'Bolsonaro confunde ações de estado com sua vontade', diz professor Carlos Melo

Carlos Melo analisa reforma ministerial feita pelo governo e guerra com governadores na maneira de enfrentar a pandemia

Produzido por Layane Serrano, da CNN, em São Paulo
30 de março de 2021 às 22:11 | Atualizado 30 de março de 2021 às 22:18

A mudança em seis ministérios do governo feita pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reflete mais suas vontades que ações pelo Estado, avaliou o professor do Insper Carlos Melo, em entrevista à CNN nesta terça-feira (30).

"O impacto ainda teremos ao longo do tempo. Ficou claro que ele não tinha sobre a Defesa a ascendência que pretendia ter e busca tê-la agora, de forma equivocada, sem compreender que as Forças Armadas são de estado, não de governo. Ele mexeu uma peça, o ministro Azevedo mexeu outra ao sair, e os comandantes entregaram seus cargos. Para medir o impacto, teremos de ver quem serão os substitutos", afirmou.

Conforme noticiou o analista da CNN Caio Junqueira nesta terça-feira, Bolsonaro pediu ao novo ministro da Defesa, Braga Netto, apoio explícito à narrativa sobre a pandemia. O presidente quer que o chefe das Forças Armadas manifeste que a população tem o direito constitucional de ir e vir e que determinadas situações nos estados são inaceitáveis.

Na avaliação de Melo, o posicionamento do presidente contra as medidas restritivas no combate à pandemia - como, por exemplo, a ação contra os governadores que moveu no Supremo Tribunal Federal (STF) - servem para "fazer valer sua visão de política de estado personalista".

"A política de distanciamento social é de saúde pública. Estado de sítio é uma medida político-militar onde a ordem do estado está em profundo risco. Confundir essas duas coisas é de um equívoco enorme, atroz. O presidente criou essa confusão artificialmente para de alguma forma fazer valer sua visão de política de estado personalista", avalia.

Para professor, mudanças em ministros demonstram vontades do presidente
Foto: Mateus Bonomi/Agif - Agência De Fotografia/Estadão Conteúdo

O Ministério da Defesa informou hoje que os três comandantes das Forças Armadas serão substituídos: Edson Pujol, do Exército, Ilques Barbosa Junior, da Marinha, e Antonio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica. A decisão foi anunciada em nota após uma reunião nesta manhã com o novo ministro da pasta e o ex-ocupante do cargo, Fernando Azevedo e Silva. 

O analista da CNN Igor Gadelha apurou com generais e auxiliares do governo que as substituições ocorreram a pedido do presidente Jair Bolsonaro.

Até a noite de ontem, os comandantes avaliavam que não seria correto entregar os cargos antes de ouvir o novo ministro. 

Eles queriam avaliar como se dará o estreitamento da relação entre as Forças Armadas e o Palácio do Planalto, o que teria motivado a demissão de Fernando Azevedo. Segundo fontes ouvidas pelo analista da CNN Caio Junqueira, o presidente estava incomodado com a postura das Forças em relação ao governo.

Na análise do professor do Insper, "o presidente confunde as ações de estado com sua vontade, vem forçando a mão para que as instituições sigam seus ditames, sua vontade, e tem encontrado resistência. Caso contrário, não teria promovido essas mudanças. Há nitidamente uma tentativa de tomar para si o controle das instituições."