Investigação não pode obstruir causas de mortes, diz senador da CPI da Pandemia

Em entrevista à CNN, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) comentou expectativas sobre os depoimentos que têm início nesta semana

Jorge Fernando, Layane Serrano e Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo
02 de maio de 2021 às 18:34 | Atualizado 02 de maio de 2021 às 19:33

Em entrevista à CNN neste domingo (2), o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, comentou expectativas sobre os depoimentos do processo, que terá início nesta semana.

"Essa investigação não pode ser para obstruir as causas que levaram às milhares de mortes. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, pelo menos 90 mil mortes poderiam ter sido evitadas. O que a CPI quer buscar como resposta é o que poderia ter sido feito e o que faltou em fazer para salvar esses nossos compatriotas", afirmou Rodrigues.

Segundo o senador, o depoimento mais esperado da semana é o do ex-ministro Eduardo Pazuello. Rodrigues elencou fatos ocorridos no Brasil durante a pandemia, durante a gestão do ex-ministro.

Segundo ele, sob o comando de Pazuello, "O Brasil deixou de adquirir ou adquiriu tardiamente as vacinas que precisávamos para o enfrentamento da pandemia. Foi sob a gestão do Pazuello que foi aplicado por orientação do próprio Ministério da Saúde, o chamado tratamento precoce, sem eficácia comprovada. Sob a gestão ocorreu o dramático colapso no fornecimento do oxigênio em Manaus, onde pessoas morreram por asfixia", afirmou.

Sobre o diálogo com o governo federal

O senador afirmou que não foi procurado por integrantes do governo para diálogo sobre a condução da CPI - o que considera adequado.

"O governo do presidente Jair Bolsonaro se não tem nada a dever, não terá o que temer desta Comissão Parlamentar de Inquérito que é contra o coronavírus, não contra o governo ou a favor de oposição. Se o governo tomou todas providências para impedir que nós chegássemos a este colapso sanitário que chegamos, se o governo tomou todas as providências necessárias para aquisição de vacinas, não há o que temer", disse.

Depoimentos de ex-ministros da Saúde

A comissão irá ouvir os ex-ministros da Saúde, começando por Luiz Henrique Mandetta (DEM), na próxima terça-feira (4). No mesmo dia, à tarde, Nelson Teich realizará depoimento à comissão. Em relação ao ex-ministro Mandetta, Rodrigues afirmou que serão buscados esclarecimentos sobre as medidas tomadas para evitar a chegada do vírus ao país e quais as razões contribuíram para a saída do cargo. Em relação a Nelson Teich, o senador apontou que serão questionados aspectos sobre o tratamento precoce com o uso da hidroxicloroquina.

Na quarta-feira (5), o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que comandou a pasta por quase um ano, será ouvido. A produção e distribuição no país de remédios sem comprovação científica contra a Covid-19 é um dos temas que serão questionados no depoimento. Também serão abordados o projeto do aplicativo de auxílio para a prescrição do chamado kit Covid, o TrateCov, e as falhas na logística da pasta durante a crise.

Segundo Rodrigues, até o momento, o ministro da Economia Paulo Guedes não está no radar para ser ouvido pela CPI. Já o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deve ser ouvido por conta da política do governo em relação às vacinas. "Por que não foram adquiridas as vacinas da Pfizer, se teve alguma obstrução na aquisição da Sputnik V, por que o Brasil aderiu tão tardiamente ao consórcio internacional Covax Facility são algumas questões inevitáveis que devemos ouvir do ex-ministro Ernesto Araújo", disse.

Depoimentos do Ministério da Saúde e Anvisa acontecem na quinta-feira

Na quinta-feira (6), serão ouvidos o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres. Segundo Rodrigues, da parte da Anvisa, serão questionadas possíveis interferências políticas na autorização de vacinas. "É importante entendermos quais critérios a Agência Nacional de Vigilância Sanitária está adotando para a autorização de novas vacinas e a celeridade em relação ao enfrentamento da pandemia", disse.

"Em relação ao ministro da Saúde, é importante sabermos quais medidas estão sendo adotadas caso tenhamos eventualmente uma terceira onda; se existe ou não incompatibilidade entre as diretrizes do Ministério da Saúde no enfrentamento da pandemia, que advoga pelo uso de máscaras e contra as aglomerações, e o que pensa o palácio do Planalto. É importante saber por que somente em setembro teremos a conclusão da vacinação de todos os grupos prioritários e a crise que muitas capitais estão vivendo de colapso no fornecimento da segunda dose da vacina", completou.

Ministro da Justiça será ouvido pela CPI

O ministro da Justiça, Anderson Torres, será convocado a depor à CPI. O grupo de senadores de oposição e independentes, que controla os trabalhos da CPI, tomou a decisão após entrevista à revista Veja na qual Torres declarou que irá requisitar informações sobre os inquéritos que envolvem governadores em desvios de recursos da saúde.

O grupo considerou as declarações como ameaça aos trabalhos do colegiado e realizou um requerimento que deverá ser debatido na próxima sessão deliberativa prevista para o dia 11 de maio.

"O depoimento do senhor atual ministro da Justiça foi um pouco nesse sentido, se engana quem acredita que terá algum tipo de sucesso com intimidações. Nós teremos foco na investigação. Quem não for aliado do vírus e não for aliado da pandemia não tem o que temer", disse.