À PF, Cabral relata que Romário teria recebido R$ 3,5 milhões para apoiar Pezão

Em respostas à CNN, o senador e os demais citados por Cabral negam as participações nos crimes

Ex-governador Sérgio Cabral é preso durante a Operação Calicute, 37ª fase da Operação Lava Jato (17.nov.2016)
Ex-governador Sérgio Cabral é preso durante a Operação Calicute, 37ª fase da Operação Lava Jato (17.nov.2016) Foto: Arquivo/ Agência Brasil

Maria Mazzei, Leandro Resende e Iuri Corsini, da CNN, no Rio

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Em acordo de delação premiada com a Polícia Federal, o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, relatou que o PMDB (hoje MDB) teria pago, de forma indevida, o então senador Romário (Podemos) — na época do PSB — para que ele, supostamente, apoiasse a candidatura de Luiz Fernando Pezão, no segundo turno das eleições de 2014, para o governo do Rio.

Segundo as afirmações de Cabral, o acordo teria sido fechado em R$ 5 milhões e mais a promessa de que Romário poderia indicar o presidente da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec). O relato feito por Cabral consta no relatório policial número 091 /2019, que faz parte do conteúdo da delação premiada, a que a CNN teve acesso. Em notas à CNN, o senador Romário e os demais os citados por Cabral negam as participações nos crimes.

Do valor acertado, segundo Cabral, Romário teria recebido R$ 3,5 milhões e o pagamento teria sido viabilizado por Hudson Braga, então subsecretário estadual de Obras do governo. Para isso, Braga teria usado a estrutura financeira montada no governo Cabral, a chamada “taxa de oxigênio”, 1% do valor de contratos públicos pagos pelas empreiteiras como forma de propina. Hudson Braga foi preso em 2016, junto com Cabral. Um ano depois, em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, que conduz a Lava Jato no Rio de Janeiro, ele admitiu que a “taxa cobrada já era algo institucionalizado no governo e que não foi criada por ele”. Braga é apontado pelos investigadores como o controlador das planilhas de pagamento.

Romário
Romário (PSB-RJ) discursa durante sessão especial destinada a comemorar o Dia Internacional da Síndrome de Down (20.mar.2014)
Foto: Pedro França /Agência Senado

 

Para os delegados da Polícia Federal, que ouviram o ex-governador do Rio, o acordo entre Romário e o PMDB, se de fato aconteceu, “configura, em tese, a prática dos crimes de Corrupção Passiva (art, 317 do CP) e Corrupção Ativa (art. 333 do CP)”. “O repasse teria sido feito por Hudson Braga junto uma pessoa indicada por Romário e que foi seu assessor e responsável pelas finanças da campanha ao Senado Federal, em 2014”, afirmou Cabral aos investigadores.

Porém, ainda de acordo com Sérgio Cabral, corroborado por notícias da época, Pezão, após eleito, não teria cumprido o acordo de nomear uma pessoa da relação de Romário para a Faetec-RJ. Cabral disse à PF que Pezão e Hudson teriam relatado a ele que Romário “estava chateado em virtude do não cumprimento integral do acordo financeiro e de não ter sido nomeada a pessoa de sua confiança para a Faetec”.

 

Após analisar o depoimento de Cabral, a Polícia Federal destacou no relatório que “na espécie, os fatos relatados pelo colaborador Sérgio Cabral foram minimamente confirmados durante o trabalho de pesquisa e análise, demonstrando ter verossimilhança e coerência”. A PF afirmou, ainda, que “foram encontrados elementos preliminares acerca da intermediação de Sérgio Cabral para o apoio do então deputado Romário ao candidato Pezão na disputa ao Governo do Estado do Rio de Janeiro”.

Relação entre Cabral e Romário

Sérgio Cabral e Romário se conheceram na época em que Cabral era presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no começo dos anos 2000, época em que Romário estava na condição de ex-atleta. Romário teria comparecido no aniversário de um dos filhos de Cabral, no Jockey Clube do Rio.

Em 2010, Romário recebeu o convite do então deputado federal e presidente estadual do PSB no Rio, Alexandre Cardoso, para ingressar na política. O ex-jogador concorreu, em 2010, ao cargo de deputado federal pelo PSB, tendo vencido o pleito.
Entre os anos de 2011 e 2014, Romário e Cabral, então governador do Rio neste período, tiveram uma relação conturbada. Segundo Cabral, Romário queria ocupar a Secretaria de Esporte e Lazer do Estado do Rio, desejo este que não foi realizado, pois seu partido, o PSB, já ocupava a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Sendo assim, Romário teria feito algumas críticas sobre as obras da Copa do Mundo, principalmente as do Maracanã.

Já em 2014, suposto ano da compra do apoio de Romário pelo PMDB, segundo Cabral, o ex-jogador se candidatou ao Senado Federal e apoiou, no primeiro turno, o candidato ao governo do Rio, Lindbergh Faria, do PT. Romário foi eleito ao Senado, Lindbergh não venceu o pleito e o segundo turno na disputa pelo governo do estado do Rio ficou entre Pezão e Crivella. E Pezão acabou eleito.

Outro lado

Em nota, através de sua assessoria de imprensa, o senador Romário respondeu que: “Essas delações têm servido amplamente para difamar adversários políticos para conseguir benefícios judiciais, sem que nada tenha sido provado”. O senador destacou ainda que não há qualquer investigação contra ele e disse que “Cabral é um mentiroso”.

Romário também afirmou que: “desde 2017, essas acusações, essas insinuações vêm sendo ventiladas e repercutidas pela imprensa, mas absolutamente nada foi provado. O que mostra um claro intuito de macular a minha imagem com fins eleitorais. O objetivo sempre foi o de tirar o meu foco, eu sou candidato à reeleição no Senado e nenhum safado, corrupto e ladrão como o Cabral vai me tirar desse objetivo.”

Sobre as acusações feitas por Cabral, a CNN entrou em contato com Hudson Braga e com o ex-governador Luiz Fernando Pezão e não obteve retorno.

Em nota, a defesa de Sérgio Cabral informou que o acordo de colaboração premiada do ex-governador “foi homologado pelo STF por estar pautado rigorosamente dentro da legalidade” E afirmou que “nunca o Ministério Público Federal ou a PGR disseram textualmente que não queriam celebrar acordo de colaboração premiada com o ex-governador. Inaceitável se tentar abalar o trabalho sério realizado pela Polícia Federal, com base em argumentos mentirosos, vociferados covardemente da boca de verdadeiros aproveitadores.”, destacou o advogado Márcio Delambert.

 

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