À CPI, Araújo diz que orientações para o Itamaraty vieram do Ministério da Saúde

Ex-ministro das Relações Exteriores diz que não havia um documento único sobre atuação internacional em questões da pandemia, mas sim diretrizes caso a caso

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo, e Bia Gurgel, da CNN, em Brasília
18 de maio de 2021 às 10:57 | Atualizado 18 de maio de 2021 às 10:59

A atuação do Itamaraty durante a pandemia de Covid-19 foi feita sob orientações que partiram, na maioria dos casos, do Ministério da Saúde, disse o ex-chanceler Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Pandemia nesta terça-feira (18).

"Quase sempre, as recomendações que o Itamaraty recebeu vieram a partir do Ministério da Saúde, de acordo com o requisito do momento. Mas não tenho conhecimento de um plano único da dimensão internacional do enfrentamento à pandemia", disse o ex-ministro das Relações Exteriores.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL) o questionou mais de uma vez sobre a existência de diretrizes para a atuação internacional do governo em questões relativas à pandemia. Araújo afirmou que não existia um documento único, mas sim orientações de acordo com diferentes momentos e situações.

"Houve orientações, imagino que passadas ao Ministério da Saúde, mas não tenho conhecimento [das passadas à Saúde]. O Itamaraty, praticamente em todos momentos, atuou por coordenação com o Ministério da Saúde", reforçou.

'Não promovi atrito com a China'

Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, fala à CPI da Pandemia
Foto: Reprodução/CNN Brasil (18.mai.2021)

Em determinado momento, Calheiros afirmou que durante a pandemia foram testemunhados atritos com a China e perguntou se isso teria impactado na negociação de imunizantes contra a Covid-19.

"Acho que a descrição de aspectos de nossa política externa é uma visão que não corresponde à realidade do que foi implementado. Não houve um alinhamento com os EUA, mas uma aproximação. Mas seja com EUA ou qualquer outro país, só entramos em iniciativas do interesse brasileiro e que correspondessem aos nossos interesses de política externa", disse Araújo.

"Jamais provi nenhum atrito com a China, seja antes ou durante a pandemia. De modo que os resultados que obtivemos durante a pandemia decorrem de uma política externa que foi implementada de acordo com os nossos objetivos, mas não era uma política de alinhamento automático com os EUA nem anti-multilateral e nem de enfrentamento com a China."

Durante a gestão de Araújo no Itamaraty, no entanto, o Brasil ficou cerca de 10 meses sem estabelecer contato com a embaixada da China no país – o rompimento de relações teve início após o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) criticar publicamente o país asiático e o embaixador Yang Wanming.

Na época, o então chanceler afirmou que esperava um pedido de desculpas por parte do governo chinês  já que uma manifestação do embaixador, em resposta a Eduardo Bolsonaro, havia citado também o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Relação com Trump não afetou negociação com Biden

Araújo também negou que a proximidade da política externa de sua gestão com a implementada durante o governo do ex-presidente dos EUA Donald Trump tenha dificultado contatos e negociações com a atual gestão, de Joe Biden.

"Acredito que de nenhuma maneira nos prejudicou. Eu dizia na época que nossa aproximação, os acordos que negociávamos eram com os EUA e não com o presidente Trump, embora, claro, a boa relação entre os dois presidentes facilitasse o avanço desses entendimentos - e não havia porque não explorá-lo", explicou à CPI.

"Mas com a mudança de governo nos EUA houve uma mudança de ênfase por parte do governo americano. Ainda na minha gestão já estávamos em contato muito estreito, fluído e frutífero com o novo governo americano para, digamos, rearmar a relação a partir dessas novas prioridades do governo americano", completou.