Planalto já avalia relatório paralelo para a CPI da Pandemia

Possibilidade de Renan Calheiros (MDB-AL) imputar 'crime contra a humanidade' ao presidente Jair Bolsonaro preocupa governo federal

Caio Junqueira
Por Caio Junqueira, CNN  
03 de maio de 2021 às 20:01 | Atualizado 03 de maio de 2021 às 21:15

 O Palácio do Planalto já avalia a possibilidade de elaborar um relatório paralelo para contrapor os trabalhos do relator, Renan Calheiros (MDB-AL), na CPI da Pandemia.

A possibilidade já vem sendo discutida por interlocutores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diante dos sinais de que Renan tende a conduzir os trabalhos com a intenção de sugerir pelo menos três crimes a integrantes do governo: 1) crime comum 2) crimes de responsabilidade 3) crimes contra a humanidade.

Esse último, aliás, foi mencionado por Renan no discurso de estreia na CPI e assustou o Palácio do Planalto. Segundo fontes, chegou a ser um dos tópicos da conversa entre Bolsonaro e o ex-presidente José Sarney (MDB) na semana passada.

Renan já deu sinais de que pretende incluir esse tipo de crime no documento final até por saber, segundo seus interlocutores, que os eventuais crimes comuns e de responsabilidade não deverão ter maiores desdobramentos, na prática.

Para ser processado por crime comum, é preciso uma denúncia da Procuradoria-geral da República, algo improvável a ser feito por Augusto Aras. Crime de responsabilidade seria tocado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), algo considerado também improvável.

Restaria, portanto, a sugestão de crime contra a humanidade em um documento oficial do Poder Legislativo que teria o condão de subsidiar em qualquer país, vez que transnacional, e a qualquer momento, vez que imprescritível, a atribuição de responsabilidade de Bolsonaro.  

O governo, porém, ainda avalia que o relatório paralelo é um passo posterior se a estratégia principal não der certo: municiar os senadores governistas com todas as informações sobre destinação e utilização de recursos nos estados, expor as decisões tomadas por governadores e as investigações em curso no país e se utilizar das ruas como instrumento de pressão política contra a CPI.

Parte dessa estratégia já foi colocada em prática hoje. O ministro das Comunicações, Fabio Faria, postou um vídeo no qual o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), diz que David Uip orientou o então ministro Luiz Henrique Mandetta que distribuísse cloroquina na rede pública.

O governo de São Paulo respondeu o ministro. Por nota, disse que as mortes em São Paulo e no Brasil seriam drasticamente menores se o Ministério das Comunicações tivesse tido uma postura responsável e informasse corretamente à população.

Ao invés de informar com dados verídicos e com responsabilidade, como é esperado de alguém no seu cargo, o ministro prefere poluir a discussão. Primeiro, o Ministério, na figura de seu representante maior, patrocinou a morte em seus canais oficiais e minimizou o tempo todo a força do vírus, que já matou mais de 400 mil pessoas no Brasil. Segundo, o Ministério não promoveu campanhas preventivas e informativas quando a pandemia teve início.

Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros e Omar Aziz em reunião da CPI da Pandemia
Randolfe Rodrigues (vice-presidente), Renan Calheiros (relator) e Omar Aziz (presidente) em reunião da CPI da Pandemia
Foto: Jefferson Rudy - 29.abr.2021/Agência Senado