Versão do TrateCov que foi ao ar era protótipo, diz secretária à CPI

Mayra Pinheiro diz que objetivo era oferecer ferramenta para ajudar médicos a diagnosticar Covid-19; plataforma recomendava remédios sem comprovação de eficácia

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo, e Bia Gurgel, da CNN, em Brasília
25 de maio de 2021 às 12:24 | Atualizado 25 de maio de 2021 às 13:38

A secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, afirmou nesta terça-feira (25) que o aplicativo TrateCov – apresentado em janeiro pelo Ministério da Saúde – era um protótipo que foi abandonado após ter dados extraídos, no seu entendimento, de forma indevida por um jornalista.

"Foi lançada na versão prototípica no dia 11 [de janeiro]. Entre os dias 11 e 20 estávamos cadastrando os [números de] CRMs para que apenas os médicos pudessem utilizar. Na madrugada do dia 20, houve a extração indevida dos dados dessa plataforma", afirmou Pinheiro, em depoimento à CPI da Pandemia.

A plataforma recomendava uma série de remédios sem comprovação de eficácia contra a doença, como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina, dependendo dos sintomas relatados pelo paciente.

À época do caso, o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu comunicado em que disse que a ferramenta não preservava o sigilo das informações e não deixava claro como seriam utilizadas, além de permitir o preenchimento por pessoas não especializadas, o que poderia induzir à automedicação.

Mayra afirmou que a plataforma não chegou a ser colocada no ar oficialmente para uso, já que seu desenvolvimento foi interrompido após o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, determinar a apuração do ocorrido.

"Essa ferramenta poderia ter ajudado a salvar muitas vidas em auxílio aos testes diagnósticos. Poderia ter ajudado a secretaria estadual e municipal de manaus. Tudo isso foi perdido. A ordem do ministro por conta do uso indevido foi tirar do ar, afastar o servidor e foi feito um boletim de ocorrência", continuou a secretária.

A secretária disse ainda que existem mais de 300 ferramentas em uso em todo o mundo com funcionamento semelhante – a partir da inserção de dados parametrizados – que auxiliam no diagnósticos de doenças, como a dengue.

Aplicativo do Ministério da Saúde, TrateCOV
Foto: Reprodução/Casa Civil (14.jan.2021)

Plataforma não foi hackeada

A secretária do Ministério da Saúde também afirmou aos senadores que o TrateCov não foi hackeado, como disse Pazuello em seu depoimento à CPI e como ela própria havia dito, anteriormente, à Polícia Federal (PF).

"Ele não conseguiu hackear. Ele fez uma extração indevida de dados. Hackear é quando usa a senha de alguém, entra em uma plataforma, um sistema. Não é hackeamento o termo – que foi usado por leigos. Hoje temos o laudo que classifica como extração indevida de dados", afirmou Mayra.

Ela também declarou que não houve qualquer tipo de alteração no códigos-fonte da plataforma ou nãs recomendações emitidas pelo TrateCov "porque o sistema era seguro". "Ele só fez simulações indevidas. [O sistema] foi retirado do ar para investigação."

A secretária se comprometeu ainda, a pedido do relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL) a fornecer para a comissão todo o código-fonte do protótipo da plataforma, bem como os parâmetros utilizados por ela nos diagnósticos,