não comprou vacinas, mas entrou em um consórcio para investir na fase fase de desenvolvimento, por exemplo.

Doria insistiu em saber se o Ministério da Saúde iria ou não comprar a Coronavac. Pazuello rebateu: "Quando o Butantan estiver com a vacina registrada, o governo avaliará a demanda. E se houver, irá comprar". Ainda alfinetou: "A vacina é do Butantan e não do estado de São Paulo."

No centro da discussão, após afirmar na segunda-feira (7) que a vacinação contra a Covid-19 começará no dia 25 de janeiro em São Paulo, Doria foi citado direta ou indiretamente nas falas de cada líder estadual durante esta terça.

Ronaldo Caiado

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), contestou João Doria. “Essa informação que foi levada ao conhecimento da população, de que São Paulo irá iniciar no dia 25 de janeiro uma campanha de imunização, não procede. Ela não tem a menor condição de ser implantada, até porque não existe vacina de São Paulo. A vacina é do Ministério da Saúde”, afirmou Caiado.

Helder Barbalho

Em consonância com outros governadores, Helder Barbalho (MDB), governador do Pará, disse que é contra a disputa entre os estados sobre qual deles receberá as primeiras doses da vacina.

“Não se pode, de maneira alguma, haver disputa entre estados brasileiros. No momento em que tiver uma vacina liberada pela Anvisa, que ela possa chegar de maneira igual para todos os brasileiros, de acordo com a estratégia de grupos prioritários, mas que nenhum brasileiro fique sem a igualdade na oportunidade de estar se vacinando", afirmou Barbalho

Flávio Dino

Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, entrou com uma ação judicial no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo autonomia para que os estados brasileiros possam adquirir as vacinas já autorizadas por agências reguladoras internacionais. 

Dino declarou que “em vista da falta de uma definição de aquisição de uma vacina contra Covid-19 pelo Ministério da Saúde e do anúncio do governo de São Paulo, que iniciará a imunização em 25 de janeiro, o governo do Maranhão vai adquirir o máximo possível de vacinas disponibilizadas pelo Instituto Butantan".

Em entrevista à CNN, o governador lembrou que Bolsonaro chamou o novo coronavírus de “gripezinha” e disse que apesar de confiar no ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, tem dúvidas sobre a influência do presidente nas decisões dos órgãos de saúde do estado brasileiro.

“O Ministro Pazuello tem seriedade, mas está tolhido pelas pressões de Bolsonaro, por isso acredito que Congresso e Supremo são as instâncias que vão trazer saídas para a má condução do presidente da República,” disse Dino.

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirmou, em entrevista à CNN na noite desta terça-feira (8), que entrou em contato com o governo de São Paulo para adquirir doses da Coronavac, feita pelo Instituto Butantan, devido à ausência de um Plano Nacional de Imunização.

Segundo ele, sua gestão acatará o plano nacional, mas, enquanto ele não é apresentado, seu governo "não pode ficar parado".

Welligton Dias

O governador do Piauí, Welligton Dias, manifestou opinião semelhante. Segundo ele, é necessário usar a vacina que for aprovada primeiro.

“A Anvisa tem poder de aprovação emergencial da vacina para atender a necessidade da população brasileira o mais rápido possível. Se podemos começar a vacinação em janeiro, por que começar em fevereiro? Fomos claros ao ministro, precisamos da vacina que for aprovada primeiro", enfatiza Dias.

Cláudio Castro

Sobre o pedido de Dino, o governador interino do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC), rejeita a ideia. “Pedir é um direito constitucional dele, mas o Rio de Janeiro não fará isso”, comunicou Castro, ressaltando que respeita a opinião de Dino e que o considera um amigo.

“A Constituição permite. O Supremo autorizou. Nenhuma vacina até agora tem autorização da Anvisa. Mas certamente todas terão e deverão ser adotadas pelo Ministério da Saúde. Sem exceção”, disse. 

 

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Romeu Zema

Romeu Zema (NOVO), governador de Minas Gerais, disse que vai seguir o Programa Nacional de Imunização (PNI) e afirmou que o Ministério de Saúde já adquiriu doses da vacina.

“O ministro confirmou a aquisição de 300 milhões de doses. Como são necessárias duas doses, estamos falando de 150 milhões de brasileiros que serão imunizados. Com toda a certeza, não haverá falta de vacina”, disse Zema, que também reforçou que nenhum estado deve ser privilegiado no processo de imunização.

"A imunização será feita nacionalmente, com todos os Estados e municípios tendo uma coordenação e uma vacina nacional, o que é justo. Não podemos ter ninguém privilegiado numa questão de saúde", afirmou o governador na entrevista.

Zema falou também do início da imunização. "Muito provavelmente vai ser iniciada em janeiro ou fevereiro. Cabe a cada Estado estar se preparando. Essa questão é de autonomia de cada Estado, e tem esse prazo, de 45 a 60 dias, para se organizarem e a vacina seja distribuida com segurança".

Eduardo Leite

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, declarou que acredita PNI com a liderança do Ministério da Saúde voltado ao combate à Covid-19.

"Eu apoio, defendo e acredito, e tenho razões para isso porque tudo aquilo que foi apresentado, como disponibilização de leitos, respiradores e equipamentos, foi atendido para o governo do Rio Grande do Sul. Então, eu confio também na disponibilização da vacina", disse.

"Diante da politização que se apresenta neste debate, nós estabeleceremos outros contatos caso essa confiança acabe frustrada".

“Um país como o Brasil, que tem um Programa Nacional de Imunização com mais de 47 anos de tradição, funcionando efetivamente, erradicando doenças no país, não faz sentido que a gente abra uma disputa entre estados e municípios nessa estrutura federativa e acabemos todos disputando no mercado a compra de vacinas”, argumentou.

(Com infromações de Igor Gadelha, Kenzo Machida e Renata Agostini)