Deputado diz à CNN que levou a Bolsonaro 'provas' de irregularidades com Covaxin

Luís Miranda (DEM) afirmou que presidente sabia que "tinha crime" na compra de imunizantes

Renata Agostini
Por Renata Agostini, CNN  
23 de junho de 2021 às 11:55 | Atualizado 23 de junho de 2021 às 14:32

 O deputado Luís Miranda (DEM-DF) afirmou nesta quarta-feira (23) à CNN que levou pessoalmente ao presidente Jair Bolsonaro "provas contundentes" de irregularidades nas negociações para a compra da vacina Covaxin

"O presidente sabia que tinha crime naquilo", disse o deputado. Miranda é irmão de um servidor do Ministério da Saúde que, segundo ele, teve conhecimento dos problemas. De acordo com o parlamentar, após o encontro, Bolsonaro ficou "convencido" e se comprometeu a acionar "imediatamente" a Polícia Federal.

"Entreguei a Bolsonaro. O caso não é só de pressão. É gravíssimo: tem desvio de conduta, invoice [nota fiscal] irregular, pedido de pagamento antecipado que o contrato não previa, quantidades diferentes", disse Miranda à CNN.

Miranda afirmou que decidiu ir ao presidente porque seu irmão, Luis Ricardo Fernandes Miranda, estava sofrendo retaliação por resistir a anuir com as tratativas. Ele já havia sido exonerado de um cargo de confiança e, segundo o deputado, só retomou o posto após o próprio parlamentar procurar diretamente o então ministro Eduardo Pazuello.

"Quando eu vi que o caso era grave e vi que poderiam ter pessoas envolvidas do alto escalão, fui direto no presidente. Fiz a pedido do meu irmão, que não confiava em ninguém e estava com medo", afirmou.

O dia do aviso ao presidente

Miranda disse que o irmão foi cobrado para acelerar a assinatura da nota fiscal das vacinas numa sexta-feira, dia 19 de março, às 23 horas. "Eu disse a ele, Luis: 'dorme e amanhã vamos ao presidente Bolsonaro, porque não sabemos mais em quem confiar'", afirmou.

De acordo com o deputado, o encontro com o presidente ocorreu no dia 20 de março, às 16h30. Miranda conta que ele, o irmão e a esposa, que ficou na antessala, se encontraram com o presidente e entregaram provas concretas: a cópia do contrato, a nota fiscal que seria fraudulenta e a comparação entre elas. "O presidente demonstra que se convenceu dos indícios de irregularidade, disse que ia encaminhar para o DG [Diretor-geral] da Polícia Federal para devidas providências".

Miranda disse que levou a Bolsonaro uma série de documentos para que não houvesse dúvidas sobre a acusação. "Relatos? Ele não ia acreditar em mim, não. Os amigos dele que estão lá dentro, ué. Levei provas contundentes. Ele [Bolsonaro] se convenceu e ficou de chamar o DG [diretor-geral da Polícia Federal]".

Entretanto, Miranda não recebeu retorno sobre o caso. No dia 23 de março, ele conta que enviou uma mensagem ao secretário-adjunto do presidente perguntando se ele estaria chateado.

"Eu defendo os policiais e o combate à corrupção, levo para pessoa eleita na mesma plataforma que a minha, não tinha motivo para o presidente não ter gostado da informação, estou protegendo nosso país", disse Miranda. O secretário teria respondido que não, que seriam muitas demandas e que relembraria Bolsonaro.

No dia seguinte, dia 24 de março, o deputado diz ter procurado o presidente novamente ao saber que as vacinas estariam próximas do vencimento e que, para dar tempo de importar, distribuir e vacinar a população com essas doses, "teria que fazer mágica". Miranda diz nunca mais ter conseguido contato com o presidente.

Pressão sobre Pazuello

O deputado disse também ter contado o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sobre as irregularidades no dia 21 de março, domingo, em uma aeronave rumo a São Paulo para buscar vacinas.

"Ele disse que estava sendo espremido por problemas e que tinha certeza que seria exonerado", conta. Para Miranda, Pazuello foi "expulso do Ministério" por uma estrutura que o impediu de lutar contra a corrupção. "A estrutura o impediu de fazer o que era certo".

Corrupção e depoimento à CPI

Miranda afirmou que o grupo econômico encarregado das negociações para trazer a Covaxin ao Brasil já se envolveu em outros problemas no passado e que sua pauta é de "combate à corrupção".

"Qual a minha plataforma? Minha plataforma é segurança pública e combate à corrupção. Tem vários parlamentares que têm essa plataforma. Plataforma política, de vida, de tudo. Quem é o cara que tem a mesma plataforma que a gente e está no executivo? O Bolsonaro", afirmou.

O depoimento dos irmãos Miranda já está previsto na CPI da Pandemia. Senadores que compõem a comissão afirmaram à CNN que já foram avisados da disposição de Miranda de relatar as irregularidades e os avisos feitos diretamente ao presidente.

A CPI da Pandemia requisitou, no inicio da tarde desta quarta, segurança para o deputado Luis Miranda, ao irmão e aos familiares, de acordo com o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), integrante da comissão parlamentar. 

Procurado, o Palácio do Planalto ainda não se manifestou. A CNN procurou também o Ministério da Saúde e o ex-ministro Eduardo Pazuello e aguarda retorno.

Em nota, a Precisa Medicamentos disse que as tratativas com o Ministério da Saúde seguiram todos os caminhos formais e de forma transparente. Sobre o valor da vacina, a empresa afirmou que foi o mesmo cobrado dos governos de outros treze países.

(Com informações de Bárbara Baião)