Bolsonaro reclama da PF em fala entregue pela AGU: ‘Vou interferir’

Em outro trecho da reunião ministerial, presidente teria dito que não iria esperar "f." sua família; STF vai decidir se divulga vídeo

Gabriela Coelho e Basília Rodrigues

Da CNN, em Brasília

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O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reclamou, na reunião ministerial de 22 de abril, de não receber “informações” da Polícia Federal e da inteligência das Forças Armadas e disse que iria “interferir”. Bolsonaro também disse que não iria esperar alguém prejudicar “sua família toda de sacanagem” porque não poderia “trocar alguém da segurança na ponta da linha”. As declarações estão transcritas em documentos entregues nesta quinta-feira (14) pela Advocacia-Geral da União (AGU) ao Supremo Tribunal Federal (STF) dentro da investigação sobre a suposta interferência de Bolsonaro na PF.

Segundo a AGU, estas seriam as declarações pertinentes às acusações do ex-ministro da Justiça Sergio Moro sobre a interferência do presidente na direção da PF e na superintendência da corporação no Rio. No mesmo documento, a AGU se manifesta favorável à divulgação de “todas” as falas de Bolsonaro na reunião, com exceção daquelas sobre outros países, chamados de “nações amigas” no pedido. O órgão também pede o sigilo sobre tudo o que foi dito por outros participantes da reunião. 

Na reclamação sobre a falta de informações, a AGU não explica o contexto das declarações do presidente. Leia a íntegra deste trecho:

“(…) Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações; eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não têm informações; a ABIN tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque tá faltando realmente… temos probiemas… aparelhamento, etc. A gente não pode viver sem informação, Quem é que nunca ficou atrás da… da… da… porta ouvindo o que o seu filho ou a sua filha tá comentando? Tem que ver pra depois… depois que ela engravida não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, não adianta mais falar com ele: já era. E informação é assim. [referências a Nações amigas] Então essa e a preocupação que temos que ter: ‘a questão estratégia’. E não estamos tendo. E me desculpe o serviço de informação nosso — todos — é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado, e não dá para trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade. (…)”

De acordo com um dos documentos da AGU, o primeiro ministro que falou após Bolsonaro fazer essas reclamações foi Sergio Moro.

Já a citação de Bolsonaro à sua família teria sido precedida, segundo a AGU, da menção a uma notícia sobre um irmão do presidente não estar usando máscara em um açougue no interior de São Paulo, o que não seria verdade. Leia a íntegra da declaração do presidente, de acordo com a AGU:

“(…) Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o Ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira. (…)”

A AGU faz uma ressalva sobre o termo “segurança nossa”. Segundo o órgão, “ainda que sem adiantar juízo de valor, importa lembrar que a segurança presidencial é realizada pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, órgão que tem a competência de ‘zelar, assegurado o poder de policia, pela segurança pessoal do Presidente da República’, bem assim, ‘dos familiares do Presidente da República'”.

Ontem, a defesa de Moro enviou ao Supremo Tribunal Federal um documento reiterando o pedido de divulgação integral do conteúdo da polêmica reunião ministerial, que provaria, segundo o ex-ministro, interferência na Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro.

O ministro Celso de Mello, do STF, determinou, na última terça (12), que o procurador-geral da República, o advogado-geral da União e os advogados de Moro se manifestem, em 48 horas, sobre o levantamento, total ou parcial que ainda incide sobre o registro audiovisual da reunião ministerial de abril.  Segundo Moro, há clara ausência de qualquer assunto pertinente a segredo de Estado ou que possa gerar incidente diplomático, muito menos colocar em risco a segurança nacional.

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O vídeo foi exibido no Instituto Nacional de Criminalística da PF, em Brasília, para a Procuradoria-Geral da República (PGR), a PF, a AGU e a defesa de Moro.

Na manifestação de hoje, a AGU faz ressalva para que sejam excluídas as manifestações do presidente sobre outros países e as falas dos demais participantes da reunião.

Em live na noite desta quinta-feira (14), o presidente disse que quem espera que o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril seja um “xeque-mate” vai “cair do cavalo”. O presidente defendeu a divulgação de trechos da gravação, mas afirmou que a divulgação na íntegra poderia colocar em risco o país e as relações com parceiros comerciais.

Bolsonaro disse contar com a sensibilidade do relator do caso, ministro Celso de Mello, para evitar “liberar tudo”.

Defesa de Moro critica

A defesa do ex-ministro afirmou que a AGU teve acesso à íntegra do vídeo referente à reunião ministerial.

“Sergio Moro e seus advogados foram surpreendidos com a petição da AGU, em favor do presidente da República, no inquérito junto ao STF.  A transcrição parcial revela disparidade de armas, pois demonstra que a AGU tem acesso ao vídeo, enquanto a defesa de Sergio Moro não tem. A petição contém transcrições literais de trechos das declarações do Presidente, mas com omissão do contexto e de trechos relevantes para a adequada compreensão do que ocorreu na reunião – inclusive, na parte da ‘segurança do RJ’, do trecho imediatamente precedente”, dizem os advogados.

A defesa de Sergio Moro ressalta a “necessidade urgente da liberação do vídeo na íntegra”.

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